Comentários sobre o quadro atual e a união entre teoria e prática

Seguem duas reflexões que têm origem em perguntas feitas por estudantes do curso de ciências sociais da UMESP. Resolvi colocá-las aqui para compartilhar e quem sabe debatê-las com os que quiserem.

Não estão teoricamente sistematizadas:  assumem a forma de um “bate-papo virtual”. Daí seu caráter informal e um tanto quanto pessimista, como dizem alguns. Na minha análise, são produtos da mais pura realidade.

Como sempre, insisto que essa tal realidade é muito ruim e violenta. Melhor seria viver no mundo da normalidade, onde todos vêm esse mundo como algo pleno de oportunidades para a felicidade e  o prazer. Como a loucura é uma questão de maioria apenas, prefiro continuar louco. Nesse caso é irreversível. Mas, loucos mesmos são vocês, que vêm beleza nessa lata de lixo que é o nosso mundo.

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Seu “desabafo” não formula uma questão específica, mas tem uma determinada compreensão da realidade que não é de todo equivicada, salvo algumas generalizações.

Nosso problema maior, e central, é a reprodução do capitalismo, seus efeitos e contradições.

A mercantilização, que faz com que tudo e todos passem a ter um preço, é produto disso.

De certa forma somos todos prostitutos. Vendemos parte considerável do nosso tempo para garantir a sobrevivência. Os que não conseguem vender se desesperam e engrossam os cordões da miséria, da criminalidade, das estatísticas dos mortos por fome…

As instituições (ou os aparelhos ideológicos) acabam por assumir a representação dominante da sociedade atual (seus aspectos mercantis) e passam a torná-lo o valor universal. Vende-se educação, vende-se informação, vende-se felicidade, vende-se até a salvação eterna…

Estudar a ideologia e sua articulação com as demais estruturas é fundamental para compreendermos isso. As representações deturpadas que temos da nossa própria inserção nas relações sociais nos dá a legitimidade dessa ordem e faz com que a vejamos como natural. A própria relação mercantil, que parece prevalecer, não é o centro do problema: ela é ideológica também. As relações capitalistas de exploração não são idênticas às relações mercantis. Mas paramos aí: vemo-nos como indivíduos livres e juridicamente iguais, proprietários privados de mercadorias (um, força de trabalho, outro, dinheiro – o equivalente universal) que se encontram no “mercado de trabalho” para realizar trocas, firmar contratos, livremente. Dessa forma isso parece sempre muito justo.

Não nos vemos inseridos em classes sociais, não nos vemos sofrendo a exploração do trabalho, que consome o melhor de nossos dias e nossas energias no enriquecimento de elementos de outra classe. Não percebemos que nossa existência perde o sentido quando é gasta, na maior parte de seu tempo, na execução de um trabalho que, no geral, se detesta e é um fardo, porém necessário à sobrevivência.

Nesse mundo a alegria é contingente e episódica. As coisas são assim…

A única possibilidade de mudança desse quadro é a transformação radical das relações sociais de produção. Isso  é sinônimo de revolução. Uma possibilidade histórica pela qual vale a pena gastar a outra parte do tempo de vida que nos resta após a venda cotidiana do nosso trabalho e, por consequência, de nós mesmos.

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O cenário é, de fato, desolador. Concordo  que o que mais temos são pensadores que somente pensam de barriga cheia a miséria humana, como me disse um estudante.

Também vemos os trabalhadores percorrerem o caminho do trabalho para casa e da casa ao trabalho, ou na procura de algo que lhes garanta a sobrevivência, lutando pela sua escravização como se lutassem pela liberdade.

Porém  ainda há os que lutam e o quadro de refluxo teórico e prático coloca a estes desafios cada vez maiores.

As revoluções não são feitas por atos de vontade: são produtos de condições objetivas e subjetivas, numa conjunção que Lênin chamava de crise revolucionária.

A luta antiimprerialista ainda vai tomar muitas décadas na AL. Essa é nossa contradição principal, como dizia Mao Tse Tung. O romper com o imperialismo, ou criar impasses para sua dominação, torna-se na atualidade uma frente de luta que toca diretamente na ferida da luta de classes. Por isso a defesa de experiências como a de Cuba e da Venezuela, da Bolívia e do Equador, da luta das FARC e do ELN e os mandatos progressistas pela AL afora, apesar das contradições todas.

Apontar essas contradições, pensar essas experiências significa também “torcer” para que se encaminhem para uma radicalização da luta de classes, para a construção socialista, para o definitivo rompimento com a ordem do capital.

Aqui também devemos caminhar nesse sentido: constituir um bloco revolucionário do proletariado, que conjugue partidos, sindicatos e movimentos populares com esse objetivo é uma tarefa da atualidade. Fazer frente às ambiguidades do governo Lula, sua crítica pela esquerda e, ao mesmo tempo, impedir que o que há de mais tacanho na política brasileira volte ao governo também é um desafio atual. A diferença entre um novo governo do PT e um do PSDB pode ser o aumento da criminalização dos movimentos populares num governo desse último. Taticamente nos interessa maior liberdade possível de manobra nesse campo. Nos vemos então diante do dilema de não apoiar a candidatura petista e, ao mesmo tempo, perceber que é “mais pior” a vitória do outro candidato nessas eleições polarizadas.

Nossa tarefa, portanto, também é pensar. A frente teórica é uma frente de luta também. Uma frente importante, aliás, para os que unem teoria e prática. Sem teoria revolucionária não há prática revolucionária, nos ensinava Lênin.

Pensar a tática correta, de acordo com o horizonte estratégico, saber reconhecer a contradição principal e as secundárias, atuar no sentido de agudizar essas contradições, perceber o deslocamento delas e saber neutralizar em cada momento determinados agentes inimigos para ganhar força no combate de cada conjuntura: eis os desafios que a prática e as contradições nos colocam cotidianamente. Mao Tse Tung, novamente, soube formular teoricamente muito bem essas questões.

 Escrevi tudo isso para insistir que a prática é importante, a frente teórica é importante, os desafios são imensos diante do quadro de refluxo que vivemos. É fácil para alguns partidos da esquerda (que se diz revolucionária) lançar palavras de ordem ao vento, como se nossa questão fosse apenas de ter razão, nossa luta fosse apenas um julgamento individual e moral de identificação de que lado se está.

O lado que cada um samba (e todos temos um lado nessa história) é importante, sem dúvida. Já que estou abusando das citações, não há ninguém inocente nesse campo, como dizia Marighela. Mais importante que isso é saber intervir nesse emaranhado de contradições de forma ativa e que construa, de fato, caminhos para o avanço da luta de classes e do processo revolucionário.

“Fazer” a revolução não depende de tomada de posição. Depende de ação revolucionária consequente, isso envolve a prática militante, que compreende também a reflexão teórica.

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