Redes sociais???

Cesar Mangolin

Tomei conhecimento de um fato curioso.

Numa conversa sobre as redes sociais entre um casal (que é melhor não revelar os nomes), um deles defendia a idéia de que elas não servem para quase nada e outro sustentava sua importância…. social, ou sociável, ou qualquer coisa assim.

O que chamou a atenção foi que, num certo momento, a esposa, que defendia com entusiasmo o facebook, disse que sua utilização era fundamental para conhecer pessoas e também para poder publicar os poemas que escrevia. Até aí tudo bem, não fosse o fato de que o marido, até aquele instante, desconhecer que a esposa escrevia poemas. Desconhecimento que, aliás, era também dos demais familiares que participavam do debate. Estes descreveram a cara de espanto do marido com a novidade. Mais curiosa foi sua primeira manifestação: “Quer dizer que eu tenho que entrar no facebook para ler os poemas que você escreve?” É, de fato, curioso.

Não desprezo certo papel progressista e facilitador das comunicações que tais redes, chamadas sociais, e os demais recursos da internet, possibilitam.

Lênin já dizia, lá no início do século, que um dos elementos que garantia a supremacia ideológica da burguesia era o fato desta classe deter o monopólio dos grandes instrumentos de comunicação. Diversos eventos recentes, como os protestos na Inglaterra desta semana, têm como meio de comunicação e organização tais canais. Também a internet possibilitou que inúmeras organizações e pessoas pudessem colocar à disposição de quase todos suas posições, inclusive possibilitou a publicação de inúmeros materiais para pesquisa e coisas assim.

Isso, evidentemente, não retira o protesto das ruas, não elimina sua materialidade, nem coloca na ordem do dia uma revolução cibernética. A internet auxilia, mas não substitui a luta cotidiana, seus efeitos e seus riscos.

Mas me parece que a grande quantidade de gente que passa horas na internet diariamente não está a procura de informação. As tais redes sociais parecem cumprir, maciçamente, outro papel.

Muitos alegam que as utilizam para conhecer pessoas, para trocar idéias, para publicar poemas, como o faz a esposa da conversa descrita acima. Um passeio pelo Orkut e pelo facebook pode mostrar até onde a coisa vai.

A preferência por esta sociabilidade virtual pode ter várias raízes, como por exemplo, a acentuação do individualismo consumista, o cenário violento nos centros urbanos, a comodidade. O primeiro me chama mais a atenção, visto que o fenômeno também se verifica em lugares nos quais a violência urbana ainda não chegou.

Na verdade, parece que as redes sociais possibilitam uma via de escape para a anti-sociabilidade que o individualismo e o consumismo geram. Mas isso acaba ocorrendo através da mesma lógica: não vejo pessoas se conhecendo ali: vejo, no geral, pessoas se consumindo.

Como mercadorias concretas, embora não palpáveis, parece ser mais fácil participar virtualmente de um comércio de carne humana, coisa que não seria tão simples de se fazer presencialmente.

Há uma vantagem enorme ali: a pessoa que se apresenta também pode ser apenas virtual. Basta gastar um pouco de tempo lendo os tais perfis de pessoas bem conhecidas.

O mundo virtual traz a vantagem de permitir que cada um seja como queria ser, não exatamente como é. Permite ao tímido tornar-se galanteador; o que está fora dos padrões de beleza que nos são impostos dar um jeito de aparecer mais perto deles; permite a exibição do corpo apenas como um pedaço de carne, em posições e trajes que visam despertar o desejo daqueles que acessam as fotos. Permite fugir da frustração, da falta de sentido, da estupidez da vida dentro do capitalismo. Carne. Comércio de carne.

Numa sociedade ainda essencialmente machista, parece que as mulheres sentem uma necessidade maior, ou uma pressão maior, para que se exponham. É curioso que parte principalmente delas os álbuns de fotos que somente elas aparecem, na maior parte das vezes com fotos tiradas por elas mesmas, em posições e trajes sensuais, na frente de um espelho ou qualquer coisa assim.

Nisso as tais redes marcam um retrocesso: as mulheres continuam a aparecer como um pedaço de carne, que só tem valor quando estão dentro dos tais padrões de beleza, ou quando insinuam que são capazes de gerar prazeres diversos em seus consumidores virtuais.

Sem menosprezar algumas formas de utilização desses meios que me parecem interessantes para a luta social, penso que, na maioria dos casos, as tais redes servem apenas para acentuar a idiotização geral, com o agravante de separar as pessoas, ao contrário da suposta junção que independe do espaço.

Talvez isso seja já reflexo dos meus quarenta anos que se aproximam. Posso já estar fazendo aqueles discursos enfadonhos que sempre começam com “no meu tempo era diferente…”. Mas não vejo com bons olhos esta produção de indivíduos-ilhas- virtuais.

Assustaria-me saber que minha esposa escreve poemas que alguém do outro lado do mundo pode ler, sem que eu nem mesmo tenha idéia disso.

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5 comentários sobre “Redes sociais???

  1. Caro professor,

    Li com atenção esta reflexão e creio que concordamos em vários pontos. e esta insatisfação com esta sociedade de consumo é algo que nos move a prosseguir em nossa jornada revolucionária>

    Abraços

    Soli Deo Glória!!

    Lourival Nascimento

  2. O mais engraçado é que as redes sociais foram criadas para aumentar o contato entre as pessoas (apesar de não haver contato algum, pois como a palavra já diz, “contato”, segundo o dicionário, significa “estado de objetos que se tocam”), mas ocorre o contrário: existe um aumento do individualismo e pior, da possessividade.
    Curioso ver como relacionamentos acabam por mensagens exibidas em facebook ou orkut. É indiscutível como as relações humanas ficaram frágeis a ponto de um recurso da internet poder acabar com o real CONTATO entre as pessoas.
    Ótimo texto, professor.
    Adorei o tema.
    Não tenho conta em nenhuma rede social.
    Beijos
    Rafaela

  3. Infelizmente esse contato superficial é uma consequência da Pós Modernidade:

    “(…) O mundo se transformou em um grande lago congelado. Quando você está deslizando sobre uma fina camada de gelo, se você andar devagar, você morre. Se você parar, o chão racha. O mundo em que a gente vive é o mundo que demanda tamanha agilidade, tamanha aceleração, tamanha leveza, tamanha superficialidade, que qualquer profundidade pode colocar a sua vida em risco”.

    Abs,

    Gabi

  4. A sociedade concreta se reproduz no mundo virtual, todos os comportamentos que se manifestam no virtual são fruto do concreto, não é um mundo a parte, que segue uma lógica diferente. O mesmo sujeito que manifesta seu descontentamento e faz apologias a manifestações de rua no virtual, o faz por uma necessidade real, da mesma forma que alguém procurando sexo internet, ou mesmo o comportamento das mulheres, não são novidade alguma se comparado com o mundo concreto. Pode haver ai alguma surpresa pelo fato de não convivermos com o concreto como com a projeção virtual do concreto, pelo fato deste último ser mais dinâmico, de longo alcance e acessível.

    Abraço

    Rodrigo

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