Tortura durante a ditadura, relato de ELEONORA MENICUCCI DE OLIVEIRA

Caros

colo abaixo o relato sintético das torturas sofridas pela professora Eleonora. Faço isso com a seguinte disposição: há uma série de fascistóides (militares ou não), que têm publicado bastante sobre a sua ação na ditadura, num movimento contrário à Comissão da Verdade. Já tive oportunidade de escrever um texto sobre isso aqui no blog.

Esses sujeitos pretendem confundir a cabeça das pessoas, dizendo que os comunistas teriam também agido de forma similar à deles, mostrando fotos de ações dos grupos armados e de mortes ocorridas nestas ações.

É necessário, no entanto, levar em consideração:

1 – que os mortos nos confrontos com as forças da repressão, ou seja, mortos em combate, não são o centro das ações e nem dos objetivos da Comissão. Nem mesmo os setores da esquerda revolucionária têm denúncias a fazer nesses casos em que a morte se deu em combate aberto, matando combatentes dos dois lados.

2 – o que se configura como crime, mesmo dentro da legislação internacional dentro dos marcos do capitalismo, em tratados assinados pelo Brasil, é a prática da tortura, do assassinato, da ocultação de cadáveres, de pessoas que estavam sob a guarda do Estado, ou seja, aprisionados ou em condições nas ruas em que não havia chance de reação.

3 – a tortura como “método”, como gostam de dizer, é uma abominação, que não foi praticada pelas organizações de esquerda.

4 – Há uma grande número de presos e torturados, também de “desaparecidos”, que não tinham ligação com as ações e organizações armadas, além da prática da tortura em familiares para que “dobrassem” mais rapidamente os que podiam resistir a dar informações, mesmo nesse estado limite da dor e da humilhação.

Vai abaixo então o relato da professora, que se soma a outros milhares de relatos similares, retratando as práticas dos que, em nome da “pátria”, agiam na defesa dos interesses do grande capital, pela pilhagem nacional e pela exploração de nossas riquezas e nossos trabalhadores.

Cesar Mangolin

Um dia, eles me levaram para um lugar que hoje eu localizo como sendo a sede do Exército, no Ibirapuera. Lá estava a minha fi lha de um ano e dez meses, só de fralda, no frio. Eles a colocaram na minha frente, gritando, chorando, e ameaçavam dar choque nela. O torturador era o Mangabeira [codinome do escrivão de polícia de nome Gaeta] e, junto dele, tinha uma criança de três anos que ele dizia ser sua fi lha. Só depois, quando fui levada para o presídio Tiradentes, eu vim a saber que eles entregaram minha fi lha para a minha cunhada, que a levou para a minha mãe, em Belo Horizonte. Até depois de sair da cadeia, quase três anos depois, eu convivi com o medo de que a minha fi lha fosse pega. Até que eu cumprisse a minha pena, eu não tinha segurança de que a Maria estava salva. Hoje, na minha compreensão feminista, eu entendo que eles torturavam as crianças na frente das mulheres achando que nos desmontaríamos por causa da maternidade. Fui presa e levada para a Oban. Sofri torturas no pau de arara, na cadeira do dragão, levei muito soco inglês, fui pisoteada por botas, tive três dentes quebrados. Éramos torturadas completamente nuas. Com o choque, você evacua, urina, menstrua. Todos os seus excrementos saem. A tortura era feita sob xingamentos como ‘vaca’, ‘puta’, ‘galinha’, ‘mãe puta’, ‘você dá para todo mundo’… Algumas mulheres sofreram violência sexual, foram estupradas. Mas apertar o peito, passar a mão também é tortura sexual. E isso eles fizeram comigo. Eles também colocaram na minha vagina um cabo de vassoura com um fio aberto enrolado. E deram choque. O objetivo deles era destruir a sexualidade, o desejo, a autoestima, o corpo.

ELEONORA MENICUCCI DE OLIVEIRA, ex-militante do Partido Operário Comunista (POC), era estudante de Sociologia e professora do ensino fundamental quando foi presa, em 11 de julho de 1971, em São Paulo (SP). Hoje, vive na mesma cidade, onde é pró-reitora de extensão e cultura e professora titular de saúde coletiva da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

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3 comentários sobre “Tortura durante a ditadura, relato de ELEONORA MENICUCCI DE OLIVEIRA

  1. Isso é uma sandice, uma safadagem, não interessa o poder que as comete, seja a ditadura fascista que tivemos nesses anos de chumbo, sejam os stalinistas em Moscou ou maoístas na China ou os talibãs no Oriente Médio. Recentemente assisti uns vídeos de torturas dos talibãs que eram de arrepiar. Não importa se são os porcos americanos nos porões de Guantánamo ou os Getulistas e os seguidores do Médici ou do Costa e Silva. Isso tem de acabar, mas infelizmente, sabemos que não vai acabar facilmente.
    Esses coitados sofreram horrores por pensarem diferente de seu governo fascista aqui no Brasil; queriam um país livre, um país democrático, um país que tivesse menos concentração de capital estrangeiro predatório… Putz, a que ponto chega a sandice humana, fazer pessoas sofrerem de tal forma! Valeu, Mangolin, pelo protesto, sou de acordo!

  2. Quando cliquei em “gostar” não o fiz pelo fato de “apreciar” no sentido de prazer, mas no sentido da matéria ser importante para a compreensão do que significava os horrores da tortura no Brasil durante a Ditadura Militar. Sou defensor da abertura dos arquivos, exames minuciosos nesses documentos e punição aos torturadores e mandantes, também. Pois, desconfio que eles estão por aí, à solta, escondidos por trás do Estado, entre os políticos, recebendo aposentadorias, enquanto famílias inteiras continuam a sofrer. Esquecer, não. Superar, sim,. Mas, não sem punições. A punição será pedagógica para um país acostumado com a violência e a impunidade. Que Deus nos ajude!

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