“Revanchismo” ou temor de encarar as responsabilidades?

Cesar Mangolin

Tem chamado a atenção nos últimos meses a movimentação dos militares e demais moralistas de direita e anticomunistas de plantão sobre a instituída, e provavelmente pouco eficaz, Comissão da Verdade.

Destinada a escavar, ainda que superficialmente, e expor os labirintos do que ainda resta de documentação do período ditatorial, além de colocar às claras, principalmente, a política repressiva daquelas duas décadas, tal comissão não tratará de possíveis ações judiciais contra os mandatários das aberrações cometidas: assassinatos, tortura, ocultação de cadáver, violência de todo tipo, inclusive sexual.

Por que têm tanto medo os que persistem vivos e participaram daquilo tudo, além de seus epígonos mais jovens, também formados dentro de fascistóides teorias nacionalistas?

O revanchismo é a acusação regular. No caso, me parece descabida, visto que somente temos uma revanche após uma derrota e o que está em questão não é a vitória ou a derrota, mas os métodos utilizados, condenáveis, inclusive, pela legislação internacional no que concerne às situações de beligerância. Tortura e assassinato de prisioneiros de guerra, ou no caso, de quem está sob a guarda do Estado, não me parece ser alvo de revanche, mas de necessária averiguação e punição de criminosos de guerra.

Deixo, no entanto, este discurso jurídico para os que gastam a vida com ele. Importa pensar no que está por trás dessas movimentações.

Não podemos esquecer o caráter de classe do golpe de 1964. A ditadura, em nome  da ordem (da ordem burguesa, obviamente), pôs abaixo a própria ordem burguesa instituída pela Constituição de 1946. Não foi em nome daquela ordem que o golpe foi dado, mas em nome de uma  nova ordem, surgida com a entrada maciça do capital monopolista ao longo da década de 1950. Foi no interesse do grande capital que a própria ordem burguesa, que permitia ainda a eleição de presidentes com projetos centrados na tradição trabalhista e no desenvolvimento nacional com relativa autonomia, foi colocada abaixo para, sobre ela, se erguer uma nova ordem, que permitiria a livre exploração das riquezas e dos trabalhadores brasileiros.

Os militares podem até, em sua maior parte, ainda acreditar que salvaram o Brasil de alguma coisa ruim, que eles mesmos até hoje não entendem bem. É próprio dos que se disciplinam a receber ordens sem pensá-las. O que importa, porém,  não é no que acreditam os que se movimentam, mas efetivamente pelo que lutam. Lutaram, de forma covarde, pelos interesses do grande capital. Torturaram, assassinaram, ocultaram cadáveres, produziram histórias para justificar suas atrocidades. Tudo isso para que a exploração se acentuasse sem questionamento.

Os que executaram podem até, em parte, pensar que estavam cumprindo um grande trabalho em defesa da pátria. Os piores papéis sempre necessitam dos tolos. Mas, para além dos testas-de-ferro, sabemos que não apenas os altos oficiais, mas também muita gente de fora dos quartéis sabia muito bem o que ocorria ali e exatamente pelo que lutavam. Lembrem dos assíduos contribuintes do IPES e do IBAD; lembrem de Boilesen, o grande empresário que não se contentava apenas em patrocinar o aparelho repressivo, mas também de assistir às torturas. Os amigos de Boilesen não são poucos. Eles devem temer muito o resultado de uma comissão que apure e dê ao povo brasileiro uma versão real dessa história.

Li recentemente uma entrevista de um desses carniceiros ainda vivos. Um delegado da Polícia Civil, chamado José Paulo Bonchristiano, também conhecido com a singela alcunha (que demonstra bem sua tarefa e seu estilo) de “Paulão Cacete e Bala”. Assim era carinhosamente chamado pelos próprios companheiros de ofício. (a entrevista está disponível em: http://br.noticias.yahoo.com/especial-conversas-com-mr-dops.html?page=all ).

Ali temos relatos interessantes de um delegado do Dops, que trabalhava com Fleury (outro carniceiro, “que deveria ter um busto em praça pública”, como diz nosso “Paulão”).

Sobre a ligação com grandes empresários brasileiros, totalmente vendidos e atrelados ao grande capital internacional, temos o seguinte:

Bonchristiano é um dos poucos delegados ainda vivos que participaram desse período, mas ele evita falar sobre os crimes. Prefere soltar o vozeirão para contar casos do tempo em que os generais e empresários o tratavam pelo nome. Roberto Marinho, da Globo, diz, “passava no DOPS para conversar com a gente quando estava em São Paulo”, e ele podia telefonar a Octávio Frias, da Folha de S. Paulo “para pedir o que o DOPS precisasse”. Quando participou da montagem da Polícia Federal em São Paulo, conta, o fundador do Bradesco mobiliou a sede, em Higienópolis: “Nós do DOPS falamos com o Amador Aguiar ele mandou por tudo dentro da rua Piauí, até máquina de escrever”.

Os generais, a Globo, a Folha e o Bradesco, num único parágrafo, numa única lembrança!

Sobre o treinamento recebido da CIA: “Gaba-se de ter sido enviado para “cursos de treinamento em Langley” nos Estados Unidos, pelo cônsul geral em São Paulo, Niles Bond, que admirava a “eficiência” da polícia política paulista. E o chamava de “Mr. Dops””.

Além de treinar 100 mil policiais no Brasil, a OPS-CIA selecionava policiais e oficiais militares para estudar em suas escolas no Panamá (1962-1964); e nos Estados Unidos, depois que a Academia Internacional de Polícia (IPA) foi inaugurada em 1963 em Washington, funcionando até 1975. No Brasil, o OPS ficou até 1972, quando o Congresso americano começou a investigar as denúncias de que o programa patrocinava aulas de tortura.

A IPA foi um das “escolas” nos Estados Unidos que recebeu Bonchristiano antes mesmo do golpe militar. Dois anos antes – logo depois de ser aprovado no concurso para delegado de 5ª classe, o início da carreira, ele já frequentava a casa do diretor DOPS Ribeiro de Andrade, no Jardim Lusitânia, em São Paulo. “Ele estava sempre de portas abertas para nós, ficávamos lá conspirando”, ironiza.

A eficiência a que se refere o texto todos sabem bem qual era…

E dentre seus incríveis trabalhos à mãe pátria está o que segue:

“Bonchristiano tornou-se delegado de 2ª classe em 1969 e foi promovido “por merecimento” a delegado de 1ª classe em 1971. Naquele mesmo dia, admitiu que frequentava os outros centros de tortura montados em São Paulo a partir de 1969, como a OBAN (Operação Bandeirante)  e o DOI-CODI, comandados pelo Exército e compostos de policiais civis e militares instruídos a torturar. Só no período de 1970 a 1974, a Arquidiocese de São Paulo reuniu 502 denúncias de tortura no DOI-CODI paulista, apelidado jocosamente pelos policiais de “Casa da Vovó”.

Bonchristiano disse então que “alguns da diretoria do DOPS” participaram da montagem da OBAN – “os militares não entendiam nada de polícia, depois aprenderam” – e que cederam três delegados no início das operações, todos incluídos entre os torturadores na Lista de Prestes: Otávio Medeiros, ligado ao CCC (Comando de Caça aos Comunistas) e à TFP (Tradição, Família e Propriedade), assassinado em 1973 por militantes da resistência armada; Renato d’Andrea, colega de Bonchristiano na Faculdade de Direito da PUC; e Raul Nogueira de Lima, o Raul Careca, ex-investigador subordinado a Bonchristiano e ligado ao CCC, que se tornaria delegado depois.

Levaram também os métodos da polícia, incluindo o pau-de-arara – na origem um cabo de vassoura apoiado em duas mesas, onde os policiais deixavam o preso pendurado por pulsos e tornozelos até que a dor insuportável os fizesse “confessar””.

Tortura e assassinato, a ligação estreita dos militares com a política civil, mais o CCC, mais os dementes da TFP, grandes empresas nacionais e estrangeiras… Dá pra ver que a coisa era maior que uma pendenga apenas com os militares.

Já chega… Como podem ver não é preciso ir tão longe para saber nomes, responsáveis pelas ações. O que seria preciso, na verdade, e talvez esse seja o medo maior, é apurar quais eram os verdadeiros mandatários, os verdadeiros responsáveis, não apenas os agentes diretos. Neste caso também não é necessário avançar muito e a própria entrevista do orgulhoso Sr. Cacete e Bala já resolveria a questão.

No manifesto publicado e assinado por diversos altos oficiais, intitulado “ELES QUE VENHAM. POR AQUI NÃO PASSARÃO!”, numa atitude típica dos valentões de coturnos, se pode ler: O Clube Militar, sem sombra de dúvida, incorpora nossos valores, nossos ideais, e tem como um de seus objetivos defender, sempre, os interesses maiores da Pátria.”

Pois é… os interesses maiores da Pátria coincidiam (e ainda coincidem) com os interesses da Globo, da Folha, do Bradesco, da Ultragas, enfim, com os interesses do grande capital, jamais com os interesses dos trabalhadores brasileiros!

Assisti um dia desses uma entrevista com Carlos Chagas, jornalista que foi assessor do ditador Costa e Silva, segundo general presidente e responsável pelo AI-5 que, como todos sabem, instituiu de uma vez por todas e de forma brutal, a ditadura no final de 1968.

Chagas disse ter visto o choro do presidente, quando já afastado e sem poder falar por causa da doença que o levou à morte, quando em perguntas seguidas se descobriu que  a maior tristeza daquele que via a morte bem perto era não ter conseguido acabar com o AI-5 e reabrir o Congresso. Disso, tirou a conclusão da bondade do ditador e de que não havia mocinhos e bandidos naquela história.

De fato, somente os imbecis pensam a história como a luta eterna entre mocinhos e bandidos. Não faremos isso aqui. Mas também é preciso ter a mesma qualidade, quando não má intenção, para se chegar à conclusão da bondade ou do arrependimento e, assim, num ato de perdão cristão, depois de estapeados os dois lados do rosto, tratar tal figura central de toda essa tragédia como o pobre homem que era bom, mas as circunstâncias o forçaram fazer algo ruim, mas necessário (para os objetivos postos).

A história não é feita por intenções, nem a bondade, tampouco a maldade, podem nos servir  para compreendê-la, muito menos o arrependimento. Nos serve apenas a análise fria do que foi consumado e como foi consumado, as disposições e desdobramentos, no palco das lutas de classes, da forma como efetivamente ocorreram e seus resultados. O imbecil que individualiza a história está ao lado daquele que constata que o que não ocorreu não poderia ter ocorrido. Dentro da trama e dos encontros, a tarefa principal é compreender porque ocorreu assim e extrair disso boas lições.

Uma das boas lições a extrair disso tudo nos dão alguns países da América Latina: estão punindo vários dos assassinos e torturadores. Outra lição importante é perceber que eles são responsáveis pelo ato da tortura e do assassinato, mas que seus mandantes, os do  grande capital, ainda estão no poder e precisam, uma hora dessas, serem derrubados.

 

Anúncios

4 comentários sobre ““Revanchismo” ou temor de encarar as responsabilidades?

  1. Meu Deus… simplesmente não tenho o que dizer. Estou louco pra ler a entrevista do dr. “Cacete e Bala”, mas antes deixo o meu tributo em relação a esse texto carregado de indignação e desabafo de alguém que foi o professor com a maior base teórica que conheci nos meus três anos de faculdade. Esse texto é incrível. Com muito reconhecimento chego a essa conclusão. Parabéns, de coração!

  2. Excelente texto e só salientando o que foi escrevido por vossa pessoa de fato muitos indivíduos pensam tratar-se de uma luta entre “bandidos e mocinhos” e, que, não buscam apurar os fatos analisando de forma crítica e contextual e sim de uma versão distorcida e midiática. Abs!

  3. Ta aí! Um texto curto, porém, muito reflexivo sobre este processo turbulento vivido em nosso país. O que muito me indigna nos dias de hoje são pessoas que não viveram o período dizer que a “ditadura tem que voltar”.

    Como bem mencionado por Mangolin, imaginem a quantidade de empresários que participaram deste processo! Continuam explorando o povo. Continuam se beneficiando do sistema injusto que nos rege. Muitos devem estar participando hoje da “Marcha pra Jesus” no centro de São Paulo rezando/orando (ou não!) para deus perdoar seus pecados.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s