O desmonte do DEM – o que isso tem a nos dizer?

Cesar Mangolin

As denúnicas de corrupção que pipocaram no DF e na campanha do prefeito Kassab em SP apenas selaram e tornaram pública a decadência de um partido herdeiro do entulho da ditadura militar e representante do que há de mais reacionário no Brasil.

A  mudança de nome – de PFL para DEM – não deixou de ser a última tentativa de tornar palatável e “modernoso” esse agrupamento da reação. Nas urnas, porém, vem tendo resultados pífios, o que demonstra sua baixa representatividade.

Possuindo determinada influência em setores abastados da sociedade brasileira – grandes proprietários de terras, alguns empresários, classes médias tradicionais – o peso eleitoral do PFL, ou do DEM, sempre foi a população de mais baixa renda, principalmente nos chamados grotões do Brasil.

O revés político-eleitoral está ligado diretamente a chegada de políticas sociais do governo federal nesses grotões e uma guinada eleitoral dessas camadas que, desgraçadamente, necessitam desses auxílios para manter a subsistência.

De perfil geralmente conservador – porque as possibilidades de mudanças representam a possível piora de suas já precárias condições de vida – esse setor não migra nas urnas para proposições mais avançadas, de centro-esquerda, como é o perfil do partido do presidente Lula: migra em busca (em suas condições, bastante justa) da continuidade dos tais programas sociais.

É aí que me parece que a decadência do DEM tem mais a nos dizer…

Sua extinção torna-se possível por ter perdido essa base eleitoral, como tratávamos acima, mas também perde, no outro extremo, suas “bases” mais abastadas, seja porque o agronegócio e as grandes corporações vão paulatinamente tomando conta das terras no Brasil, seja porque o atual governo contempla os interesses do grande capital, mantendo, através de suas políticas sociais, um clima de segurança e tranquilidade institucional, necessárias para garantir os investimentos.

A verdade é que nenhum dos dois setores extremos fazem diferença de projeto e de partido.

O capital jamais padeceu por fidelidade partidária, nem viveu com crise de consciência por virar a casaca de forma tão fácil. O que lhe interessa é a realização dos lucros e, se essas condições são realizadas sob um governo de um partido chamado “dos trabalhadores”, não há problema algum.

O que nos espera na campanha em 2010 não é uma disputa entre projetos diferentes para o Brasil, mas a comparação entre governos no que tange a capacidade de manutenção da estabilidade econômica e política. E isso dá larga margem de vantagem à candidata do PT.

Não é a toa que órgãos da grande imprensa têm tentado sugerir ao povo que um governo de Dilma seria mais “à esquerda” que o governo de Lula. Sabemos que não há possibilidade de que isso ocorra, mas a sugestão visa incutir medo não no grande capital, mas nesse setores mais empobrecidos da população brasileira.

Mais do mesmo espera a população brasileira. E o governo que consegue atender os interesses do grande capital e, ao mesmo tempo garantir uma renda básica à população mais empobrecida, mas sem reformas estruturais que caminhem para a eliminação do fosso que separa os mais pobres dos mais ricos no Brasil – seja ele capitaneado pelo PT ou pelo PSDB – será bem acolhido e muito bem votado. Nada de ir à esquerda, nada de mudança. É necessário que tudo continue como está.

Dessa forma, não há diferença entre projetos, não há a diferenciação entre os partidos e, consequentemente, resultados eleitorais como o que ocorreu no Chile recentemente não seriam de grande surpresa no Brasil.

As concessões feitas para que se pudesse chegar aos governos centrais por diversas organizações da esquerda latinoamericana tornaram seus projetos sem identidade e facilmente assimiláveis – porque próximos – pelas organizações da direita. Para a população não há grandes diferenças.

A festejada guinada à esquerda na América latina deve ser pensada com mais cuidado pelos mais afoitos. Além de estarmos em plena reação conservadora por parte do império estadunidense, os governos ditos de esquerda tiveram, quase todos, que fazer sua própria versão da “Carta aos brasileiros” que o PT foi obrigado a fazer em 2002 para acalmar os ânimos do grande capital, com exceção da Venezuela e da Bolívia.

Nos parece menos pior uma vitória do PT nessas eleições, exatamente para a manutenção das políticas sociais que garantem a subsistência de milhões de brasileiros. Nada indica que numa possível vitória do PSDB teremos uma reação dos partidos e dos movimentos populares. Nada indica que Serra presidente represente  um acirramento das lutas populares no Brasil. Apenas deve crescer a criminalização aos movimentos sociais.

A pasmaceira prática vai permanecer na esquerda, seja qual for o resultado das eleições. Melhor torcer pelo que seja menos pior para o povo mais empobrecido.

A retomada de um projeto socialista para o Brasil – ainda que o tenhamos formulado por algumas organizações e trabalhemos nesse sentido – ainda demorará um bom tempo.

Nesse meio tempo, é necessário manter a luta nas frentes populares, avançar na organização e na luta anti-imperialista.

A decadência do DEM, enfim, é um sintoma da uniformização política no Brasil, extremamente danosa para a discussão de projetos.

Deixemos que os mortos enterrem seus mortos…

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