“A função faz o órgão”

Cesar Mangolin

Reproduzo abaixo pequena reflexão desenvolvida por exigência de uma disciplina que estou cursando no  doutorado, que envolve estudos das teorias da evolução,  filosofia da ciência e coisas assim. Pareceu valer a pena socializar. Abraço.

 

A formulação “a função faz o órgão” pode levar à compreensão de que a necessidade de cumprimento de uma atividade específica pode dar origem a um órgão específico, ou transformar algum outro órgão no sentido dessa finalidade.

O fundo teleológico aparece, assim, casado com o pressuposto de uma finalidade pré-inscrita no processo evolutivo, o que deve ocorrer necessariamente com vistas a um fim a ser atingido, como a afirmação de Aristóteles sobre os dentes. Essa teleologia difere daquela que se pode verificar na finalidade funcional de órgãos já constituídos, uma “naturalização da teleologia” que teria sido operada por Darwin.

O problema aqui está dividido em dois: primeiro, é necessário explicitar essa questão da finalidade do órgão de acordo com uma função; depois, pensar se o órgão é constituído para esta finalidade ou não.

Claro que, não sendo estudioso do tema, as linhas que seguem são apenas resultado de reflexão recente.

A razão de ser de um órgão é diferente de sua função. Portanto, se E é a função biológica de X num processo Z, significa que X está apto (assim como poderia ser o seu contrário) relativamente a Z, que aparece como agente seletivo, seja ele a própria constituição do organismo como um todo, o ambiente externo, o clima , a vegetação, o tipo de alimentação disponível, a presença de determinados tipos de predadores etc. A razão de ser do órgão é diferente de sua função, ou seja, não há relação direta entre sua constituição e sua necessidade funcional. Isso explica que o órgão é relativo ao meio, mas ainda não explica o seu surgimento.

Poderia decorrer disso a dedução de que o órgão é desenvolvido por ser necessário ao cumprimento de uma função qualquer, como  dito no início.

Havendo, como disse Darwin, mutações favoráveis, desfavoráveis e outras que não são nem uma nem outra, podemos considerar que a função não faz o órgão, visto que para tanto o órgão deveria ser sempre “feito” de acordo com o agente seletivo, que é quem determina se a mutação é favorável ou desfavorável. Se há mutações que não interferem nesse resultado, isso significa que as mutações não ocorrem por necessidade funcional, mas ao acaso.

A pesquisa genética avançou no sentido de constatar que as mutações ocorrem independentemente do meio, conforme a afirmação abaixo:

 

“As mutações aparecem espontaneamente e sem qualquer relação com as necessidades adaptativas do organismo, como, aliás, era de se esperar, por não serem induzidas pelo ambiente. É por esse motivo que se diz freqüentemente que as mutações aparecem por acaso”[1].

 

O grande nó a ser desvendado, que é anterior, continua a ser o do surgimento da vida, ou seja, o momento e o meio da passagem da matéria inorgânica à vida. Do surgimento da vida unicelular ao desenvolvimento de órgãos capazes de metabolizar alimentos retirados do meio e a variação desses órgãos temos um longo processo condicionado por mutações bem ou mal sucedidas com relação ao agente seletivo.

A persistência de uns e o aparecimento de outros tem relação com a capacidade reprodutiva e de transmissão de carga genética para a prevalência de populações melhor adaptadas às condições de vida, o que não significa que estas sejam as melhores, mas apenas aquelas que se adaptam. Exemplo: para combater uma superpopulação de coelhos que destruíam as plantações, os australianos lançaram um vírus mortal para a espécie. Depois de um breve período de alta mortandade, percebeu-se um equilíbrio e uma drástica redução na mortalidade dos coelhos, ainda que contaminados pelo vírus. A primeira explicação seria a de que os coelhos desenvolveram anticorpos ao vírus, resistindo, portanto, à sua capacidade destrutiva. O fato é que a seleção natural atuou nas duas espécies: do lado dos coelhos, uma dada população mais forte ao ataque viral transmitiu sua carga genética a um número maior de indivíduos, prevalecendo sobre outro grupo mais fraco que, por ter maior mortandade registrada, se reproduziu menos e, portanto, transferiu menos sua carga genética a seus descendentes. Do lado dos vírus ocorreu algo semelhante, mas inverso: uma população do vírus com menor capacidade letal prevaleceu sobre uma outra parcela com maior capacidade. Isso ocorreu porque os de maior capacidade letal, por matarem mais rápido os coelhos, ficavam menos tempo incubados nos corpos de coelhos vivos, diminuindo seu tempo de reprodução e infestação. Nesse caso, os que poderiam ser considerados mais fracos nesta tarefa de matar os coelhos foram os que se adaptaram melhor às condições dadas e persistiram. Não houve mutações em período tão curto de tempo: apenas as condições já existentes nos organismos das populações em questão atuaram de forma favorável para uns, desfavorável para outros, de acordo com o agente seletivo.

O acaso e a contingência parecem agir como elementos fundamentais do processo.

Uma vez constituído, e somente a partir daí, o novo órgão obedece a leis próprias de funcionamento, que podem auxiliar o organismo como um todo. O órgão, portanto, vem antes da função, ou melhor, seguindo por aí, parece que podemos afirmar que os órgãos possuem finalidades específicas, mas esta finalidade apenas surge após a constituição do órgão.

Não é a necessidade do cumprimento de uma função que faz o órgão: o órgão constituído, produto aleatório da mutação genética, pode cumprir uma função que torna o organismo melhor ou pior adaptado ao ambiente. Inclusive há casos de órgãos que não são mais funcionais e atrofiam ou mesmo desaparecem. Encontrei o argumento de que, já que o meio faz com que sua função não seja mais útil, isso provaria que é a função que constitui o órgão, visto que é sua dispensa que faz com que ele atrofie e desapareça. Parece, no entanto, que tratamos de dois momentos bem distintos aqui: uma vez constituído, como dito, o novo órgão pode ou não cumprir uma função que torne a adaptação bem sucedida para uma dada população e signifique a extinção de uma outra. Depois de sua constituição, caso não haja em dado tempo e por mudanças do meio mais a necessidade da função que cumpre, ele atrofia. No entanto, esse momento final não explica o surgimento do órgão, mas apenas a sua desaparição como elemento essencial à adaptação.


[1] CUNHA, A. Brito da. As bases genéticas da evolução. In: CUNHA, A. Brito da; PAVAN, Crodowaldo (org). Elementos de genética. 2ed. São Paulo: Companhia Editora Nacional/ EDUSP, 1966. p. 346

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Um comentário sobre ““A função faz o órgão”

  1. sobre atrofia, temos a boa e velha massa cinzenta, que realmente prova esta tese…pior é que as mutações e ou adaptações não aparecem no castigado fígado…

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