Direitos humanos…. mas quem são os humanos?

Cesar Mangolin

O discurso que carrega o tema dos direitos humanos deixou, há muito tempo, de ser bandeira das esquerdas e de setores progressistas para se “universalizar” e adquirir formas curiosas na bocas e mentes dos dirigentes das principais potências capitalistas.

É em nome dos direitos humanos que agressões militares contra países e populações civis indefesas são realizadas. Também é em nome dos direitos humanos que se realizam golpes de estado e genocídios pelo mundo afora.

Na verdade, os tais direitos humanos têm servido como um dos principais argumentos para a agressividade do imperialismo, ao lado da suposta superioridade da civilização ocidental (leia-se EUA e alguns países europeus), com seus avanços tecnológicos e seus valores, de novo, universais, que corresponderiam à forma de viver dos países mais desenvolvidos, entendendo isso aqui como aqueles que supostamente teriam alcançado já um estágio de evolução superior aos demais povos espalhados pelo mundo.

Nem entro na questão dessa suposta evolução: apesar de bastante presente, é antiga e vem, desde principalmente o final do século XIX, justificando a ingerência nos negócios internos de países pelo mundo afora. Para eles, seria quase uma “ação humanitária” levar a “civilização” (leia-se: exploração de suas riquezas e de sua população pelas grandes corporações) aos povos ainda barbarizados.

Recentemente li, numa revista num consultório médico, que um dos sinais desse avanço é a sobrevida garantida a pacientes com doenças crônicas através de equipamentos e drogas novas, como foi o caso de uma mulher que, com falência total dos rins, conseguiu sobreviver durante 15 anos (!) graças a remédios que lhe causavam efeitos colaterais desastrosos e um equipamento domiciliar ao qual ela deveria estar ligada o dia todo, o que limitava seu raio de mobilidade a mais ou menos 3 metros.

Não sei se deveríamos comemorar a manutenção desse tipo de sofrimento por tanto tempo. Na verdade, me parece que o apego desesperado que temos à manutenção da vida a todo custo está bastante ligado à falta de sentido de nossa existência nessas relações insanas.

Mas o que quero tratar aqui é sobre os tais direitos humanos…

Na semana passada, li no Estadão que um cidadão na Venezuela teria morrido após sua 8ª greve de fome.

Claro que, da forma como estava escrito, o caso tinha a intenção de comover os leitores diante do desrespeito flagrante dos mais elementares direitos humanos, praticado, obviamente, pelo governo “tirânico” de Chávez.

Um olhar mais atento, porém, dá outra perspectiva do caso.

O sujeito em questão teve parte de suas terras expropriadas para fins de reforma agrária. Ficou ainda com uma boa parte delas. Sua “luta” era para rever as terras que lhe foram arrancadas, sem ninguém discutir (como não se faz no Brasil) de quem ele ou seus ascendentes haviam arrancado as mesmas terras antes. Mas não era um grande proprietário.

O que chama mais a atenção é que foram oito greves de fome. Nesse processo houve também um momento em que o sujeito cortou um de seus dedos da mão, ameaçando cortar os demais caso não recebesse as terras de volta. Como se tudo isso não bastasse, costurou também a própria boca, em protesto.

Estamos diante de um combatente em defesa de deus, da família e da propriedade? Ele não parece um deles: estes são egocêntricos e individualistas o bastante para sofrer por qualquer coisa, inclusive pelas sórdidas bandeiras pelas quais lutam.

No Brasil de 1964, não fizeram greves de fome e coisas do gênero: clamaram aos militares para que libertassem o Brasil da ameaça de atendimento a reivindicações básicas para se garantir uma vida mais digna ao povo mais miserável. Direitos humanos, aqui, é a defesa da propriedade e da ideologia meritocrática, não a defesa da vida.

No caso do nosso mártir venezuelano, o que temos é a ação e a utilização de um sujeito perturbado mentalmente.

Somente alguém com sérios comprometimentos mentais é capaz de fazer o que fez. Ninguém, em sã consciência, costura a própria boca, nem amputa partes do corpo.

O problema dos direitos humanos deve ser discutido, nesse caso, não pela ação do governo da Venezuela, mas a ação das elites que produziram um mártir para fazer propaganda anti-Chavez pelo mundo afora.

Trata-se apenas disso: utilizaram-se de um doente mental, levaram o sujeito à morte, para exibir um corpo como argumento para as mesquinhas intenções desses grupos reacionários. Temos aqui uma agressão aos direitos humanos brutal, não da parte do governo, mas exatamente das elites venezuelanas.

Mas é em nome dos direitos humanos que se levantam contra o governo, é em nome dos direitos humanos que órgãos da grande mídia brasileira divulgam o caso, é em nome dos direitos humanos que se tem agredido populações inteiras pelo mundo afora, desde que não se identifiquem com a exploração e dominação passivas.

Os que gritavam contra o desumano seqüestro pelas FARC de uma cidadã franco-colombiana são os mesmos que expulsam agora a população cigana do país, aumentam o tempo de contribuição para conquistar a aposentadoria  aos trabalhadores, demitem em massa e também pretendem aumentar a jornada semanal de trabalho, além de fazer uma reunião curiosa de pedagogos, psicólogos e policiais nas escolas de população imigrante para “desentortar” supostos criminosos em potencial desde a barriga da mãe. O crime, como já fizeram antes, passa a ser algo genético!

Os franceses e seu processo de “fascistização” são um exemplo lamentável de como se compreende os direitos humanos.

Na verdade, a impressão que temos é que existem alguns grupos humanos que são mais humanos que outros.

As qualidades desses grupos mais humanos que os outros são fáceis de se identificar: possuem capital ou são dos setores médios mais abastados, são egocêntricos e individualistas ao extremo, atribuem aos miseráveis a responsabilidade por sua miséria e consideram extremamente perigosos os que podem colocar em risco a exploração do homem pelo homem.

Estes são os sinais dos povos mais “avançados” e “civilizados”.

Melhor permanecer na Idade da Pedra.

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Um comentário sobre “Direitos humanos…. mas quem são os humanos?

  1. Otima reflexão César. Dias atrás recebi um destes e-mails que falam do Irã e tratam da situaçaõ dos direitos humanos.

    Parece que o filme é o mesmo de 2001/2002 né? Com a crise energetica dos EUA, o q eles farão?

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