EUA: a crise capitalista não tem solução (dentro dos marcos do capitalismo)

Cesar Mangolin

A aprovação da elevação do teto da dívida americana não resolve a crise, a adia. Esta é a conclusão de quase todos os analistas, da direita à esquerda. O que os diferencia é a análise dos resultados: os primeiros não tratam deles; os segundos indicam que o povo estadunidense mais empobrecido deve pagar o “pato”.

O que se fez, na verdade, foi apenas atenuar a crise em seus efeitos imediatos e adiar o calote de agora para um tempo adiante.

O governo dos EUA, ao acrescentar, em dois momentos, 2 trilhões de dólares ao teto da dívida pública apenas garante o pagamento dos títulos públicos, mas não resolve o problema do endividamento numa economia que sofre depressão.

O fato, e é aí que temos o nó do processo, é que, para se manter,  é necessário aumentar a arrecadação, ou, outra alternativa, cortar gastos. O que passou no congresso estadunidense na noite passada foi a segunda opção.

A decisão de ampliar o teto da dívida apenas adia para 2013 (pós- eleições) o problema.

A opção do corte de gastos, quase no mesmo montante do que foi acrescido ao teto da dívida, foi obra dos republicanos, que engavetaram o projeto de aumentar os impostos sobre as grandes fortunas, proposto por parte dos democratas e pelo próprio presidente. Isso já indica quem vai pagar a crise, além de evidenciar uma crise política: o Barak sofreu uma derrota política importante ao ceder aos republicanos.

Como a arrecadação não vai aumentar via elevação dos impostos dos milionários e das grandes corporações, a tendência é que os trabalhadores estadunidenses paguem os custos da crise. Fazendo um raciocínio dentro dos limites das formações capitalistas, a contradição é evidente: o corte nos gastos públicos afetará parte dos trabalhadores públicos (cerca de 20% dos empregados) que serão demitidos (estima-se que por volta de 1 milhão).  Deve ocorrer uma retração do consumo, seja pelo aumento do desemprego e diminuição dos rendimentos dos trabalhadores e da classe média, seja pelo baixo investimento por parte do capital produtivo. Isso ajuda a derrubar ainda mais a arrecadação.

As políticas sociais, parcas, do governo Obama devem sofrer pesados cortes, piorando as condições de vida das famílias de mais baixa renda. Enfim… a crise tende a se aprofundar nos próximos anos.

O discurso feito até agora, dentro dos marcos do capitalismo, como já dito, e keynesiano por essência, deve dar lugar a considerações mais gerais.

As soluções para esta crise não podem ser as mesmas da ocorrida em torno de 1929, por duas razões essenciais: temos hoje o Estado em “vias de quebra”, incapaz de fortalecer a presença dos serviços públicos e, ao contrário, com aparente disposição para reduzir os gastos na área; o desenvolvimento capitalista elevou  a automação dos processos produtivos, reduzindo drasticamente a presença de trabalho humano e ampliando de forma incrível a capacidade produtiva. Dentro da lógica do capital, isso gera uma nova forma de desemprego, chamado de desemprego estrutural: significa que parcelas crescentes da população pelo mundo afora não terão acesso ao chamado “mercado formal de trabalho”, vivendo do subemprego, de “bicos” diversos e, inclusive, aumentando a criminalidade.

Não há como gerar um processo que reaqueça a economia pela presença de consumidores que, pela própria elevação da capacidade de consumo, aumentam os investimentos na produção e, consequentemente, a empregabilidade no setor privado.

A crise não é apenas dos EUA: a crise é do capitalismo. As chances de um novo ciclo de expansão são bastante remotas.

O grande capital continua lucrando e sem dúvida vai procurar formas de ampliação. Tem gente dando diversas idéias, velhas e novas, sobre suas possibilidades: novas e maiores guerras; intensificar a exploração dos países mais pobres; destruição em massa de meios de produção (portanto, de capital, e conseqüente intensificação da monopolização); eliminação física de grandes contingentes populacionais; um novo surto colonizador (da lua????) etc..

O fato é que a solução não se encontra dentro dos marcos do capitalismo. Seus limites estão dados e daqui pra frente as calamidades apenas tendem a se multiplicar. Está posta diante dos trabalhadores do mundo a decisão: pagar, muitas vezes com a vida, os custos da crise do capital, ou acabar com a vida do capitalismo e construir um novo modo de produção, no qual o desenvolvimento das capacidades produtivas criadas será posto a serviço de todos.

Aliás, esta é a única maneira de resolver a contradição que envolve automação e trabalho humano: colocando o desenvolvimento das forças produtivas como um elemento de melhoria da qualidade de vida de todos, reduzindo as horas dedicadas ao trabalho e colocando nas mãos dos trabalhadores o controle da produção e do que e como produzir.

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Um comentário sobre “EUA: a crise capitalista não tem solução (dentro dos marcos do capitalismo)

  1. Concordo perfeitamente. O sistema capitalista está no fim dos seus dias e um novo sistema terá de surgir nos próximos anos sob pena de grandes catástrofes mundiais surgirem cujas consequências são inimagináveis.

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