Ano novo… de novo!

Cesar Mangolin

 

Mais uma vez um ano se acaba e outro está para começar…
O movimento constante é a principal lei universal. O tempo, longe de ser uma categoria inata do conhecimento humano, é uma realidade objetiva. O que o humano interfere aí é apenas na forma de contar e perceber o tempo. Os demais animais, desprovidos dessa capacidade racional, vivem o tempo de outra forma. Na verdade, vivem em harmonia com o tempo: há tempo de nascer e de morrer, tempo de acasalar, tempo de deixar isso pra lá, numa boa. Talvez até nisso sejam mais felizes que os animais humanos.
Estes últimos trezentos e tantos dias foram de expressão da vida em todos os seus vieses. Alegrias, conquistas, tristezas, decepções, frustrações, tudo que um sujeito normal tem direito.
Por vezes dá impressão que a virada do ano zera tudo e começamos novamente. Daí essa idéia de se fazer um balanço do que passou. Na verdade, tudo continua exatamente de onde parou, ou melhor, não pára um instante sequer e as mudanças bruscas dependem muito pouco de nossa vontade e muito mais das contingências da vida.
A capacidade de perceber e racionalizar o tempo, como disse acima, dá aos humanos uma falsa sensação de que podemos controlar as coisas todas, sumeter o tempo, assim como submetemos supostamente a natureza. Mentira. Ilusão.
Lutamos para domar o tempo e, principalmente, driblar o resultado natural da vida,parte integrante da vida, que é a morte. Mais do que bem viver, buscamos de forma tresloucada estender a vida no tempo, ainda que seja insana a vida.
Claro que os que assim fazem pensam ser isso bem normal. Por vezes penso se o insano não sou eu e os demais que acusam a maioria de alguma vida sem razão. Isso passa logo: o que é justo, belo e melhor nunca foi definido por maiorias constituídas, assim como a justeza de uma causa não garante sua vitória final.
Daí persistirmos na luta por uma nova forma de organizar as comunidades humanas. Saber que esse mundo e essas relações são estúpidos e que há possibilidade de fazer diferente não torna esse objetivo final um desenlace natural da história. Portanto, tenho aqui já um elemento que deve permanecer no novo ano,com maior intensidade, tentando não cometer os mesmos erros, procurando não deixar que a preguiça e a vaidade intelectual atrapalhem essa construção que é necessariamente coletiva. Persisto militante e comunista no próximo ano.
Ainda como parte disso, persistirei na tentativa de contribuir também na reflexão teórica, continuando a estudar, escrever e compartilhar nas variadas formas possíveis com os que quiserem também participar dessa construção que é também coletiva. Pobres dos que sonham em produzir teorias isoladas e assinadas. Escrevem para encher seus egos. Não precisamos de gente assim.
Já que insisto tanto na coletividade, também pretendo continuar privilegiando um núcleo mais próximo na convivência diária, particularmente meu amor, a Ruth, companheira para qualquer parada, fundamental para a vida. Também vamos continuar a busca por uma vida mais razoável, ainda que dentro dessa loucura.
Continuo também com os defeitos todos, principalmente aqueles dos quais me orgulho: intransigência diante de situações que me parecem injustas; teimosia quando tenho certeza de algo; colocar princípios antes dos interesses pessoais em momentos cruciais. Isso nem sempre é inteligente e necessário.
Aprendi e vou carregar comigo, principalmente, experiências que envolvem nosso tempo, esse lapso de tempo que chamamos vida.
Vou carregar a experiência da fragilidade da vida e aprender sonhar mais e melhor, mas concretizar o que é possível sem protelação; carregar a necessidade de observar e viver mais as coisas mais simples que nos cercam; carregar o peso de ver a morte de perto, sentir a dor dos que ficam e, principalmente, a dor de persistir, de observar que tudo continua, ainda que pareça estranho que tudo continue quando falta alguém importante por perto. Vi gente tendo que fazer isso este ano, todos os dias milhares de pessoas têm que aprender a fazer isso, e parece algo que abre um buraco imenso na alma de qualquer um.
Não há um tempo específico para chorar nossos mortos. Isso deve ser feito enquanto continuam as demais tarefas, enquanto outros não entendem, enquanto a vida continua. Chorar a morte é chorar a vida, que merece todas e as faltantes lágrimas.
2012 será melhor e pior, tudo acontecendo ao mesmo tempo. Eu que escrevo aqui e você que lê podemos não chegar à virada de 2013. Poucos sentirão nossa falta.
Aprendi algo de interessante de alguém especial esses dias. Um negócio simples, que vale para a vida. Se alguém lhe perguntasse: “O que você deve fazer quando se reunem as moscas?” A resposta mas rápida que vem à mente é a de espantar as moscas, ou matá-las. Porém, o problema somente é resolvido quando o que atrai as moscas é retirado, trocado ou jogado fora e o local limpo.
Que saibamos fazer isso na vida e com a vida: retirar, trocar ou mandar longe o que atrai as moscas e não viver abanando as merdas do cotidiano como se fosse o melhor.
2011 foi alegre e sofrido, triste e bom. 2012 será do mesmo jeito. Desejo apenas que saibamos viver melhor essas coisas todas.

Obs.: quanto à virada, continua o conselho do ano passado: mande pra dentro umas boas doses de vodka lá pelas 22:00h e depois capriche na cerveja. Se você não vomitar até as 24:00h, das duas uma: ou terão medo de lhe abraçar e ficar com aquela chatice de “feliz ano novo” e coisas assim, ou você embarca na coisa e até chora cantando “que tudo se realize no ano que vai nascer”.
Beijo para vocês!

 

 

 

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3 comentários sobre “Ano novo… de novo!

  1. kkkkk… Hilário… Bom conselho, professor!! Nada de abanar as merdas!!! Vamos nos livrar dos males pela raiz… Isso remete ao famoso “geitinho brasileiro” de lidar com os problemas da vida!!! Por isso as moscas nunca se vão, e vivemos assim, passivos à elas, como se fosse algo comum e natural a sua permanencia entre nós, e se nos sentimos algumas veses mais incomodados do que outras, o máximo que fazemos com nossa capacidade de encontrar soluções eficazes é na verdade o mínimo: abanamos a merda, damos as costas, e fingimos não saber que as moscas ainda estão ali!

  2. uhauah boa professor, essa ideia de beber e vomitar pra espantar a falsidade foi boa …tbm odeio esses abraços falsos uaahuau se alguem gosta de mim, simples ….me de valor e valorize nossa amizade so isso.

  3. Olha só,…
    Gostaria que meus colegas de sala lessem e compreendessem (língua difícil do c…) uma boa idéia e uma bela visão de mundo como essa.
    Refletir e aceitar a fragilidade da vida,nossos defeitos, rejeitar nosso sentimento de grandeza e sobretudo as injustiças.
    Enfim, não viver de Rivotril.
    Gostaria de expressar minha alegria em conhecê-lo em 2011, e espero que seu fígado funcione um bocado ainda, hahaha…

    Abraços e feliz 2012!

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