A “cura gay”, o aborto e a cruzada contra a vida

Cesar Mangolin

Ontem assistia às movimentações no congresso para validar a “cura gay”. É de assustar. Semanas atrás vimos a reação dos cristãos contra a aprovação do aborto de anencéfalos. Outro susto. Um pastor conhecido disse na TV que os evangélicos devem tomar o Congresso Nacional, o poder executivo e fazer com que as leis nesse país estejam de acordo com o requisitos de deus. Isso significaria, segundo as sábias palavras do obtuso líder, retirar das mãos do demônio a nação brasileira. Susto, susto, susto.

Que os meus amigos cristãos me perdoem, e que me perdoem aqueles cristãos que são mais progressistas e também aqueles que sabem colocar no lugar correto a fé, mas alguns dos mais barulhentos seguidores de Jesus estão empenhados, de forma intolerante e preconceituosa,  em construir a Jesulândia! (tomei o termo emprestado de um professor amigo). O que escrevo abaixo não serve, evidentemente, a todos os cristãos.

A Jesulândia seria o mundo perfeito, porque nela ninguém faria aborto, todos sentiriam atração pelo sexo oposto, fariam sexo apenas com fins procriativos e se submeteriam de bom grado às leis de como viver determinadas por algum pastor ou padre em nome de deus, visto que eles são seus porta-vozes, pontas de lança e testas de ferro dos bondosos interesses de quem produziu essa merda toda.

Já perdi a linha… Vou me recompor.

A intolerância dos cristãos me assusta demais. Viver de acordo com preceitos que julgam reais e razoáveis é direito deles. Querer obrigar que todos vivam como vivem, que todos se submetam a regras imbecis que violam a vida, em lugar de defendê-la, já é demais. Dê poder a quem pensa assim e teremos o retorno dos porões da inquisição e da matança dos infiéis.

Fazem um jogo sujo, trabalhando com a desinformação e a ignorância, apelando para sentimentos nobres que são manipulados em nome da salvação. Salvação de quem? Demônio de onde? O diabo, que quer dizer aquele que divide, é produto das igrejas, para fazer temer aqueles ignorantes que julgam ter encontrado o sentido da vida: penar esperando a salvação, encher o saco dos outros para que vivam como eles vivem, carregar o peso do assassinato  de um homem que é apresentado estropiado pregado numa cruz.

Encontrar sentido num mundo sem sentido. Dar sentido ao vivido é uma necessidade antiga. A ideologia dá conta disso em qualquer forma de organização humana. Tem também o mesmo resultado: ao atribuir nossas misérias às situações de pecado, nossos fiéis deixam de fazer a crítica necessária à organização política, à exploração do homem pelo homem. Fazem vista grossa aos que morrem de fome, à juventude que é assassinada nas periferias. Ver muito espírito no feto e nenhum no marginal, como diz a música de Caetano e Gil, é praxe.

Não é raro encontrar os que vivem nessa confusão defendendo pena de morte e coisas assim. Pena de morte aos pobres que partem para a criminalidade, obviamente. Os milionários são como que vacinados contra a sanha assassina dos que defendem a pena capital.

Estamparam nas redes sociais uma foto de uma menina (que não era anencéfala, pois os anencéfalos não costumam chegar vivos ao parto e, quando chegam, vivem apenas algumas horas) para tratar como assassinos os que defendem o direito a autodeterminação e à saúde das mulheres.  Ao mesmo tempo a grande maioria é contra qualquer método contraceptivo, o que faz com que doenças diversas e nascimentos não desejados ocorram aos milhares.

Qualquer médico de botequim sabe que a gravidez de um anencéfalo coloca em risco grave a vida da mãe.  A má formação gera reações diversas no corpo da mãe, que podem levá-la a hemorragias internas e à morte, fora a pressão psicológica da própria gravidez. Exames da atualidade têm como determinar com 100% de garantia o feto anencéfalo e retirá-lo a tempo de não causar maiores danos à mãe.

Milhares de abortos são feitos todos os anos no Brasil e milhares de mulheres morrem ou têm seqüelas terríveis por se submeterem às condições terríveis de clínicas clandestinas. É uma questão de saúde pública, não uma questão moral.

Mas nossos bem intencionados cristãos não vêm nisso vida. O feto está cheio de vida e, depois de nascido, vira também algo que pode e, parece em alguns casos, merece morrer, dadas as condições de vida precárias às quais estarão submetidos. Mas isso já não é da alçada dos nossos bons discípulos… Os que nascem devem se conformar à vontade de deus e esperar esperar, esperar… Resignação é seu primeiro mandamento.

Não vejo marchas de crentes contra a morte por fome, não vejo a bancada evangélica se movimentar contra o capital, que ceifa vidas aos milhares todos os dias, nunca vi um desses pastores fazendo um discurso na TV contra a exploração do homem pelo homem.

Adaptados à ordem, como sempre o cristianismo esteve desde sua romanização, apenas apontam seus dedos, como guardiães de uma moral escravizante e que avilta a vida, aos que não compreendem de onde vem tamanha crueldade.

Não é a felicidade das pessoas que está em questão. É a necessidade de obedecer fórmulas ultrapassadas que geram resignação e subserviência. A homoafetividade e a homossexualidade devem ser , no mínimo, respeitadas. Pretender achar uma doença onde apenas existe vida humana faz parte de qualquer grupo arbitrário e com fortes tendências totalitárias.

Jesus, que no evangelho diz que veio trazer a vida e a vida em abundância, deveria se espantar com tamanha estreiteza. Talvez repita por esses dois mil anos a frase que dizem ter soltado na cruz: perdoe a todos, eles não sabem o que fazem. Afinal, e é bom lembrar, ele mesmo morreu por não se enquadrar nas determinações insanas e formais da sociedade de sua época.

Aprendi nos meus tempos de convento e de teologia da libertação a ver o cristo crucificado nos oprimidos, nos explorados, nos que têm a vida negada em nome da reprodução e acumulação do capital. Aprendi lá que sua luta era a da libertação para a vida, para a vida plena, cheia de sentido, e para a construção, ainda que deficiente, de uma sociedade que se assemelhasse ao proposto pelo reino dos céus. Uma sociedade justa, que defende a vida e é contrária a toda e qualquer forma de preconceito, de discriminação, de exploração.

A própria igreja pôs fim à teologia da libertação para retomar, de forma mais sombria e conservadora, a moral que castra, que é do mundo das aparências, permitindo que horrores diversos ocorressem às escondidas. Como os fariseus da época de Jesus, os cristãos apontam seus dedos contra os que não vivem de acordo com seus ditames preconceituosos. Apontam seus dedos contra a vida.

Deveriam fazer como seu mestre fez: estar ao lado dos que são marginalizados e sofrem com os preconceitos. Jesus foi muito mais tolerante e nisso residia o melhor de sua mensagem em defesa da vida. Lembrem que ele não engrossou o coro dos que pretendiam apedrejar a prostituta, mas a defendeu e a acolheu.

Os cristãos são co-responsáveis pelas milhares de crucificações diárias dos nossos dias.

Caso Jesus voltasse hoje, os cristãos mesmos o pregariam novamente na cruz.

 

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11 comentários sobre “A “cura gay”, o aborto e a cruzada contra a vida

  1. Perfeito professor, os cristãos de hoje estão mais para ser discipulo dos Fariseus do que do Cristo. Eles só lutam para sua práticas morais e não para uma vida justa e igualitária da sociedade.

  2. disto eu não tenho duvida:
    Caso Jesus voltasse hoje, os cristãos mesmos o pregariam novamente na cruz.

  3. Parabens mesmo, por este texto maravilhoso e lucido. Sinto-me mais aliviado com suas palavras, destas mer..recas todas produzidas por estes pastores e padres tam de mer….reca que vivem de sacolinha na mão, mostrando cada vez mais a sua intolerância ignóbil , etc…..
    Abraços pela lucida colocação, seu ex aluno, Mauro Cipro

  4. Cézão,
    Palavras de extrema lucidez! Foi o que você disse no início do texto, são sustos e mais sustos. Grande parte da humanidade perdeu o sentido e se apóia numa falsa bengala legitimando o “mal” que eles tanto “combatem”!
    Meu querido, abraço fraterno e saudades!!

  5. Quanto às suas referências no evangelho, só não se esqueça, que Jesus, o Cristo, não compactuava com o pecado, aceitava o pecador desde que ele não pecasse mais…como vc mesmo se refiriu sobre a mulher a ser apedrejada, as palavras dele para ela foram – Vá, e não peques mais. De certo que o movimento cristão tomou a face de políticos que entram em bancadas e pouco entendem do tamanho da responsabilidade de representá-la de forma adequada, e também de grandes corporações que se intitulam porta vozes de um grupo e por sempre estarem na mídia dão a entender para mundo que todos os evangélhicos são iguais. isso é lamentável. Muitas das coisas que vc falou tem base concreta, mas, entre outras coisas, a crítica quanto à preocupação dos cristão sobre fetos e marginais é ridícula, os cristãos são os mais engajados em tratar e recuperar pessoas dependentes químicas e dentro da criminalidade, e todas as consequências louváveis dentro do contexto de sociedade e família que este recuperação traz. Nisso, e nas notas sobre o evangelho, vc pode se informar melhor. Ademais, a perspectiva é real e a crítica consistente.

  6. CONCORDO PLENAMENTE COM COM TEU TEXTO.
    SIMPLES DE UMA MANEIRA QUE TODOS QUE O LEAM
    O COMPREENDA
    VOCE FOI MUITO FELIZ NA SUA COLOCAÇÃO

  7. Nossa sociedade há muito adoeceu e o capitalismo só contribui de maneira ardilosa para que continuemos pensando que tudo isso ‘é normal” e, se visto por um prisma religioso, dentro do contexto de um suposto plano divino.
    Semana passada assisti uma discussão entre seguidores de diferentes grupos religiosos e foi realmente assustador.

  8. Concordo plenamente, sou cristã, me envergonho dos religiosos e infelizmente é muito fácil e “proveitoso” se tornar um em nome de Deus. “Como os fariseus da época de Jesus, os cristãos apontam seus dedos contra os que não vivem de acordo com seus ditames preconceituosos”…Parabéns professor sábias palavras e lúcido pensamento.

  9. Professor, na minha opinião o texto refere-se mais aos evangélicos pois sou cristão católico e Jesus veio ao mundo para anunciar a vida em abundância, ou seja: pão, justiça e trabalho para todos. Infelizmente alguns usam seu santo nome em vão para benefícios políticos e pessoais. Abs.

  10. Reflexão bem embasada e comprometida com o contexto histórico atual. Curiosamente, no exato momento que escrevo este comentário, está acontecendo a chamada Marcha para Jesus (evento que, segundo organizadores, recebeu em suas últimas edições uma média de 2 milhões de participantes – só na cidade de São Paulo).

    Em determinados eventos o país pára! São eles: eventos futebolísticos, religiosos, parada gay. Agora, quando se trata de lutar contra a corrupção, contra miséria, contra o analfabetismo, contra a exploração, a população baixa a guarda.

    É isso que a classe política e as grandes corporações querem: uma sociedade com cabresto, que não tenha capacidade de enxergar aquilo que é visceral.

    Saudades de suas aulas caro Mangolin.

    Forte abraço

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