A comovente vida de gado

Cesar Mangolin

Vivi na área rural durante alguns anos. Poucos anos.

Chamava a atenção a vida do gado e sua rotina.

Pela manhã, são postos a trabalhar os bois, as vacas e os bezerros. As vacas são ordenhadas, os bezerros amamentados, todos encaminhados para o pasto após a noite presos no curral. Claro, menos os bezerros que ainda mamam, para que não suguem todo leite das vacas ao longo do dia.

Seu trabalho é bem específico: as vacas devem comer, reproduzir e produzir leite; os bois devem comer e engordar, também reproduzir; os bezerros também comem e engordam e ocuparão, em breve, a posição dos adultos.

Os bois e as vacas já sabem bem qual é a rotina. Pouco trabalho dão. Os bezerros ainda estão aprendendo o processo, mas rapidamente se adaptam. A vida do curral para o pasto e do pasto para o curral não é muito cheia de emoções.

Um ou outro as vezes sai um pouco da linha, mas a intervenção precisa de seu dono logo os coloca dentro da ordem. Para os mais rebeldes, uma punição severa resolve: açoites, rabo quebrado, isolamento dos demais… simples assim.

Não é nem mesmo necessário que o dono deles diga nada pela manhã: simplesmente destranca a porta e eles saem em direção ao pasto para mais um dia.

Bois e vacas não pensam, portanto, não questionam nada dessa vidinha besta. É como se fosse determinado por algo, pelo além, que a vida deve ser assim e pronto. Apenas vivem um dia após o outro, com uma resignação comovente.

Andam em bando, mas são como ilhas, parece que desconhecem uns aos outros, embora estejam na mesma condição: esbarram-se no caminho para o pasto e na volta para o curral, de cabeça baixa, com olhar fixo, com uma expressão de que nada há em suas cabeças além da necessidade de ir e vir, sem motivo, apenas porque alguém decidiu que deveria ser assim.

No fim da tarde, início da noite, a procissão toma o caminho de volta.

Um mugido aqui, outro ali, mas nada que seja coletivo, apenas o andar mais lento de uns, mais corrido de outros, que tomam a frente e empurram os demais, numa pressa que até parece ter um sentido, uma razão, mas nada que vá além do objetivo: o retorno ao curral, para mais uma noite que é, apenas e tão somente, o prenúncio de outro dia, que será substancialmente tão igual ao anterior que é até possível prevê-lo.

Caso pensassem, é possível que antes do sono agradecessem a deus por terem retornado. Sem pensar que retornaram apenas para voltar outra vez e que sua vida se resume apenas a isso. Talvez até agradeceriam ao seu dono, afinal, têm comida e onde dormir, sem perceber que comer e dormir é apenas uma condição necessária para dar mais ao dono, não a si.

Chega a deprimir a vida do gado…

Pensei nessas coisas e tive essas lembranças de 20 anos atrás observando uma estação de trem, no meio da semana, finalzinho da tarde, hora da volta…

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5 comentários sobre “A comovente vida de gado

  1. É professor, ao ler este post, lembrei do que me aconteceu a 8 anos atras quando passei no concurso publico e vim para São Paulo assumir o cargo. Nasci em uma cidade do interior (Avaré), e até meus 13 anos sempre morei em sitios e fazendas. Ao chegar em sp a primeira cosia que pensei ao ver as pessoas se atropelando nas estações de metro na hr do “rush” foi exatamente isso. Mais tarde conheci a obra de George Orwell – A Revolução dos Bichos. Me identifiquei muito. Somos gado e fomos construido naquilo que Nietzsche chamou de “instituições para rebanhos”. Não sei se vc ja conheceu alguma cidade pequena do interior. Apesar das pessoas do interior tbm serem gados, a vida não é tao mediocre como é aqui na metropole. Acho que nao mais que 1 ano, retornarei pra Avaré e levarei as lembranças da vida de gado que passei por aqui.

  2. Camarada, a história ficou imcompleta?

    Se trocasse os animais por pessoas, podemos dizer que isso poderia ser bem uma sociedade capitalista!

  3. Caro Cesar,

    Belo paralelo.E por mais visível que se apresente, parece que menos inteligível se torna.
    Essa semana estive pensando o que faz silenciar as pessoas, o que as leva a se comportar como gado, como em seu texto.Seriam os pequenos confortos pequeno-burgueses?Seria o refrigerante Dolly, o recente poder de compra de uma caixa de iogurte,a intensa campanha de ascensão de milhões de miseráveis à condição de semi-miseráveis?
    Parece que o poder de comprar exerce um poder de apascentamento forte.E viciante.
    Talvez se o gado não encontrasse grama em cercadinho,levantaria a cabeça em busca de outras pastagens.

  4. Texto muito interessante, retratando o tipo de vida que temos; onde somos possuidores de uma falsa liberdade, em um sistema que nos obriga a viver de determinadas formas, para não ser objeto da causa da desordem, de acordo com os requisitos que o mesmo implanta em nossas mentes como correto.

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