Deus e o Diabo na terra do umbigo

Cesar Mangolin

Esses dias ouvia a pregação de uma mulher de alguma igreja cristã.

Ela dizia a uma senhora lá pelos sessenta e tantos que os tombos que havia tomado eram obra do diabo. Por alguma razão, no mínimo curiosa, o próprio teria certo gosto em desequilibrá-la.

Depois, disse que o demônio estava em todos os lugares. Na sua casa, dentro dela e, quase acrescentei eu, dando rasteira nos outros por aí.

A violência, o desemprego, a fome, as guerras, as doenças…. tudo obra do capeta!

Pobres humanos que são vítimas sem defesa do tinhoso !

Ela falou durante uns quarenta minutos: 30 minutos sobre a obra de satanás, uns cinco sobre Jesus e outros cinco falando das benesses de sua igreja na conquista do reino dos céus, desde que pagos os 10% do pastor, obviamente, que deve ter algum acordo de representação imobiliária com deus, além de cuidar de outras questões burocráticas, como a ida direta e sem escalas ao paraíso. O pastor, pelo que entendi, é um verdadeiro e competente despachante das coisas celestes!

Os cinco minutos gastos com Jesus foi uma explicação digna de nota sobre o fim do mundo: segundo a pregadora, no fim dos tempos Jesus vai voltar e chamar a cada um pelo nome, separando os salvos dos não salvos.

Argumentei comigo mesmo que depois de toda revolução tecnológica isso não parecia muito inteligente, além de demorar pra diabo, digo, bastante.

Daria sorte se a chamada for em ordem alfabética: como meu nome começa com “c”, estaria relativamente no início da lista. Mas logo desgostei da idéia, visto que meu amor, a Ruth, estaria no final da lista e, considerando que uma coisa é chamar e outra é responder, passaria bons meses, ou anos, sem vê-la, afinal, são 7 bilhões de pessoas, fora as que já morreram! Independente do lugar, sei que vamos para o mesmo (se houver lugar a ir, óbvio).

O mais incrível disso tudo é que a mulher demonstrava acreditar mesmo naquilo tudo que dizia, particularmente nas artimanhas do sete pele para lascar ainda mais nossa vidinha besta.

Solidário que sou aos perseguidos e desprezados, acabei por logo me compadecer com o cabrunco e começar a pensar que havia ali alguma questão política de fundo, que tornava o chifrudo responsável por tudo.

Independente da lógica da argumentação da mulher, salta aos olhos a importância da identificação de uma fonte do mal para que se possa falar de uma fonte do sumo bem.  A demonização não é algo próprio do discurso religioso, mas está presente em todas as frentes.

Caso sejamos sinceros o bastante, dentro da lógica religiosa, a fonte primária de tudo mesmo  é deus, afinal, ninguém pediu para ser criado, exatamente porque o que não existe não pode ter vontade. Daí os cristãos saem com aquela do livre arbítrio… Vejam: que ser cria outro com a capacidade de se arrebentar? Por que não nos fazer simplesmente perfeitos e felizes, ou ainda melhor, simplesmente não fazer nada, visto que a obra acabou dando merda?

Respeito profundamente a fé das pessoas. Não me tomem, por causa do meu tom irônico, por arrogante. Até agora apenas fiz comentários simplistas dentro da lógica que parece prevalecer no discurso dos seguidores dessas igrejas todas, principalmente as influenciadas pelo movimento pentecostal, do que não foge a igreja católica, com a sua chamada “renovação carismática” e seus padres marcelos cantadores das belezas e das mazelas do reino para o umbigo de cada um.

Esses movimentos pentecostais estão bem adaptados ao mundo que vivemos: tratam a fé como algo individual, suas músicas são cantadas sempre na primeira pessoa do singular, as orações feitas em tom histérico, com mãos erguidas para o alto e cada qual dizendo o que bem entende.

São ilhotas religiosas, assim como são ilhotas em todos os outros espaços da vida, mendigando ao patrão uns centavos a mais em troca de sua fidelidade total (isso se chama, de forma mais popular, de peleguismo), mendigando a deus mesmo na vida de agora e as garantias para a vida futura. Carneiros mendigando e buscando soluções rápidas para as agruras da vida, individualmente.

O diabo virou tudo o que se quer negar e, ao mesmo tempo, explicação para tudo de ruim. Eu não tenho desejo sexual, é o diabo que põe isso na minha cabeça; não tenho vontade de tomar umas biritas, coisa do cão; não sou egoísta, não tenho defeitos, tudo que sai errado é obra do esquerdo; a sociedade que vivemos não é resultado de nossa passividade, as violências sociais todas não têm relação com a divisão de classes, com a exploração do homem pelo homem: tudo é obra do coisa ruim.

Já trataram, ainda no século XIX, dos efeitos ideológicos da projeção desta vida na vida eterna e de sua função reprodutiva e atomizadora das relações sociais concretas.

Constato aqui apenas o óbvio: isso é atualíssimo, cada vez mais gritante… e mais estúpido.

Se isso tudo (deus, diabo, vida eterna etc) for como dizem por aí nas igrejas, penso que no teatro da vida, lá em cima, depois das escadarias, na porta que dá visão das poltronas todas e do palco, abraçados, morrem de prazer e riem-se, abraçados, deus e satanás.

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13 comentários sobre “Deus e o Diabo na terra do umbigo

  1. Gostei muito do texto, além de retirar dele boas risadas.
    Como se já não bastasse o egoísmo evidente das pessoas, isso ainda é levado para as religiões. Uma pequena desculpa para não se sentir culpado por não querer o bem dos outros.
    Enfim, espero que nos encontremos depois. Provavelmente eu estarei ao lado de sua parceira, já que estarei “no fim da fila”.
    Beijos,

  2. Olá Professor

    Ótimo texto, ri muito.
    Infelizmente as instituições religiosas estão falidas e perderam todo contexto de auxiliar as pessoas em seus “problemas da vida”.
    Só para complementar, algumas igrejas se tornaram verdadeiras passarelas de moda, onde seu público feminino cria uma “guerra de vestimentas”, ou seja, para ir a igreja é necessário estar bem vestido com roupas de grife, cabelos bem arrumados, acessórios pomposos.
    Onde quem não tem condições de estar “bem na fita” que fique longe da Igreja.
    Citando alguns exemplos de comentários que presenciei, pessoas que vão a igreja devem ter um bom carro, uma boa casa, e demonstrar que sua vida é próspera, porque caso contrário essa pessoa não é “digna do Senhor”, ou seja, não serve a Deus. Pois o que as igrejas estão pregando é que o Senhor só proporciona a prosperidade se a pessoa é digna.
    Aí pergunto: Como nos tornamos dignos dessa dádiva?
    Vejo mães dentro de igrejas e seus filhos roubando pais de família nas ruas.
    O que está errado?
    Enfim, essa discussão é longa.
    Por muitas situações que presenciei, posso afirmar que a Religião, independentemente de seu seguimento, não está atingindo o propósito de coesão social.
    É mais fácil justificar que a culpa é de Satanás, do que admitir sua falência.

  3. Cesar, jamais imaginaria você parado por 40 minutos ouvindo uma sra falando sobre o que aprendeu da sua religião.
    Mas observando os pontos que lhe despertaram interesse: deus, diabo, vida eterna, livre arbítrio, existencialismo, etc;
    Gostaria de indicar a voce que muito admiro por sua inteligencia e cultura, um cara que pode falar sobre estes assuntos,
    com tal clareza sobre estes mesmos assuntos que tenho certeza que voce tiraria muito mais proveito e em muito menos tempo, ouvindo e trocando idéias com ele.
    Seria muito interessante saber o teu comentário depois de ouvi-lo.

    O site é: caiofabio.net e/ou
    vemevetv.com.br

    indico o programa ao vivo onde se pode postar no chat – “papo de graça” d seg. à sexta as 9:00hs e cabra macho, sim senhor às segundas as 20:00,hs

    abraço.
    Moura

  4. Sinto muitíssimo pelos comentários!
    Pois, só se considerou os equívocos da religião, principalmente a da linha pentecostal. Realmente, vemos algo de ideológico nos comentários, como tentar desmoralizar uma das instituições que mais fizeram pelos desfavorecidos desta nação.
    Retirou muitas pessoas da miséria, deram-lhes voz, vez, sentido de vida e sentido de pertença e acolhimento. Coisa que nenhuma agremiação política fez e é capaz de fazer. Guardadas as devidas proporções, é um equívoco tomar o particular pelo geral. A maioria da gente simples das igrejas não são exploradas, são, sim, mais protagonistas do que se possa imaginar de suas vidas pessoais (não uso o termo individual) e comunitária. Além de pastores que,praticamente, “pagam” – pois, a prebenda deles é insuficiente para sustento – para conduzir milhares de desesperançados à superação de seus limite pela fé em Deus – que tem mais condições de ser provado; que o contrário.
    Antes de falar acerca daquilo que mais sobressai, dado seu caráter coletivo (o culto), é importante ressaltar os avanços sociais que agremiações religiosas como Assembleia de Deus e a própria Congregação cristã tem conseguido: recuperar viciados, socializar pessoas desesperançadas e promover um mínimo de “espírito de igualdade” num país onde de igualdade somente há, quando o interesse é o de espoliar e explorar outros.

    1. Com todo respeito meu caro Valter Borges tu nao deve viver no mesmo mundo que eu, ou se vive, alienou-se dele, pois o cristianismo de modo geral somente trouxe desgraças a humanidade. Desde Arios, perseguido e morto pelo bispo Atanasio por ter discordado do politeismo/triteismo da trindade (um heresia master), até o atual Malafia, passando pelas cruzadas e santa inqyuisição, a historia da fé cristã nos demonstra que semrpe esteve ao lado dos opressores, dos monarcas, dos politicos, enfim, da direita terrorista. Quantos Giordanos Brunos e Galileus nao foram mortos por simplesmente terem nascidos genios e com espirito cientifico? E qui no Brasil, o que dizer das igrejas por ti citadas que durante as ultimas eleições presidenciais apoiaram Serra e o PSDB/DEM e hj nao se cansam de criticar e atacar o governo Dilma? E a bancada evangelica que tem impedido a votação de inumeros projetos de reforma politica e social que os partidos de esquerda tentam aprovar? Aonde vc ja viu alguma dessas duas igrejas (que estao cada dia mais milhionarias) aceitar declarar renda e direcionar parte do que arrecadam aos mais pobres? Alias,pq estas igrejas nao aceitam declarar renda? Seria prq estao fazendo lavagem de dinheiro pro crime organizado? Ou sera que aquela dupla de pastores presos carregando fuzis escondidos em seus luxuosos carros no rio eram apenas alguns raros lobos em meio as ovelinhas de cristo? Prq os politicos da Assembleia sempre votaram nao as reformas politicas e fiscais como votaram nao ao PNDH3? Afinal o que os pentecostais tanto querem esconder? Abraços….

      1. Prezado marivalto,…
        Respeito muito sua posição e concordo com as questões que você mencionou. Sei dos equívocos que a religião, todas elas, provocaram e promoveram… Ocorre que, existe uma igreja, que não está na mídia, de onde você retirou os fatos citados, mas que está na contramão desses equívocos.
        E é isso que chamo a atenção de todos vocês… Há uma igreja que luta pelo certo… E não estão nas lideranças, eles estão entre nós, quem sabe mais perto de ti do que imaginas. Basta observar com um olhar cientificamente correto, ou seja, com distanciamento.
        vou repetir minha posição. Veja:

        Guardadas as devidas proporções, é um equívoco tomar o particular pelo geral. A maioria da gente simples das igrejas não são exploradas, são, sim, mais protagonistas do que se possa imaginar de suas vidas pessoais (não uso o termo individual) e comunitária. Além de pastores que,praticamente, “pagam” – pois, a prebenda deles é insuficiente para sustento – para conduzir milhares de desesperançados à superação de seus limite pela fé em Deus – que tem mais condições de ser provado; que o contrário.
        Antes de falar acerca daquilo que mais sobressai, dado seu caráter coletivo (o culto), é importante ressaltar os avanços sociais que agremiações religiosas como Assembleia de Deus e a própria Congregação Cristã tem conseguido: recuperar viciados, socializar pessoas desesperançadas e promover um mínimo de “espírito de igualdade” num país onde de igualdade somente há, quando o interesse é o de espoliar e explorar outros..

        Desculpe a insistência e volto a frisar: a igreja que trabalha não está em noticiários policiais e políticos, mas a igreja verdadeiramente militante, humana e que trabalha, está sem voz midiática, nem aparece na foto!!!

        Abraços,

    2. Valter eu entendo o que vc esta dizendo, eu frequentei igrejas por grande parte da minha vida. Eu sei que nas igrejas (assim como em todo lugar) há pessoas de boa vontade e honestas como há pessoas de má índole e desonestas. O problema não é este, o problema que aponto aqui nao se dirige a pessoas e sim a ideologia. A biblia carrega em si grandes ensinamentos de bondade e fraternidade, mas tbm carrega toda uma coleção de preconceitos e incentivos ao individualismo e intolerância. A biblia pdoe ser usada para fins zelosos como tbm para fins perversos. O grande problema do cristianismo reside ai, em um manual que legitima a segregação, intolerância, xenofobia e proselitismo, pois para o deus cristao, é mais importante a fé do que a boa ação, sendo vedado a descrença e o ceticismo.

  5. CRENTES PARA PRESIDENTE; UM PERIGO IMINENTE ?

    No primeiro dia de 2010, o Datafolha anuncia o resultado da pesquisa para descobrir quem são as personalidades confiáveis do país.

    No levantamento do instituto – que ouviu 11.258 pessoas, entre os dias 14 e 18 de dezembro – os apresentadores de televisão Gugu Liberato, da Record, e Silvio Santos, do SBT, bateram os concorrentes globais Fausto Silva e Xuxa Meneghel, que também estão entre os 27 mais votados.

    A margem de erro da pesquisa é de 2 pontos percentuais, para mais ou para menos.

    De acordo com o Datafolha, o ranking da credibilidade foi o seguinte:
    em 1º Lula,

    em 3º lugar o Padre Marcelo Rossi(fanatico)

    em 13º José Luiz Datena (fanatico)

    em 2º Edir Macedo (sem palavras)

    Os 11.258 entrevistados, de 14 a 18 de dezembro, deram notas de 0 (menos confiável) a 10 (mais confiável) às personalidades apresentadas.

    OBS: Lula lidera a lista, com nota média de 7,9.
    http://marivalton.blogspot.com/search?q=crente+presidente

    1. Marivalto, suas inquietações também, fazem parte de nossas inquietações.

      Veja um posto na qual enfatizamos a preocupações do que se conhece hoje, como evangelho e política.

      Em seu site (www.ricardogondim.com.br), o Pr. Ricardo Gondim escreveu um artigo, no último dia 07 de fevereiro, com o título provocador: “Deus nos livre de um Brasil evangélico”.

      Polêmico, mas, realista, o texto é publicado justamente perto da divulgação do novo Censo do IBGE que demonstrará, sim, que os evangélicos estão em grande crescimento.

      Os católicos correspondiam a 73,79% da população brasileira em 2000, mas vêm caindo, enquanto aumenta o número de evangélicos. A porcentagem de católicos, a ser confirmada pelo censo 2010 do IBGE, deve estar por volta de 65%.

      Recentemente uma das maiores revistas do País publicou uma série de matérias em que fazia previsões para o Brasil em 2020. Em uma dessas publicações, a revista aborda o crescimento evangélico. “Estima-se que 50% da população brasileira poderá ser evangélica” daqui a 11 anos, segundo estatísticas do Sepal (Servindo aos Pastores e Líderes).

      Se por um lado o crescimento de evangélicos seria salutar, ainda de acordo com a revista, “a influência evangélica em 2020 contribuirá para a diminuição no consumo do álcool, o aumento da escolaridade e a diminuição no número de lares desfeitos, já que a família é prioridade para os evangélicos”.

      Por outro lado, segundo o Pr. Ricardo Gondim, poderia ser “desastroso se acontecesse essa tal levedação radical no Brasil” (Ricardo Gondim). Conforme identifica o site creio.com, acerca da matéria, Ricardo Gondim “teme o aumento do fisiologismo político e falta de liberdade” (creio.com).

      No artigo “O crescimento da Igreja Evangélica tem feito do Brasil uma sociedade mais Justa? Ou não?!” quando fiz a provocação acerca do preparo da igreja para influenciar, disse:
      “Nesse momento é preciso fazer uma auto-crítica, pois precisamos saber para onde ir, e como ser evangélico nessa nova fase. Fase de liderança! É verdade que o crescimento quantitativo é de sua importância em todos os aspectos, entretanto, é suficiente para mudar as pessoas e a nação? Até que ponto os evangélicos fazem a diferença no Brasil e na América Latina?”

      O tema é polêmico, os evangélicos crescem, mas é desejável. Ricardo Gongim afirma que teme por isso.

      Ressalto que, também, temos visão crítica de nós mesmos, e fazemos propostas para mudanças, isso, também, com base nas ciências sociais.

      Veja a íntegra do artigo dele e faça suas reflexões:

      http://www.teologiaesociedade.com/2011/02/ricardo-gondim-nao-quer-um-pais.html

      http://www.teologiaesociedade.com/2011/02/o-crescimento-da-igreja-evangelica-tem.html

  6. Muito hilário e tenaz seu texto professor. De fato as instituições religiosas estão falidas e alienam principalmente os pobres e desprovidos de conhecimento e cultura universal.

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