A memória e o exemplo de Allende

Cesar Mangolin

Assistia um desses jornais na Tv ontem e ouvi a notícia do resultado dos exames feitos nos restos mortais do ex-presidente chileno Salvador Allende.

Com tom conclusivo e como se esclarecesse um grande mal entendido histórico, a jornalista falante anunciava que, segundo o exame, Allende teria se matado com um tiro abaixo do queixo e não teria sido, portanto, assassinado, como muitos ainda diziam.

A filha de Allende apareceu numa coletiva comentando os resultados, mas pouco se pôde ouvir dela.

Isso me moveu a escrever um pouco sobre o tema e também a publicar (está abaixo deste post) o último discurso de Allende: documento histórico de grande importância, de certa forma desprezado pelos mesmos que anunciam e comentam hoje o tal resultado.

O tempo, é bem verdade, apaga a dramaticidade dos eventos e nos permite analisá-los com a mesma frieza do legista que examinou os restos mortais de Allende. Isso pode ser bom em alguns momentos para quem se aventura a estudar a história, mas não nos serve neste caso, dessa forma unilateral e equivocada.

Allende foi assassinado. Não importa se disparou primeiro contra si ou se esperou que as bombas lançadas sobre o Palácio La Moneda o atingissem, ou ainda se esperou uma rajada de metralhadora dos covardes golpistas que invadiram o palácio presidencial, ou ainda se esperasse e fosse morto aos poucos, ao ver o que fizeram com seu país e com os sonhos de milhões de chilenos.

A situação vivida caracteriza o assassinato, não a causa mortis.

Mas isso também não importa tanto quanto o fato de que, após ser eleito pela Unidade Popular e iniciar algumas reformas estruturais, Allende e seu governo foram postos para fora pelo golpe militar que instalou Pinochet no poder e matou milhares de chilenos, não apenas Allende. Ao anunciar assim a causa da morte de Allende todos parecem esquecer os motivos de sua morte e as conseqüências do golpe de 11 de setembro de 1973.

Servem-nos mais as lições que podemos tirar do fato, dirão alguns. Sem dúvida, parece que temos  grandes lições a serem extraídas do caso chileno: que não se constrói socialismo pelas vias da institucionalidade burguesa, que a  burguesia rompe, sem rodeios, sua própria “ordem” constitucional quando se trata de recolocar nos trilhos e a serviço da exploração a estrutura jurídico-política, que sempre que os trabalhadores alcançam determinados níveis de organização, o aparelho repressivo entra em ação de forma contundente, jogando na lama o palavreado democrático e escancarando as reais condições da dominação burguesa;  que o processo revolucionário deve tomar e destruir o aparelho de estado burguês; que o processo não permite vacilação dos revolucionários e que esse momentos de acirramento da luta de classes são resolvidos violentamente, não porque querem os revolucionários, mas porque a classe dominante não abandona seus interesses e o poder sem luta, o que torna a violência parteira da história, como disse Marx.

Enfim, podemos adotar três posições diante do caso: a primeira é a da jornalista que noticiou o caso e o tratou como algo concluído e resolvido, sem maiores comentários; a segunda é tratar do processo histórico chileno, da tentativa de implementação do projeto da Unidade Popular e suas contradições e vacilações, além da ação sabotadora dos golpistas, associados com o imperialismo; outra, ficar no culto aos heróis, nossos companheiros que tombaram na luta, que nos dão em letras de sangue o testemunho e a herança  da combatividade.

No nosso caso, parece ser melhor ficar com as duas últimas: devemos extrair lições do processo chileno e dos demais, procurando não cometer os mesmos erros, agora, na formulação de nossas táticas e, sabedores desses momentos cruciais, também nos prepararmos para seguirmos vias que garantam a perenidade da vitória e do caminho revolucionário, sem cair nas ilusões do discurso democratista. Também devemos lembrar com orgulho dos que nos precederam na luta, dos que dispuseram a vida pela construção socialista, dos que lutaram até o fim.

O Chile e Allende nos são grandes exemplos nos dois casos. Mas, principalmente pelo que nos motiva a escrever hoje, Allende é prova de coragem e convicção, que deve nos servir nas horas das derrotas, para que se “caia em pé”, e também  na vitória, para permanecer em pé.

Salvador Allende: presente!

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