A defesa dos animais

Cesar Mangolin

 Assisto a alguns programas da televisão de forma aleatória, sem fidelidades e tempo certo.

Tem me chamado a atenção as matérias sobre a defesa dos animais, além de já ter visto programas voltados exatamente para esta questão. Não sou contrário a defesa dos animais, nem de que tenham uma vida digna e direito à vida, alimentação, carinho, que não sejam abandonados à própria sorte, nem maltratados, torturados e coisas assim.

O que ma chamou a atenção foi a forma como se referem aos animais os profissionais e seus entrevistados.

Na noite do dia 21, por exemplo, o programa “Pânico” exibiu um verdadeiro mutirão para a adoção de animais que foram abandonados. A exibição da “feira” de doação era cortada por depoimentos dos integrantes do programa, que apareciam ao lado de seus animais domésticos. Saiu todo tipo de barbaridade ali, que pode ser sintetizada na frase de um deles: “Um cachorro é muito melhor que um ser humano!”

Não duvido que, diante das misérias humanas, um cão deva ser necessariamente depreciado. Penso que nossa questão não é a de quem deve ser melhor. Uma questão que deveria ser objeto de reflexão do sujeito que soltou a frase seria: por que ele acredita nisso? Fatalmente, descobriríamos ali (e na maioria das pessoas) motivações que, sem dúvida, são bastante inferiores às de qualquer rato de esgoto que, dentro de suas condições ideais, sabem bem manter sua coerência. Deixemos de lado o sujeito.

Vi, num documentário exibido em outra grande emissora, o trabalho desenvolvido por uma senhora no sul do país. Ela gasta seus dias abordando, ao lado da polícia, homens maus que se utilizam de cavalos para puxar as carroças carregadas de lixo destinado à reciclagem.

Os cavalos são mal cuidados, não têm acompanhamento de um veterinário, não se alimentam bem, carregam muito peso e trabalham demais.

Os que assistiam ao programa devem ter chegado às lágrimas quando soltaram um dos cavalos num campo gramado! O pobrezinho rolava na grama e parecia relinchar agradecimentos e juras de eterna gratidão à sua libertadora!

Enfim, em todos esses programas vemos a ação desses heróis salvadores e frases semelhantes como a que soltou o imbecil do programa citado mais acima.

Como quase tudo nesse mundo, isso me parece assustador!

Insisto que não defendo que os animais devam sofrer. Apenas acredito que essa dedicação aos animais, com raras exceções, esconde necessidades afetivas e de sociabilização, que tornam-se mais comuns na medida em que nos tornamos cada vez mais egocêntricos e pensamos as relações com outros iguais sempre calculando custos e benefícios.

A relação com alguém que está vivo, mas não lhe responde, não questiona e é totalmente submisso, dependente e agradecido deve suprir a carência de vida desses humanos-robôs idiotizados, que têm a tomada no próprio umbigo.

O caso dos cavalos é emblemático.

Pensem bem: ninguém passa a vida revirando lixo para reciclagem porque acredita que isso é importante para o meio ambiente. No geral, os “verdinhos” estão bem distantes do lixo, das doenças e do fedor.

Naquela cidade do sul, os que precisam sobreviver e, por isso, reviram os lixos, carregam toneladas naquelas carroças. As casas onde moram são bastante precárias, como demonstrado na reportagem, além de ser um trabalho penoso que, combinado com uma alimentação também precária, deve garantir muitos anos de vida a menos para os que estão ali trabalhando, além do quadro evidenciar uma vida de sofrimento e carências materiais diversas.

Assim como os cavalos, os humanos ali são mal cuidados, não têm acompanhamento de um médico, não se alimentam bem, carregam muito peso e trabalham demais.

Os cavalos lhes foram retirados… Eles devem puxar a carroça agora!

Vi, certa vez, na Praça da Sé, um garoto que passou pelo ponto do ônibus onde eu estava as 22:30h, no meio da semana, numa velocidade incrível. Estava puxando com o peito um carrinho enorme, carregado de papel e papelão. Não agüentou o peso na descida e não pôde escapar da grade do carrinho, que pegou velocidade. O garoto se espatifou no final da rua, afinal não poderia fazer a curva com o carrinho desgovernado.

No ponto de ônibus, as pessoas riram.

Imaginem se fosse um cavalo!!!

Deixemos de lado os tais direitos humanos! Caso déssemos aos humanos os mesmos direitos dos demais animais, a vida poderia ser mais feliz.

Repito as mesmas palavras do segundo parágrafo desse texto, agora com relação ao humano, que também, não devemos esquecer, é uma espécie animal: Não sou contrário a defesa dos animais, nem de que tenham uma vida digna e direito à vida, alimentação, carinho, que não sejam abandonados à própria sorte, nem maltratados, torturados e coisas assim.

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3 comentários sobre “A defesa dos animais

  1. Cesar meu amigo você está atingindo uma poeta na escrita, comovente! Quase chorei ao ler seu texto. Parabéns por deixar aflorar a sensibilidade cristã que desde muito, está presente por trás desta barba ruiva e clichês irônico-althusserianos! Um forte abraço. Já pensou em escrever poesia?! rs

  2. O motivo das pessoas se agarrarem ao sentimento pelo animal doméstico é óbvio.
    Somos todos inconstantes e precisamos de algo ou alguém que nos acompanhe. Um animal doméstico, como o cachorro, nos dá afeto em qualquer momento, pois seus problemas se limitam na fome e sono. Não conseguimos mais suprir nossas carências em outro humano, principalmente quando temos consciência que esse humano poderá nos trair ou nos fazer algum mal. Afinal, quando um cachorro nos trai e nos machuca, é só levarmos a um veterinário ou centro de controle de zoonoses que ele será sacrificado, pois apresenta “um comportamento agressivo”, mas poderíamos fazer isso com alguém que nos trai?

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