Os tempos mudam, a luta continua

Estava assistindo uns documentários curtos sobre a ditadura, num site ligado ao movimento pelo resgate da história e da verdade dos anos de chumbo…. Comecei a lembrar de inúmeros camaradas que viveram e lutaram naqueles tempos, que tiveram a sorte de sobreviver e contar para os da minha geração o que foi tudo aquilo. Sempre tive uma curiosidade enorme sobre aqueles tempos, desde 1987, quando ainda não tínhamos tanta coisa assim publicada e eu era bem menino (15 ou 16 anos).

Acabei por me lembrar de uma historinha que escrevi em 2003, sobre um inusitado passeio ao DOPS, que me marcou profundamente.

Publico aqui a historinha. Algo mais leve que o meu otimismo trágico de costume.

Cesar Mangolin

“E aí velho, tudo bem? Onde você está?”

“Estou comendo no McDonalds. Que manda?”

“Nós vamos agora a tarde lá no Dops, vamos também?”

“Legal. Passa em casa lá pelas três”.

Diálogo estranho!

Ainda mais tratando-se de dois membros do Partido Comunista! Ao desligar o telefone era inevitável que alguns pensamentos não passassem pela cabeça, algumas reflexões acerca de nossa história recente e, ainda mais, de como vivemos com os tempos que a abertura política trouxe.

Não há dúvida, e é bom que se diga desde o início, que nem todos cederam aos encantos da gordurosa e baixa qualidade da cozinha yankee. Muito menos aos lanches feitos como linha de produção, lanches que, por serem mercadorias, possuem valor de troca. Não são feitos para serem comidos: são feitos para serem vendidos. Quando não atingem seu fim, são jogados fora. Interessante isto: o uso que se vai fazer do lanche pouco importa, apesar da grande quantidade de famintos espalhados pelas nossas cidades, pelo nosso País. Se alguém compra o lanche e o esparrama na cara, ou joga na parede, ou qualquer outra coisa que se possa fazer utilizando a imaginação com aquelas batatinhas, tudo bem! É dele. O comprou. Além disto, não é apenas algo para se encher a barriga.

Aquilo é mais um estilo de vida. Explico-me: a forma rápida com que saem os lanches, batatas e refrigerantes, as cores do ambiente, a forma como é montada a lanchonete sugere rapidez, faz com que os infelizes que ali comem algo sintam que tudo aquilo deve ser rápido. Não é um local para sociabilizações, para conversas. É um lugar para encher o bucho e dar lugar, rapidamente, para quem vem depois.

Tudo bem! Por vezes é necessário, pela correria da vida, comer algo rápido e partir. Mas por que existem sempre filas imensas nos malditos McDonalds e não nos outros lugares nas praças de alimentação dos shoppings centers? Não se pode dizer que aquilo é gostoso, porque não é mesmo. Muito menos o preço. É possível almoçar três vezes num boteco que faz prato feito com o dinheiro que se gasta num daqueles combinados com enorme quantidade de calorias. Aquilo é mais que comida de baixa qualidade: é ideologia que enche barriga, uma parcela pequena do estilo de vida estadunidense, que absorvemos por todos os meios e por todos os lados.

Bem, mas o que deu origem a esta questão foi o diálogo inimaginável a vinte ou trinta anos atrás entre dois comunistas. Ocorreu há uns dois anos.

Abriram, após uma reforma, o prédio do Dops para visitação pública.

Apenas estávamos marcando um passeio de domingo, com um elevado peso histórico, é verdade, mas apenas mais um passeio. As celas hoje têm ar condicionado, foram pintadas, o prédio está muito bonito, até as imediações está com um ar diferente e causaria estranheza a muitos, não fosse a persistência das putas e dos traficantes pelo local.

Livres para ir e vir, nós, que nascemos e crescemos durante a ditadura, não temos a exata dimensão do que se passou naquelas duas décadas. Parece algo tão distante de nossas vidas. Talvez acreditemos até que foi um período de grandes atos de heroísmo, com um certo grau de romantização da coisa, com um elevado grau de vontade de ter vivido o momento para sermos, igualmente, heróis do povo brasileiro. Como se esta fosse a intenção dos que resistiram, muitos de arma em punho, aos desmandos dos milicos…

Teríamos hoje condições para assumirmos tal tarefa? A geração McDonalds, do shopping center, teria capacidade de organizar-se, de resistir, de lutar pelos ideais que moviam aqueles jovens e velhos militantes, homens e mulheres dispostos a dar a vida na luta pela liberdade e pela nossa causa? Difícil responder…

Talvez muitos de nós gostaria de ser um remanescente daqueles tempos, para ostentar, orgulhoso, o título de guerrilheiro, de combatente ou qualquer outra coisa, como muitos, aliás, fazem. Ter a coragem e a convicção de assumir a luta, já é outra conversa.

 Porém, não se pode prever em qual ou quais situações exigirão de nós tamanha resposta. Apenas podemos saber que, nestes momentos, seremos cobrados pelo exemplo e pela luta de tantos quantos morreram em combate, como uma voz nos dizendo: a luta não parou, a luta continua, é hora de vencermos!

Como mudam os tempos e como não mudam os nossos inimigos de classe. Como temos plena liberdade, nós comunistas, de irmos hoje ao Dops e de, amanhã, estarmos trancafiados ali ou em qualquer outro lugar que se tornará um museu para a posteridade!

Não fosse um companheiro, já lá pelos seus sessenta e poucos anos, que chorava um choro extremamente triste, olhando para dentro de uma das celas, sem coragem de passar pela sua porta, poderia pensar que ali nunca teria sido o lugar tenebroso relatado em livros e por camaradas que viveram aqueles tempos.

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