Pequeno debate sobre a educação

Cesar Mangolin

Reproduzo abaixo uma breve e rica troca de mensagens com um camarada de militância do PCB, com muitos anos a mais que eu nessa luta e que nos serve de exemplo. Novamente o tema é a educação formal e seus limites.

Coloco suas duas mensagens, seguidas de comentários que fiz. Pode nos servir ao debate.

1º TEXTO DO CAMARADA ERNESTO PICHLER

Prezado Mangolin

Li sua tese, que me pareceu um excelente trabalho, com bom aproveitamento e explanação da literatura consultada. Nas suas conclusões, porém, gostaria de sugerir uma outra ideia. Quando você diz que “o mercado de trabalho não poderia absorver a quantidade de diplomados”, não creio que a Reforma Universitária promovida pela ditadura tivesse, alguma vez, tal intenção. Essa reforma foi orientada pelo modelo “americano” de educação, que é o “formar” grandes massas para destas extrair “os melhores”, a serem colocados nos pontos mais estratégicos de exploração (gerentes, técnicos criativos, administradores, financistas). Provavelmente o convênio MEC-USAID contribuiu para isso. Assim, é um processo de massificação diferenciadora, selecionadora, planejado, de maneira que não há um “excesso” de diplomados, pois grande parte deles é para não ser mesmo aproveitada. Para a ditadura, a expansão das vagas no ensino superior era uma exigência d e qualificação seletiva de força de trabalho para o mercado. Esse processo de seleção não se dá apenas na colocação no mercado de trabalho, pois o número de formados é menor que o número de vagas: muitos já são excluídos no meio do caminho, seja por não conseguirem pagar, seja por não conseguirem acompanhar.

Em termos de necessidade real da população brasileira haveria também uma demanda de profissionais em áreas mais pobres, dos sertões, mas os formados não queriam saber de sair das grandes cidades, havendo falta de um projeto de interiorização do desenvolvimento (muito menos do desenvolvimento social). O número de médicos formados, por exemplo, é baixo se considerarmos a necessidade nacional como um todo, mas nas grandes cidades eles superam, em muito, o proposto pela OMS. O mesmo é válido para engenheiros, professores, etc.. Sugerimos esses dois pontos para um aprofundamento de sua análise, em um próximo trabalho.

Um abraço camarada

Ernesto

2º TEXTO DO CAMARADA ERNESTO PICHLER

Prezado Cezar

Seus textos, que ainda não estudei detidamente mas que me parecem valiosos, me levaram à reflexão e à redação do texto abaixo.  Seria bom uma discussão.

EDUCAÇÃO É UMA CAPACITAÇÃO, seja para o trabalho, seja para o entendimento da realidade, inclusive para o entendimento crítico e para o combate a essa realidade.

A capacitação, como criação de capacidade de trabalho, junto com a criação de meios de produção, é uma criação de força produtiva. Capacidade de trabalho é uma forma mais correta de dizer “força de trabalho”. (Aqui vem minha antiga tese, correta e inútil, de que Marx nunca falou em “força de trabalho”). A criação de forças produtivas, no capitalismo, visa, para os capitalistas, a geração de lucro, a exploração de trabalho alienado. Isso não é razão para que os trabalhadores resolvam destruir máquinas ou bloquear usinas hidroelétricas, o que seria um neo-ludismo. O trabalhador deve contribuir para o desenvolvimento das forças produtivas, porém lutando para assumir o controle das mesmas, pois isso interessa à humanidade. A capacitação do trabalhador contribui, por um lado, com esse desenvolvimento, e por outro lado, com e ssa luta. Qual lado vai pesar mais depende do conteúdo da educa ção, da capacitação. O trabalhador deve aumentar seu conhecimento de ciências, não apenas para o trabalho mas o combate à exploração do mesmo. Deve aumentar sua capacitação instrumental, em computação, por exemplo, ou em idiomas, o que exige um nível elevado de educação, independentemente de como será explorado ou de vir a ser não explorado (um devir revolucionário).

A educação, portanto, pode ser alienante ou pode ser libertadora. É certo que o aparelho de Estado visa a primeira opção, mas esse é um aparelho que deve ser infiltrado e solapado pelas forças contra-hegemônicas, em um processo contínuo de acúmulo quantitativo.

Preocupa-me, dentro do Partido, a muito comum expressão de contrariedade ao desenvolvimento das forças produtivas. Também vejo serem combatidas as consignas de “qualidade e produtividade” (em documentos da Intersindical, por exemplo), quando os comunistas deveriam ser os maiores defensores dessas consignas, desde que esclarecendo que a “qualidade” para o burguês não é a mesma qualidade que interessa ao trabalhador / consumidor, e a “produtividade” deve envolver a minimização de desperdícios, o que também não interessa ao burguês, inclusive no aspecto eco-ambiental.

Um abraço

Ernesto

MEUS COMENTÁRIOS

Caro camarada Ernesto
estive fora e somente hoje pude ler os comentários que fez aos textos que enviei.
Fico muito feliz com sua disposição. Sinto falta de podermos debater essas e outras questões e aqui podemos fazê-lo, ainda que a distância. Agradeço também a atenção com os textos enviados. O que de melhor se pode esperar de um texto produzido é vê-lo criticado.
Junto os dois textos aqui (das duas mensagens). Comento primeiro suas impresões sobre minha dissertação e depois o texto sobre temas mais gerais.
Envio, abaixo, novos comentários, com alegria e no melhor espírito de camaradagem para que possamos continuar o debate. Deve ter percebido que sou bastante pessimista com relação às possibilidades da educação, mas penso ainda que os dados nos permitem tal reflexão.
grande abraço.
Cesar.

1) No primeiro texto, em sua mensagem, você diz: “Li sua tese, que me pareceu um excelente trabalho, com bom aproveitamento e explanação da literatura consultada. Nas suas conclusões, porém, gostaria de sugerir uma outra ideia. Quando você diz que “o mercado de trabalho não poderia absorver a quantidade de diplomados”, não creio que a Reforma Universitária promovida pela ditadura tivesse, alguma vez, tal intenção”.

De fato, essa não era a intenção da ditadura. Ao mencionar não haver relação entre as vagas no mercado de trabalho e a quantidade dos diplomas minha intenção era exatamente reforçar a conclusão central do trabalho: que a reforma universitária foi executada para aumentar as vagas no ensino superior com uma finalidade política. Os setores médios tiveram seus canais tradicionais de ascensão bloqueados com a hegemonia do capital monopolista. A base social do movimento estud a ntil era composta por filhos desses setores, que precisavam de um diploma do ensino superior a partir dali para ter acesso às burocracias públicas e privadas. A reforma universitária resolveu dois problemas essenciais: retirou a base social do movimento estudantil e não permitiu que os setores médios (base de sustentação do golpe de 1964) passassem para a oposição ao regime. O ME era ainda o principal foco de contestação do regime. Eliminá-lo passava por duas tarefas: retirar sua base social e eliminar o setor que havia se politizado. A reforma saiu no final de novembro de 1968; para os demais, veio o AI-5 no início de dezembro e o decreto 477, em fevereiro de 1979. 
A maior prova de que o regime estava pouco interessado na “qualidade” dessa expansão é que a lei dava brecha para que as instituições privadas surgissem e crescessem, oferecendo, já no início de 1970, pela primeira vez, a maioria das vagas no ensino superior.
Nunca houve no Bra sil (nem antes da ditadura, nem durante, nem hoje) uma preocupação real com essa expansão e muito menos uma planificação de carreiras necessárias para o país. A seleção à qual você se refere não foi e nem é algo pensado por uma política de Estado, assim como as empresas nunca sofreram por não haver diplomados em áreas específicas. A formação se dá, sempre, no interior das empresas, em todas as áreas. O que a passagem pela escolarização e o curso superior permite é um condicionamento geral (ideológico) e um tanto de familiaridade com assuntos que envolvem o exercício da profissão, o que facilita um pouco a vida da corporação.
Quem passou pelos bancos da universidade, principalmente os cursos mais voltados para questões técnicas, sabem muito bem que ali somente se apreende generalidades. O que faz com que se tratem cursos como “aprofundados” em determinadas áreas se deve diretamente à pouca profundidade de quem os analisa. Para nossos t écni cos, que têm um palmo de profundidade teórica, fica fácil ver dois dedos como algo bastante avançado. Medimos a qualidade e a “profundidade” (na falta de um conceito) pela nossa própria profundidade e, sempre, por comparação.
Enfim, o nosso caminho na educação é marcado por um traço característico do desenvolvimento do capitalismo no Brasil, o que explica também seu caráter acelerado: a transferência de trabalho morto e de tecnologia dos países centrais para cá. Não temos tradição em desenvolvimento de tecnologia por esse motivo, salvo raros setores, que tiveram desenvolvimento tecnológico nacional, feito diretamente pelas empresas e não nas universidades e centros de pesquisa do Brasil, como é o caso do petróleo.
Insisto que não há, nem nunca houve, um plano de desenvolvimento planificado para a formação a partir do Estado, assim como não há em nossa história movimentos populares por educação ( a não ser o dos setores méd ios pel a universidade e movimentos de mães na periferia no sentido de alcançar vagas em creches ou ter onde deixar seus filhos em relativa segurança durante parte do dia). Quem mistifica e torna a escolarização algo fundamental é a classe média e era para a calar e fazer permanecer como base de apoio social que a ditadura acelerou a reforma universitária, que já estava em aberto debate desde meados dos anos 1950. 

2) quanto ao segundo texto, levanto dois pontos polêmicos: 1 – concordo com você que não devemos ser  contra o desenvolvimento de forças produtivas, ainda que possamos confundir, a partir de certo momento do desenvolvimento capitalista, forças produtivas com armas de destruição e uso dilapidatório dos recursos naturais . Talvez seja mais razoável pensarmos (como faz Balibar) nas forças produtivas também como relações sociais. Isso faz com que não esqueçamos que a técnica não é imparcial. Tratar as forças pro dutivas c omo desenvolvimento técnico pode ser um grande problema para nós. E, nesse sentido, insisto novamente em tudo que foi dito sobre o primeiro texto (tecnologia transferida; desenvolvimento tecnológico feito dentro das empresas etc). 2- a educação que os jovens que pretendem trabalhar nessas áreas de pesquisa e desenvolvimento é toda voltada aos interesses do capital, seja para gerar apenas condicionamento ideológico e afinidade com a área, ou através da instalação de laboratórios vinculados com grandes empresas nas grandes universidades, nos setores de farmácia, biomedicina, química, energia nuclear etc. O grosso dos nossos estudantes formam-se nas universidades privadas (85%) e em cursos que formam técnicos operacionais de várias áreas, professores e administradores (92% – o que inclui boa parte das vagas e cursos das universidades públicas). A ciência e seu desenvolvimento (em todas as áreas) têm pouco espaço e nas áreas voltadas às técn icas e tecn ologias, acesso muito restrito. Essa formação, aliás, não é feita no Brasil e está ligada umbilicalmente aos interesses das grandes corporações. Nós somente podemos liberar o desenvolvimento científico de suas amarras quando liberarmos toda a a formação social das amarras do grande capital. A técnica não é imparcial – uma máquina desenvolvida para as relações de produção capitalista pode ser muito diferente se sua aplicação for pensada para outras relações sociais: ela traz consigo a lógica da exploração do trabalho e do objetivo do lucro. A ciência pode conhecer não somente a aparência das coisas. Marx disse no Capital que se assim fosse a ciência não seria necessária. Pode conhecer a essência de seus objetos, abstrair e registrar teoricamente o conhecimento. O que muda nesse segundo passo é que a ciência, assim como quase quase tudo, se expressa através de ideologias. Como sair desse nó? Parece que podemos, no máximo, at uar em suas c ontradições. Resolver o problema, dentro da ordem capitalista, parece impossível.

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3 comentários sobre “Pequeno debate sobre a educação

  1. Bastante reflexivo o texto, profº. Às vezes, quando ouvimos falar ou lemos uma crítica sobre a Educação, nem sempre paramos pra refletir que o objeto da crítica não é a aquisição de conhecimento, mas sim todo esse processo formal no qual estamos inseridos e que eliminou a verdadeira essência do aprendizado, do prazer em aprender, em refletir. Estou lendo aos poucos as postagens do site, achei muito interessante.

  2. Conheci por acaso o blog e, por acaso ainda maior li essa postagem na casa do camarada Ernesto. Pois bem, gostaria apenas de fazer uma ponderação, que penso ser um caminho para a questão apontada: a questão entre as forças produtivas e as relações de produção. Ao ler os comentários do Ernesto me ficou claro a preocupação deste no desenvolvimento das forças produtivas, apontado, contudo, a plena incapacidade de superação dentro do próprio sistema. Ou seja, sem a mudança nas relações de produção (controle popular das forças produtivas), não há que se falar em superação desse ciclo.

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