A intolerânca a serviço dos intolerantes

Cesar Mangolin

Dia desses fui acusado de propagar a “cristofobia”… Achei curiosa a acusação e também a nova doença inventada por gente bastante intolerante. Por vezes as pessoas agem segundo o critério da mais pura conveniência: o que me interessa é bom, portanto, qualquer palavra contrária é assédio moral,  dano moral, alguma coisa fobia e um termo rastejante, bem à moda da “cultura” brasileira:  o tal  do bullyng.

Hobbes, lá no final  do século XVII, já dizia que a diferença entre uma tirania e uma monarquia justa era um juízo que dependia da posição de quem julgava: se amigo ou beneficiado pelo rei ou se contrariado e perseguido.

Não defendo o  linchamento moral de quem quer que seja, nem nas questões mais amplas, muito menos nas relações pessoais.  O que tem chamado a atenção é que certos grupos e pessoas têm usado  de mecanismos de defesa contra a intolerância para cercear o direito da crítica, que nunca é construtiva ou destrutiva, mas apenas a análise radical (que vai à raiz) de uma determinada questão.

Talvez o problema seja em dar ao campo da moral a primazia no processo. Ora, num certo sentido (visto que há grande produção e muita polêmica em torno do tema), precisamos antes perguntar a partir de quais valores são construídos esses “regulamentos” do comportamento humano que chamamos moral. Alguém pode dizer que deveríamos partir da ética, que, no  final das contas e nesse  mesmo sentido, é quem estabelece os parâmetros para o que chamamos de moral. Enfim, o que podemos dizer é que temos éticas diversas e, consequentemente, morais diversas.

Isso não é cair no relativismo que tem embriagado  os cérebros dos intelectuais pequeno-burgueses que conseguem  (ou pensam que podem) misturar filosofia idealista e materialista num único balaio. Muito menos é admitir a existência pura e simples de múltiplas “visões de mundo”, todas corretas pela simples razão de serem assumidas por alguns. Ora, misturar Heidegger, com Marx, com Hegel, com Nietzsche,  com  Kant, com Lênin e andar com a camisa do Che Guevara é algo que qualquer embriagado pode fazer no plano teórico, assim  como misturar arroz doce com quiabo foi razoável para o bêbado de um samba popular.

Parece que o  centro do debate é na verdade desvelar o que anda escondido no envoltório místico da pós-modernidade. Desfeito o mito,  passada a ressaca dessa suruba metafísica, temos um dia claro, os gatos deixam de ser pardos e mostram a verdadeira face e silhueta.

As várias “visões de mundo” acabam se mostrando, enfim, como poucas posições de classe assumidas por vezes de forma inconsciente, o que traz à tona o tema da ideologia. Uma “ideologia dominante”, se me permitem ainda utilizar termos genéricos, que tem uma raiz e que se traveste de discurso científico, filosófico, ético, moral, religioso etc. Disseminada e traduzida para todas as formas do viver e do pensar (afinal, pensamos como  vivemos  – o  primado  do ser sobre o pensamento), essa maneira específica de viver alcança a finalidade de toda ideologia: dar sentido ao vivido.

Nas formações sociais capitalistas,  o  traço mais marcante é a construção, ao lado do humanismo teórico, da figura do indivíduo e seu efeito prático mais imediato, o individualismo. Ao medir as coisas pelo que “acho” delas, como indivíduo egocêntrico, me obrigo a aceitar que todas as coisas que os demais “achem” sejam também razoáveis, ou respeitáveis, visto que temos o sagrado direito de, como indivíduos, “acharmos” o que bem quisermos, sem discussão. O debate é uma afronta ao direito de “achar”, a crítica foi enterrada com  o entulho da modernidade! É uma inversão, triste inversão: pensam que vivem como pensam, ou  como  acham.

É a posição, ideológica, de consumidores individuais que está na raiz desse fenômeno. Inseridos em reações mercantis,  em relações onde tudo se troca, como proprietários privados de algo que é apresentado no  mercado da vida, os indivíduos expandem para todos os campos a ideia de que a compra e a venda, mas acima de tudo, o consumo, é algo, por direito, de uso e abuso de quem tornou-se proprietário, seja de uma laranja, seja de uma ideia, seja de um conjunto de valores, seja de um determinado código de moral

Quem compra uma laranja pode, de fato, comê-la, fazer dela um  suco, uma bola de futebol, ou enfiá-la na orelha. A propriedade privada, direito sagrado no capitalismo, garante isso, desde que não atinja a privacidade de outro.

É essa mesma lógica que acaba por facilitar a reprodução  dessa ordem: vendo-se como indivíduo, proprietário de algo que pode ser trocado em qualquer mercado, como a troca de si mesmo por salário no  famigerado “mercado de trabalho”, vive-se a vida sem a compreensão das verdadeiras relações sociais (não individuais) nas quais cada qual está inserido. Os chamados “Indivíduos” são, antes de tudo, sujeitos, porque foram sujeitados a essas relações, distribuídos nas classes sociais, que não reconhecem, relações que, deturpadas pela aparência mercantil, dão  sentido à vida. O que chamam “realidade”, e os direitos que advogam, são, na verdade, reflexo de um mundo fantasiado, fetichizado.

Por isso que a moral tem ficado  no centro, mas uma moral determinada antes de tudo pela necessidade de reconhecimento dessa realidade fantasiada e, em última instância, pela necessidade de reprodução da ordem.

Entendendo as coisas assim, parece até razoável ver como o que há de revolucionário no mundo, pois procura tratá-lo como é essencialmente, aparece como entulho da modernidade, algo ultrapassado  pela era das individualidades metidas em bolhas de isolamento. O marxismo tem passado por isso, seja na sua negação (como o entulho da modernidade), seja na mistura com correntes antagônicas por nossos mentores e revolucionários de gabinete.

Devemos estar ao lado da defesa de grupos que sofrem discriminação racial, sexual, de gênero etc. Mas devemos, acima de tudo, lembrar que não existe a possibilidade de um mundo harmonioso dividido em classes, que a tal liberdade individual não existe em desigualdade, que o  contrário de igual é desigual, não diferente, ou seja, somente na igualdade sócio-econômica e compreendendo-se como coletividade se pode viver as diferenças. Acima de tudo: é preciso lembrar que em todos os aspectos da vida se reflete a luta de classes,  que é uma luta por interesses antagônicos. Insisto: não individuais, mas de classes.

A filosofia, como dizia Althusser, é a luta de classes na teoria. Nesse campo e no campo das chamadas liberdades e, principalmente, no da intolerância, a burguesia tem levado a melhor, afinal, os que deveriam ser seus inimigos lutam sem tréguas ao  seu lado,  criando essas pseudo-liberdades que  mantêm tudo exatamente como está.

A alegada “cristofobia”, e as demais bobagens liberteiras, são, na verdade, algumas de nossas amarras e dos véus que cobrem a realidade aos olhos de gente, por vezes, bem intencionada. Mas, sabemos que a história não se constrói com boa intenção.

Sou pela crítica sem tréguas à ordem burguesa e todo seu aparato ideológico. Que os intolerantes (à crítica) chamem isso de intolerância, é  algo esperado.

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2 comentários sobre “A intolerânca a serviço dos intolerantes

  1. Oi Professor Cesar,

    Eu sou cristã, foi condicionada assim, a minha família inteira é católica, mas, hoje eu tenho um pouco mais de discernimento e mesmo assim continuo acreditando em Cristo.
    Jesus Cristo foi um avatara muito sábio e as pessoas podem ler 1000 vezes a bíblia e não conseguem compreender, Jesus já dizia que “o homem perece por falta de conhecimento”. Zaratustra disse que “o homem é o animal mais bem domesticável da natureza, porque você pode caça-lo, dominá-lo, e transformá-lo em um camelo que só sabe se ajoelhar no chão para os outros colocarem carga nele”, e é isso que a igreja católica e demais igrejas fazem, colocam a carga do medo, da culpa e do consenso, do discurso único. As igrejas só pregam desgraças e sofrimentos para que passarmos a vida perecendo, escravizados no aguardo de um futuro melhor. Na bíblia diz também “que Pai é este que quando você pede pão ele te dá uma pedra?”. As pessoas estão cegadas, como uma igreja que prega desgraças dia e noite é rica? Mas, no apocalipse 17 diz que “a mulher estava vestida de purpura e escarlate, adornada de ouro, pedras preciosas e perolas. Tinha na mão uma taça de ouro, cheia de abominação e de imundície de sua prostituição. Na sua fronte estava escrito um nome simbólico: “Babilônia, a grande, a mãe da prostituição e das abominações da terra”, a prostituta está ficando nua, mas vai contar para as pessoas que a grande prostituta é a igreja católica, a minha própria família já me condenaria…

    Abs

    Aline

  2. A modernidade sempre se gabou de respeitar os diferentes, Voltaire, arauto do lluminismo, dizia “Devemos tolerar-nos mutuamente porque somos todos fracos, inconseqüentes, sujeitos à mutabilidade ao erro. Um caniço vergado pelo vento sobre a lama porventura diria ao caniço vizinho vergado em sentido contrário ‘Rasteja a meu modo miserável ou farei um requerimento para que te arranquem e te queimem?’” Por que mesmo anunciando o respeito à opinião do outro, a Modernidade patrocinou as guilhotinas da Revolução Francesa? Por que o estado marxista promoveu o expurgo de Stalin? Por que na Alemanha, berço dos grandes filósofos e teólogos aconteceu o Holocausto? Se a modernidade é tão tolerante com o diferente, por que tanta intolerância?
    Entendamos um pouco da Modernidade. Primeiro, ela valoriza o método. A tolerância para com a razão, para a prova “irrefutável”, tornou-se desnecessária. André Comte-Sponville afirma “Quando a verdade é conhecida com certeza, a tolerância não tem objeto”. Ele e todos os filósofos da modernidade crêem que os cientistas necessitam não de tolerância, mas de liberdade. Os fatos, provenientes da observação empírica impõem-se. Refutá-los é negar a razão. Como a ciência não depende de opiniões, ela não necessita de tolerância mas de espaço. Depois, a Modernidade também é naturalista. Só trabalha com um sistema fechado. Matéria, energia, tempo e chance são as únicas variáveis consideradas. Portanto, a verdade está contida somente a esses elementos. Como filosofar é pensar sem provas, e provar faz parte do paradigma da Modernidade a filosofia (também a teologia) é tolerada, desde que obedeça as regras da abordagem científica e naturalista. Nesse sistema, somente os céticos ao transcendente como Hume e Bultmann recebem qualquer reconhecimento. O resto é descartado como irrelevante. Por último a Modernidade é universalista. Aceita que seus achados transcendem ao tempo e ao espaço. Devido a essa visão é que a Modernidade, de acordo com D. A, Carson adotou a dialética marxista da história, a teoria Helegiana do espírito universal, a visão pós-iluminista do progresso e a teologia liberal que aceita como factível apenas o que é julgado racional e “científico”. Aqueles que se recusam à ditadura da Modernidade, são imediatamente rotulados: medievais, supersticiosos, reacionários. A tolerância da Modernidade se restringe aos limites impostos por ela; Ricardo Gondim

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