Resposta a um empresário

Caros camaradas

copio e colo abaixo uma pequena troca de palavras que tive com um certo empresário, por e-mail, nesta semana. Pareceu, pelo menos, algo interessante para se rir. Mas também pode ser algo interessante para se pensar na forma agressiva como ele se dirige aos comunistas.

A origem da conversa foi uma dessas correntes carregadas de preconceitos. Essa recebi de um religioso e, devido à quantidade de expressões preconceituosas, decidi responder chamando-lhe a atenção. Tratava de Lula e de Dilma (e eu nem sou petista!). Chamava Dilma, por exemplo, de “perereca ignorante” e daí pra baixo. Daí foi que nosso amigo empresário me enviou sua mensagem, que respondi com o mesmo prazer que tenho de acordar as seis da manhã em dias frios para ir ao médico, mas com muita gentileza e tentando fazer-lhe pensar um pouco, se é que isso seja possível.

Tenho colhido algumas reações estranhas nesse início de semestre. Ou eu estou radicalizando muito, ou a reação está mais preocupada.

Coloco abaixo, portanto, a mensagem que me enviou o tal empresário (retirei o nome dele, obviamente) e, logo abaixo, a minha mensagem de volta.

A MENSAGEM DO EMPRESÁRIO

Caro professor,

Se é assim que devemos chamar….Um comunista do seu porte não deveria ser professor. O direito de se expressar TODOS nós temos, faço e farei frente a Dilma, um ser onde não dá um sorriso, uma expressão de amor… Indiferente de ser mulher, petista, comunista, terrorista, e outras coisas que como o Sr. proprio diz que é Boataria descabida…Mas eu sou do principio de que onde se levanta fumaça , sem pre se tem fogo ou brasas tentando ser apagadas.
Não somos obrigados a nos calar, e sua resposta, pontuação ou colocação não serve de nada para aqueles que já tem sua opnião formada, que tem cultura para discernir o que é certo e o que é errado…
Por causa de pessoas assim que o Brasil, chegou na M…..que está!
Seja feliz se conseguir

R. – Empresário  e muito brasileiro

FAVOR CONFIRMAR O RECEBIMENTO DESSE E-MAIL,  MUITO OBRIGADO!

MINHA RESPOSTA

Meu caro empresário muito brasileiro:
Eu gostaria de saber, primeiro, quem é você e quando foi que tive contato com você. Pelo seu linguajar fascistóide, tenho certeza de que não somos amigos.
Me vem na memória que você somente pode ser daquela lista de fascistas cristianizados, que propagam preconceitos através de mensagens, tentando defender a manutenção de nosso povo na miséria.
Você diz que é um empresário. Muito bom.
Por que vocês têm necessidade de mistificar e de esconder suas reais intenções? Você pode não gostar dos comunistas e ter até se chateado com minha resposta, mas não pode negar que sou bem mais sincero que você: digo o que penso, não preciso me esconder atrás das palavras e dos preconceitos para tentar justificar nada.
A verdade é que o empresário somente pensa em seu próprio umbigo, é um egoísta, seu objetivo é a lucratividade e não a vida de ninguém. É razoável que o empresariado tenha mais segurança em governos que fazem uma política totalmente voltada à lucratividade do capital. Compreendo isso perfeitamente.
Não seria mais bonito, então, dizer isso? Por que não afirma, pura e simplemente, que quer a vitória de um governo que garanta, sem nenhuma ameaça e tensão, a lucratividade do seu négocio e o enchimento de seus cofres? Por que não diz que o único objetivo e sentido da sua vida é ganhar dinheiro? Seria mais bonito da parte de vocês todos.
Mas, parece que há um problema moral aí. Parece que não é muito bonito afirmar isso, embora seja esse o único motivo que o faz levantar pela manhã. É necessário criar, então, mistificações, é necessário fazer afirmações vagas, preconceituosas, qualquer coisa que sirva para não lhe fazer parecer apenas um sujeito egocêntrico que se preocupa apenas  consigo mesmo.
Apenas é o que parece… Não sou, nunca fui e jamais serei empresário. Nunca nem pensei nisso porque sempre atribuí a esse grupo a razão da nossa miséria. Seu discurso moralista não me comove nem um pouco. Muito menos a tentativa que faz de transparecer alguma preocupação pelo país e pelo nosso povo. Isso me faria rir, caso não me gerasse nojo.
Apenas procure pensar como a falta de argumentos diante do que escrevi o faz agir de forma violenta, com uma agressividade fora do normal.
Por que eu não poderia ser professor? Por que não faço o que a educação formal faz? Por que não reproduzo a droga de mundo que seu grupo considera a ante-sala do paraíso?
Para ser sincero com você (olha que já estou até lhe tratando como um amigo!), não faço questão nenhuma de viver nesse mundo: não gosto dele, não gosto de quase nada dele e de quase ninguém que vive nele também. Esse mundo é injusto, é insano, é estúpido, é violento, é irracional.
O processo histórico é movido por contradições, porém. Diríamos que seu grupo deve ser a parte afirmativa, a tese. Eu, meu caro, e meus camaradas (os que respiramos o mesmo ar), somos a negação.

 

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5 comentários sobre “Resposta a um empresário

  1. Caro Prof César ,

    Causa-me constrangimento ver declarações tão infelizes. Ainda bem que ainda há vida inteligente mesmo entre pessoas que acreditam em Deus indico o site do “Evangélicos pela justiça” que representa um segmento à esquerda : http://www.epj.org.br

    Caso tenha tempo de dar uma olhada seria interessante.

    Soli Deo Glória!!

    Lourival Nascimento

  2. Professor César, brilhantes suas palavras e considerações , gostaria de acrescentar a sua resposta a este facínora ser repugnante e ignóbil denominado “ Empresário e muito brasileiro”, o seguinte:

    Sr. Empresário e muito brasileiro

    Por causa de pessoas como você que não só o Brasil mas o mundo chegou na M………que está.

    Mauro Cipro

  3. Ola Cesar;

    ótima resposta, não acrescento mais nada.
    cheguei ate aqui pelo blog do daniel, sou estudante da pos em filosofia da umesp e vi pelo programa q a suse passou q vc sera nosso professor em breve, creio q vou gostar das suas aulas…heheheeh

    “enquanto houver miseria, sempre havera um comunista no mundo!” acho q a frase é do niemeyer e concordo plenamente.

    um abraço, alex

  4. A história é velha

    Como disse, certa vez, um sofista a Socrátes, “Antifão*, que queria tomar a Sócrates seus discípulos, interpelo-o e disse-lhe na presença deles:

    – Eu pensava, Sócrates, que os que professam a filosofia, fossem mais felizes. Muito outro, porém, parece ser o fruto que colhes da filosofia. Vives de tal guisa que não há escravo que deseje viver sob tal senhor. Alimentas-te das viandas mais grosseiras, bebes as mais viz beberagens. Cobre-te um manto chamboado, que te serve no verão como no inverno. Não tens calcado nem túnica. Sem embargo, não aceitas nenhum oferecimento de dinheiro, por agradável que seja recebê-lo e muito embora proporcione vida mais independente e aprazível. Se, pois, como todos os mestres formas os teus discípulos à tua semelhança, podes considerar-te um professor de miséria”.

    “A Dilma, um ser onde não dá um SORRISO, uma EXPRESSÃO DE AMOR”.

    (Importante é o negócio, cara professor)

    A meu vê, deveriamos fazer greve.

    Abç, caro professor

    *XENOFONTE. Dito e feitos memoráveis de Sócrates. in: Sócrates. SP:Nova Cultura, 1987(Os pensadores).

  5. Professor Cesar, boa tarde!
    Essas correntes são nojentas e tão rasas quanto o pensamento desses grandes empresários!
    É incrível como eles se sentem feridos quando recebem uma resposta a altura de suas imbecilidades, mas não pensam se estamos interessados em ouvi-los.
    Eles têm o direito de disseminar suas asneiras e temos que engoli-las como chocolate.

    Abraços,
    Carol Moreno

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