Qual foi o maior atentado da história? 11 de setembro de 2001?

Cesar Mangolin

Vinha para a universidade agora e ouvia no rádio as notícias do dia.

Fiquei sabendo de uma celebração no consulado ou embaixada dos EUA, não prestei muita atenção no local correto. Fizeram um minuto de silêncio no horário em que o primeiro avião acertou um dos dois prédios, depois alguns discursos e o pedido para que todos relembrem os lamentáveis fatos de dez anos atrás.

Um dos representantes, com aquele sotaque característico, soltou algo mais ou menos assim: “Nós fomos agredidos por causa de nossos valores e porque amamos a liberdade”.

Ora, chega a dar dor nos ovos ouvir esse tipo de coisa! Pior ainda é quando vemos os representantes desse país aqui no Brasil falarem em direitos humanos e coisas do gênero. O pior é que encontram audiência para tanto.

Não comemoro o que ocorreu em 11 de setembro. Não defendo a morte dos que estavam nos aviões e nos prédios, ainda que muitos deles devessem ser fiéis defensores dos duvidosos valores professados e amantes da liberdade, como falava a autoridade estadunidense hoje. Os valores que defendem são os calculados em cifras; a liberdade que amam é a da reprodução do capital, sem respeito a nada e a ninguém em qualquer parte do globo. A estúpida e odiosa vida atomizada de egoístas consumistas.

O ataque de 11 de setembro não foi a tentativa de impor um outro modo de viver aos estadunidenses. Estes é que costumam fazer isso por aí. Foi apenas uma forma de reagir, numa pequena dose, ou na mesma moeda, ainda que em pequeníssima proporção, ao que os EUA fazem pelo mundo afora há décadas.

Insisto que não defendo as ações terroristas. Pelo menos não todas elas. Chamo atenção para a estupidez da comoção nacional e internacional em torno do ocorrido.

Isso me faz lembrar as brincadeiras de criança. Tínhamos sempre um sujeito que não poderia sofrer as conseqüências das regras de qualquer jogo por ser mais novo, mais frágil, enfim, para ser poupado, ainda que participasse da brincadeira. O famoso “café com leite”. Os EUA se portam como o “café com leite” de sua brincadeira assassina: participam do processo todo, mas não podem sofrer as conseqüências impostas pelas “regras”, ainda que estranhas, do jogo. A diferença é que, neste caso, o “café com leite” é o jogador mais poderoso, o único capaz de arrasar o planeta na hora em que cansar da brincadeira.

O 11 de setembro de 2001 não foi o maior atentado da história. Temos outros, muito maiores e mais dramáticos.

Na mesma data, em 1973, o presidente do Chile, Salvador Allende, foi deposto e morto. No lugar dele, uma ditadura de duas décadas foi instalada e foi responsável por matar milhares de pessoas, torturar outras tantas, tudo em nome dos valores dos estadunidenses e do amor à liberdade. Ditaduras semelhantes, antes e após a do Chile, como a brasileira, que começou nove anos antes, se espalharam pela América Latina e, com elas, de novo, os valores da civilização ocidental-cristã e o amor à liberdade!

Na Indonésia, em 1965, um presidente progressista e com simpatias socialistas foi deposto. Em seu lugar foi posto o famigerado Suharto, apoiado pelos EUA (ou melhor dizendo, colocado ali por eles). Quinhentas mil pessoas, suspeitas de serem comunistas, foram assassinadas nos primeiros anos da ditadura na Indonésia. Era o preço pago pela salvaguarda dos valores ocidentais e do amor à liberdade!

Lembram do Vietnã? E das guerras civis na África, que receberam e recebem armas bentas pela fé ocidental para que se arrebentem uns aos outros? E dos massacres pela América Central – Panamá, El Salvador, Nicarágua, República Dominicana etc, etc?

E o que falar das duas bombas nucleares lançadas sobre o Japão? Essa covardia histórica, que deveria manchar de uma vez por todas a história e a memória de qualquer povo, de qualquer país. Milhares e milhares de corpos reduzidos a pó, destruição total, sobre uma população civil mais inocente que qualquer trabalhador das torres gêmeas. Outros tantos milhares que morreram ou tiveram uma vida terrível por causa das seqüelas da radiação.

O único povo que foi covarde o suficiente para utilizar esse tipo de arma até hoje são os nossos queridos irmãos do Norte, defensores de sacrossantos valores e amantes da liberdade!

E o Oriente Médio? E o Afeganistão? Enfim, quantas histórias teríamos que relembrar aqui para que se possa classificar bem quem é terrorista no mundo atual? Potência em crise, claro que os estadunidenses movem essa campanha emotiva para que sejam vistos como coitadinhos, para criar uma visão geral de que podem agir como quiserem.

A potência terrorista é assim desde o nascimento: foi também em nome de uma nova terra, de valores cristãos e de amor à liberdade que os pioneiros eliminaram as nações nativas, que insistimos, tanto lá quanto aqui, em chamar de “índios”.

Se o mundo é inseguro, incerto, se algo de ruim pode acorrer a qualquer instante, isso não se deve a nenhum grupo religioso, a nenhum punhado de lunáticos. Deve-se à desmedida, estúpida e egocêntrica busca do lucro; se deve à agressão e à violência a que são submetidos os povos pelo mundo afora.

Disso são culpadas as potências capitalistas e, a principal delas: os EUA.

Os que se comovem nesses dias com essa propaganda estúpida deveriam olhar mais para a história. Poderão conseguir não apenas motivos para que possam se comover, mas boas causas pelas quais lutar.

Os que se rastejam no choro falso do imperialismo já têm sua trajetória marcada. São como escravos em carne viva que choram a dor de cabeça do senhor.

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3 comentários sobre “Qual foi o maior atentado da história? 11 de setembro de 2001?

  1. Olá Professor, concordo plenamente com tudo que você diz. A mídia faz todo esse drama e influencia as pessoas, que como gado vão sendo dirigidas e levadas para o lado que o grande capital quer.

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