A vida é o cérebro?

Cesar Mangolin

Uma reportagem tem me feito pensar desde a semana passada.

Ouvi  que uma empresa estuda formas de perpetuar a vida através da manutenção do cérebro em atividade.

Após a morte dos demais órgãos do corpo, o cérebro seria mantido ligado a computadores, de forma que seria possível prolongar indefinidamente a vida, visto que não somente as recordações e os conhecimentos obtidos ao longo da vida normal persistiriam, como também haveria a possibilidade de interação, através das máquinas, com o mundo exterior, além de se manter também a capacidade de conquistar e produzir conhecimento.

Paralelo a esta tentativa, temos o desenvolvimento de órgãos artificiais que poderiam também prolongar indefinidamente a vida corpórea.

Isso tudo me assusta bastante. Não pela possibilidade de viver muito, mas pelo que se chama de vida.

Já disse outras vezes que o apego desmesurado que temos à vida se deve ao fato de que vivemos em relações estúpidas que atomizam as pessoas e nos tornam cada vez mais como ilhas.

Não vejo nenhum “sentido” na vida, como professam algumas religiões e correntes de pensamento. Somos o resultado de uma trombada biológica. Um espermatozóide se choca com um óvulo e, permanecendo as condições normais, uma vida nova surge. Fosse a ejaculação um segundo antes ou depois, estivessem o macho e a fêmea que copulam em outra posição, enfim, qualquer alteração no momento poderia ter como resultado outro dos milhões de espermatozóides e, consequentemente, outra vida que não a nossa. Somos o resultado de um grande acaso.

Talvez exatamente porque deve ocorrer a combinação de um sem número de elementos para que cada um de nós possa estar vivo agora é que se mistifica e se procura achar um “sentido”.

Para muitos, imaginar-se como o resultado de um mero acaso pode trazer conseqüências nefastas para a auto-estima e tornar nossa vida ainda mais desértica e sem “sentido”.  O fato é que devemos buscar o tal “sentido” na própria vida e isso nos remete às relações sociais de produção e reprodução da vida material. É por não perceberem isso que muitos buscam no reino dos céus ou em qualquer determinação exterior uma razão para que estejamos vivos.

Tenho a firma convicção de que não existe tal razão.  Estamos vivos e pronto.

O que me assusta mais na questão da perenidade da vida cerebral é que isso representa a concretização trágica do “penso, logo existo”! Nem o próprio Descartes deveria concordar com um negócio desses!

A vida não pode ser resumida apenas ao que pensamos. Ainda que o cérebro tenha a função de traduzir todas as sensações, me parece que a sua vida autônoma e computadorizada impede o que me parece ser o mais interessante da vida, como o toque, o contato, a trama do dia-a-dia, a alegria, a tristeza, a ausência de sentido, enfim, tudo que fazemos nos dias inúteis, em contraposição aos dias úteis, que são aqueles em que nos vendemos a algum capitalista maldito.

Fora isso, questões diversas surgem. O que está vivo é apenas um órgão ou uma pessoa? Se haverá capacidade de adquirir e produzir conhecimento, esses cérebros centenários poderão se tornar os novos gurus da humanidade, ou os melhores professores e intelectuais, visto que poderão armazenar e processar uma quantidade monstruosa de informações, possíveis pelo próprio tempo. Se podem produzir conhecimento, também podem produzir muita besteira e serem responsáveis por grandes tragédias. Como proceder então? Julgamos e prendemos o cérebro? Cortamos o programa que lhe fornece as informações eróticas como punição? Desligamos os computadores e o deixamos apodrecer? O cérebro poderá se candidatar à presidência da República?

Não defendo o retorno a uma vida natural, naquele sentido de estarmos todos correndo pelados no meio do mato. Não defendo porque sei que não é possível tal retorno, embora me pareça mais interessante. Mas me assombra esse tipo de “novidade”.

Imagino que isso deverá custar muito, portanto, não corro o risco de ter meu cérebro vivo por muito mais tempo do que a natureza e a minha ação contra ela permitirão que esse corpo mortal permaneça em atividade.

Mas caso ocorra, por uma infelicidade, que alguém resolva eternizar meu cérebro e, com ele, supostamente, eu mesmo, peço que alguma alma gentil simplesmente puxe o fio da tomada.

Seguro morreu de velho e nessa incrível vida eterna vão me faltar as mãos para realizar esse ato tão simples.

 

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2 comentários sobre “A vida é o cérebro?

  1. Bacana a reflexão..

    é dificil p/ o ser humano aceitar q a vida é um acaso, q nao somos nada diante do cosmos.. e muito menos q a vida consciente um dia acaba..

    mas… é o que de fato acontece ou pode acontecer..

    Abraço!
    ps. frequentei a pos em filo 2010/2011 na meto, desenvolvi meu artigo final sobre existencialismo, com uma visao bem pessoal..

  2. Caro César,
    A introdução de seu texto indica a diretriz e o alvo da discussão.”Uma empresa” (…) poderá vender a imortalidade a quem possa pagar…
    Antes fosse a necessidade de preservar belos cérebros,grandes humanistas,notáveis pessoas.
    Mas amigo, estamos fadados ao progresso,com tudo que isso possa representar e trazer.Não podemos mais refletir sobre os limites, mas voltar àquilo que é mais essencial ao ser humano(?), e como isso se distorceu.

    Por favor, gostaria de ver algo sobre desejo e necessidade.
    Abraços.

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