A semana: Khadaffi, cabo Anselmo, os médicos e nossa estupidez

Cesar Mangolin

A semana que acaba foi das mais infelizes dos últimos meses…

Talvez a proliferação dos equipamentos que podem registrar imagens de forma mais fácil tenham responsabilidade nisso, além da televisão, do rádio e coisas assim.

Não sou contra o desenvolvimento do conhecimento humano, como podem pensar alguns. Apenas questiono a forma como os utilizamos. Essas formas são, assim como as possibilidades das invenções, condicionadas por nossas estruturas. Isso quer dizer que assim como não existe técnica imparcial, também não podem existir formas de utilização desses novidades com imparcialidade.

A parcialidade se observa pela descoberta dos lugares sociais a partir dos quais os responsáveis pela veiculação de notícias e os produtores das imagens e das notícias observam os fatos. Isso pode ser uma ação manipuladora e deliberada, assim como pode ser apenas reflexo da ideologia.

O mais angustiante talvez seja esse último. Vejo que estamos desenvolvendo certo gosto por “ver” determinadas atrocidades que antes apenas “sabíamos”.

Claro que não ver não resolve o problema. Da mesma forma que fechar os olhos no momento em que se vai arrebentar o carro contra um poste não salva ninguém do acidente.

Se determinadas coisas que acontecem assustam, portanto, assustam igualmente como as pessoas recebem essas “coisas”. Temos programas diversos na TV que se empenham em exibir as imagens de gente sendo assassinada, espancada etc. Esses programas o fazem não porque querem forçar a exibição, mas porque as pessoas gostam disso. Têm prazer no horror, ao mesmo tempo em que isso serve para fazer com que cada qual agradeça a algum deus maldito a vida que tem: melhor a sua no sofá vendo desgraça alheia do que a do mendigo que passa pegando fogo, morrendo e pedindo socorro; a mulher assassinada pelo marido ciumento; o jovem espancado até a morte na saída de uma casa noturna; o tiro certeiro do policial na cabeça do ladrão que tinha um refém  etc, etc, etc.

Vivemos um “reality show” de mau gosto, gerado por um mundo sem sentido, de idiotas atomizados.

Nesta semana o que me chamou a atenção foi: uma entrevista, um julgamento e um assassinato.

A entrevista foi no “Roda Viva”, da TV Cultura, com o famoso Cabo Anselmo. Ele, que nunca foi cabo, foi assíduo colaborador da repressão durante a ditadura militar. Infiltrado nas organizações da esquerda armada, foi responsável pela tortura e pelo assassinato de incalculável número de pessoas, amigos seus, companheiros seus, dentre elas sua companheira, assassinada pela repressão em Pernambuco. Aquela figura execrável respondia as questões, mal formuladas, diga-se de passagem, e insistia na idéia de que sua intenção era acabar com as mortes de lado a lado. Entregar os companheiros e a própria esposa à morte significava para ele acabar logo com a luta revolucionária. Até hoje, segundo o próprio, ele vive de ajuda de alguns empresários, esses mesmos porcos que financiaram o golpe e o aparelho repressivo.

Gente desocupada que se dá o direito de falar sobre o que não sabe, elevando o senso comum à posição verdade incontestável, costuma falar que os que lutavam também praticavam violência. Não estou aqui fazendo nenhum discurso vazio sobre a paz, ou sobre a “cultura de paz”, esse novo lema da bovinização do povo. Somente é necessário que esses desinformados estudem melhor quais eram as razões da ditadura e tomem posição como gente séria: ao lado do capital, que tornou nossa vida esse caos, ou ao lado de uma alternativa a essa ordem. A violência é a parteira da história. De qual lado estamos quando se torna inevitável seu uso é o que determina sua infeliz, mas justificada, necessidade.

Os que insistem nessa conversa vazia poderiam se concentrar mais na defesa dos animais e das árvores, em detrimento de humanos, como bem sabem fazer, e não mais meterem-se nessas questões mais sérias, que não se resolvem com tomadas generalistas de posição em favor de uma paz que nunca existiu.

O tal cabo Anselmo me fez perder algumas horas de sono e me despertou instintos tão violentos quanto a violência que ele praticava da forma mais covarde.

Depois, pelo rádio, vem o julgamento de quatro médicos que são acusados de matar pacientes para retirar-lhes os órgãos e vendê-los. Uma enfermeira diz ter visto um dos pacientes se debatendo na sala de cirurgia, enquanto arrancavam-lhe os rins. Dinheiro… eles apenas viram que isso poderia dar algum dinheiro e, afinal, o que seria a vida de alguns pobres? Lembram da morte do pataxó Galdino? Seus assassinos disseram que atearam fogo nele porque pensaram que era um mendigo… Parece que se soubessem que fosse um ”índio”, esse patrimônio nacional, isso não ocorreria. De fato, quantos moradores de rua foram queimados ou assassinados a pauladas nos últimos anos? Qual a repercussão que isso teve? Os assassinos tinham razão. A mesma razão estúpida que organiza nossa vida, com nossa complacência e participação.

O outro assassinato foi de Khadaffi. Não entro no mérito da discussão sobre o que ocorreu na Líbia agora para não estender demais. Apenas digo que aprendi, desde criança, a ser contra a  tudo que tem os EUA e a OTAN metidos. E a história de nosso tempo tem dado razão a isso.

Nos computadores do mundo todo pudemos assistir a captura de um homem velho, com olhar assustado, já bastante machucado. Logo depois, ele aparece morto. Morreu com menos dignidade que um porco. Imagino as atrocidades cometidas. Seus filhos também foram assassinados, assim como todos da família terão o mesmo fim caso sejam pegos. O mundo festeja e anuncia isso como uma “Libertação”. Assistam a guerra civil que vai se iniciar na Líbia a partir de agora, assim como tem ocorrido no Iraque, assim como ocorre no Afeganistão etc, etc.

É a paz e a liberdade dos cemitérios.

Eu vi gente que não entende nada disso comemorar, que nem mesmo sabia que existia a Líbia, quanto mais o Khadaffi. Gente que assistiu várias vezes o vídeo e o enviou para os amigos virtuais. Eu recebi várias mensagens felizes anunciando a morte do líder líbio como se fosse a derrocada de satanás.  Correntes cristãs têm percorrido a internet com link do vídeo e, para aproveitar, com o abaixo assinado para que aprovem o dia da homofobia, ou melhor dizendo, o dia do orgulho hetero.

Vi professores universitários comemorando a morte de Khafaffi e passando o vídeo para que outros assistissem, assim como comentando e elogiando a performance de cabo Anselmo na entrevista, assim como se benzendo por ter um convênio médico que supostamente os livra do comércio de órgãos. Os vi, aliás, e como sempre, cuidando zelosamente de seus umbigos de classe média, lutando por picuinhas e fazendo de conta que são importantes para algo e para alguém.

Isso tudo em uma única semana… que, infelizmente,  não foi diferente da semana passada e, provavelmente, será a cópia antecipada da semana que vem.

 

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6 comentários sobre “A semana: Khadaffi, cabo Anselmo, os médicos e nossa estupidez

  1. Segundo o que li, vim a saber que na quarta-feira de noite o serviço secreto(não recordo qual) teria detectado um telefonema via satélite sendo feito em Sirte. O autor do telefonema seria o Kadafi, ligando para aliados no sul do páis pedindo um reforço de milhares de homens armados para levar uma investida final contra os rebeldes. Foi assim que o serviço secreto localizou as coordenadas geográficas da ligação, uma casa em um complexo residencial chamado “Área 2”, em Sirte, e repassou as informações para as unidades da OTAN, e eles passaram então toda a noite monitorando a área, convocando ao mesmo tempo uma unidade dos rebeldes da cidade de Misrata.
    Pela manhã o monitoramento da OTAN constatou a saida de um grande comboio na área em observação e passou a bombardear os veiculos no percurso, enquanto a unidade de rebeldes convocada se apressava ao local. O bombardeio teria atingido o carro de Kadafi, que se incendiou e ele mais alguns acompanhantes, entre eles seu motorista, passaram a fugir a pé. Há dúvidas, mas se pressupões que ele foi no momento do bombardeio ferido no abdomen.
    Com a aproximação inimiga, Kadafi escondeu-se em um dos bueiros.
    Foi lá que os rebeldes o encontraram. As sequências de imagens que correm na internet provam que ele estava com vida quando aprisionado e depois de ser transportado no capô de uma pickup.
    Kadafi foi muito provavelmente executado com um tiro na cabeça e as evidências quase que não deixam dúvidas, a começar pelas declarações do governo provisório líbio. O linchamento fere os princípios do direito internacional. Se sabia de seu paradeiro a obrigação dos responsáveis pela operação da OTAN seria garantir a prisão com vida de Kadafi. A OTAN continua negando participação, mas a verdade é esta aí em cima. Todo mundo sabe que Kadafi não era santo, mas o que vem depois dele tem as mãos cheias de sangue do imperialismo.

  2. Meu comentário não deixa de ser um apelo a raça humana, para pensar nas perdas ocorridas quando da morte de qualquer ser humano, seja ele um cidadão trabalhador vitima do sistema, ou até mesmo o mais temivel dos assassinos.
    Sempre serão perdas irreparáveis, pois na morte de qualquer ser humano perece também a dignidade e o respeito.
    Caro Professor Mangollim! Digo, com todo o respeito, nada é mais importante que a vida, nem mesmo uma sociedade igualitária.

  3. Professor,

    Concordo com você! Aprendi que as coisas aparecem de maneira invertida. A mídia tem grande parcela nisso por pertencer a uma classe empresarial que dão diretrizes a nossa consciência impondo sua visão de mundo.

  4. Haha… a mídia sempre se especializou em deixar claro que há uma verdade que todos devem conhecer, e há a verdade “real” que ninguém deve saber. Toda informação que chega às massas é filtrada cuidadosamente… assista ao filme “Agentes do Destino”, com Matt Damon, e então entenderá o que quero dizer. Tudo isso é manipulação pura, porém feita num patamar tão global que poucos conseguem discernir o perigo. Onde vamos parar então? vivemos na era da massificação da “informação”, mas que tipo de informação? Essa palavra quer dizer “formar dentro”, portanto a informação é sempre um tijolo para construção de alguma ideia, correta ou não. Que tipo de tijolo estão nos dando, para formarmos que tipo de construção? Uma construção tão duradoura como a feita sobre a areia, de acordo com a narrativa biblica. Fora com a manipulação midiática, fora com o controle possessivo e interesseiro da informação. Muito bom post, prof. Mangolin. Saudades dos bons tempos de sala de aula!

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