20 anos sem Louis Althusser

Cesar Mangolin

Deixei passar batido o aniversário de morte (outubro de 1990) do grande filósofo comunista Louis Althusser.

Os mais próximos sabem que estudo sua obra, digamos, com maior “carinho”, nos últimos cinco anos e, à luz dela, a própria obra de Marx.

Althusser era argelino por acidente (seu pai trabalhava na Argélia quando nasceu), foi convocado para a II Guerra e passou alguns anos como prisioneiro em um campo de concentração nazista. Ali travou contato com o marxismo.

Comunista, membro do PCFrancês depois da guerra, Althusser foi responsável pela retomada do materialismo histórico e pelo combate a correntes oportunistas do marxismo, particularmente as ligadas ao economicismo e as que aderiram às ideologias humanistas próprias do pós-guerra, mas já desenvolvidas antes, particularmente por Lukács.

O pensador trava uma luta teórica com essas correntes ao detectar uma ruptura epistemológica no pensamento de Marx, que separa a fase liberal democrática (1840-1842) e sob influência do pensamento de Feuerbach (1842-1845) de sua obra de maturidade, quando a antropologia filosófica essencialista dessa fase de juventuda é substituída pelo materialismo histórico.

Além disso, Althusser é responsável por trazer de volta o marxismo para análise dos processos políticos e econômicos, recolocando a luta de classes como elemento central da elaboração e da ação dos comunistas, e retirando o marxismo da análise de elementos superestruturais, ligados ao grande leque da cultura, tendência assumida por diversas correntes marxistas, pressionadas por uma conjuntura que tinha como contraponto o dogmatismo que provinha da hegemonia soviética, no campo da ação política e da produção teórica.

Demonstrou que o materialismo histórico representou uma revolução científica, acompanhada de uma revolução filosófica (o materialismo dialético), bastante diferente do que apregoam os seguidores do jovem Marx. Também insistiu no caráter inacabado e “aberto” (como qualquer ciência) da obra de Marx, que não teve tempo de desenvolver trabalhos teóricos analisando as instâncias jurídico-política e ideológica.

Deu-nos uma interpretação original da ideologia, conceito novo na obra de maturidade de Marx, que substitui o conceito de alienação das obras de sua juventude. Aliás, insistiu na tese de que a ideologia é própria das formações sociais humanas e que, como conjunto de representações do vivido, tende a existir mesmo no comunismo.

Soube separar a elaboração teórica e o rigor conceitual da expressão ideológica da luta concreta, através da qual a própria ciência se expressa. Compreendeu que os humanos são portadores de relações, produtos da articulação das estruturas sociais e que o desenrolar do processo histórico é, na verdade, um processo sem sujeito. Afinal, como diz Marx na introdução da primeira edição de “O Capital”, não se pode tratar como criadores aqueles que são criaturas. O humano é produto das relações sociais que encontra em movimento. As revoluções, portanto, são produtos de contradições sobredeterminadas, que podem ser conduzidas politicamente, mas dependem da mesma forma de condições objetivas.

A consciência de classe não é, portanto, o que determina a revolução, como se a tarefa dos comunistas fosse o proselitismo, como pensam os tolos, principalmente os que acreditam que através da educação formal se pode chegar a transformar mentes e, assim, transformar a sociedade, num suposto e estúpido reencontro da humanidade (ou do ser genérico) consigo mesmo, com sua essência. Resultado de múltiplas determinações, o concreto e sua tansformação ocorre, como nos demonstram experiências revolucionárias (burguesas e proletárias), no geral, sem que os agentes tenham clareza do objetivo a que se quer chegar.

Daí a importância da organização revolucionária forte, organizada a atuante, que dirige politicamente a luta nos momentos de crise revolucionária, como queria Lênin.

Enfim, poderíamos escrever muito aqui sobre o pensamento de Althusser e também dos desdobramentos a partir das indicações que nos legou através de sua obra.

A morte trágica de sua companheira, estrangulada por ele em meio a um surto psicótico, em 1980, praticamente retirou Althusser da produção intelectual, apesar de ainda ter produzido novas e controversas teorias nesse período, alvo de debates atuais entre seus seguidores mais próximos.

Em meio à pasmaceira geral que vivemos (teórica, prática), às distorções brutais do pensamento marxista, que se adapta cada vez mais, em países como  o Brasil, ao humanismo cristão, gente como Althusser faz falta.

Combatido, mas não lido, por gerações de pseudo-marxistas que esperam o comunismo assim como os cristãos esperam o reino dos céus, Althusser permanece como um grande desconhecido daqueles que, como papagaios de orelha de livro, estão nas universidades propagando filosofia idealista travestida de marxismo.

Mas permanece como pensador profundo e instigante para aqueles que não se renderam às modas e que não têm preguiça de ler a obra de Marx, recusando-se a fazer parte de verdadeiras seitas dogmáticas que se criaram com o tempo.

Permanece como grande referência aos que não desligam a vida real da elaboração teórica e que, principalmente, não descolaram o marxismo da prática, ou seja, da luta política revolucionária, seguindo o exemplo de Althusser, também seguindo o exemplo de Marx, Engels, Lênin, Mao Tse Tung…

Camarada Althusser! Presente!

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