A Globo e a bobalização

Cesar Mangolin

A Globo, a Globo… Depois de ver que agora a globeleza faz chapinha e que o samba se rendeu aos encantos do plim-plim, com versinhos pobres de Arlindo cruz, eu que já não esperava nada de interessante dali acabei por jogar a toalha de vez. Não vou mais gastar tempo falando ou escrevendo sobre a Globo. Prometo que é a última vez.

O povo não parece fazer questão alguma de pensar de forma um pouco mais crítica a sua própria bovinização. Não há nada de mais escancarado e mais discutido e mais divulgado que o papel nefasto desta emissora ao longo das últimas décadas. Não temos inocentes aqui: é necessário ser muito desligado e completamente ignorante para nunca ter lido, ouvido e visto alguma crítica razoável às distorções efetuadas por aquela gente que decretou que vivemos numa aldeia global.

Claro que as demais emissoras e outros meios de comunicação tomam a mestra como padrão. As críticas não servem apenas à rede Globo, mas a todos os meios de comunicação de massa, concentrados nas mãos de alguns poucos bilionários. Grupos poderosos que interferem decisivamente na vida política do país e nas possibilidades de acirramento da luta de classes.

Apesar da origem pública do sinal concedido, governo algum ousaria, dentro desta ordem, a afrontar o poder dos que, de fato, compartilham o poder econômico e político.

A música de Arlindo Cruz diz no refrão que o “povo escolheu a Globo, isso é globalização”. Não vamos exigir rigor teórico de uma letra medíocre (aliás, de nenhuma letra ou poesia, ou discurso). Porém, vale já salientar que a tal globalização é um conceito ideológico, que tem servido para diversas malandragens e como justificativa para qualquer safadeza mundial. Ao inferno a música e a globalização, então.

Chama a atenção uma inversão bastante curiosa. O povo não escolheu a Globo: ela foi enfiada goela abaixo dos brasileiros e eles aprenderam a gostar do que vêm ali.

Essa é uma inversão bastante comum no mundo que vivemos: há uma crença de que a produção das mercadorias também obedece à demanda por elas. Sabemos que a produção capitalista gera não somente a demanda, mas também um tipo de consumidor próprio.

A mesma coisa pode ocorrer com relação aos expectadores da televisão brasileira. Eles não escolhem nada: os produtos lhes são impostos e geram não somente a necessidade do seu consumo (novas necessidades, por vezes…), mas também moldam um tipo específico de consumidor. Esse consumidor específico é o santamente bovinizado, egocêntrico e ignorante que vê nas telas um ideal de vida tão estupidificado quanto a sua própria vida real, embora com cores diferenciadas.

Há espaço para ver desgraças ocorridas com os outros, momento de agradecer a deus por não ser com ele próprio; há espaço para as pregações e louvações diversas, afinal, uma fezinha não faz mal a ninguém; há o momento de assistir dramas imaginários e uma vida imaginária; há momentos para rir; há espaço até para ver gente de plástico vivendo trancada e fazendo micagens, alimentando sonhos, declarando o egocentrismo e o hedonismo como valores universais e, às vezes, até fazendo sexo.

É curioso, retomando o que disse mais acima, que muita gente tem consciência disso, mas a coisa funciona como um vício: você sabe que faz mal, mas não consegue largar. Isso me faz lembrar da questão da ideologia, que estudo de um jeito um pouco diferente dos que fizeram do marxismo uma antropologia essencialista ou uma sociologia do trabalho.

Ainda que o recurso à ciência possa fazer perceber, para além das aparências, a estrutura  das relações sociais reais sob as quais vivemos, tal conhecimento não faz, pura e simplesmente, com que se mude de postura ou se lute contra a ordem capitalista. É como se a ideologia fosse algo mais arraigado, mais profundo, como se correspondesse ao real por mais que a teoria possa afirmar seu caráter de limitação aparente, e ainda que a teoria parta e tenha como objetivo último desvendar esta mesma realidade.

É como se estivessem todos embebidos de um líquido alucinógeno: ainda que sabendo que as coisas que vê e vive são efeitos da droga ingerida, acreditam nelas. Ou, podemos até aceitar que a resignação diante da vida como é faz com que tal opção coloque  a todos numa zona de conforto e faça do umbigo de cada um o seu universo.

Ser imbecil por opção não deixa de ser uma opção.

Mas, caso o nosso sambista queira mudar um dia o seu refrão, penso que ficaria mais feio, porém mais correto assim:

“Não é mole não, não é mole não, a Globo idiotizou o povo, isso é bobalização”.

 

 obs.: estou um pouco lento nas postagens aqui. Começo de semestre e mudança de casa são as razões para certa distância. Mas logo volto à atividade normal. Beijo para todos..

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10 comentários sobre “A Globo e a bobalização

  1. Ótimo texto César… peço licença para divulgar no facebook… Muito propícia sua versáo da música…

    Um Abraço! Camila

  2. Grande camarada César,
    Realmente esse comercial da globo é bizarro!
    O engraçado é que na globo parece que vivemos na Holanda ou Alemanha, pois é só prestar atenção nesse comercial é vc vai ver que não tem nenhum negro, a não ser a globeleza e o sambista.
    Ou seja, não mostra a realidade do Brasil…..
    Abraços e saudações socialistas….

  3. Professor,
    é a primeira vez que tenho acesso ao seu blog e adorei este texto em especial.
    A globo é realmente uma fábrica de robos, de pessoas alienadas e a cada dia fica pior.
    Parabéns pelo texto, vou acompanhar as suas postagens.

    Beijos

  4. Pois é: Globo e CIA contribuiu (e contribui) e muito na formação de uma sociedade ignorante que valoriza aquilo que o sujeito ‘tem’ e não aquilo que ele ‘é’. Mascara os acontecimentos, deturpam os fatos e impõe tudo que seus noticiários publicam como se fossem “verdades absolutas” (neutralidade científica!?).

    Parabéns pela reflexão Mangolin.

    Abraço

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