O infeliz Feliciano não fala ao vento!

Cesar Mangolin

A reação às estúpidas declarações do tal pastor Feliciano é positiva. Sinal de que há muita gente parcial ou totalmente livre dos preconceitos moralistas expressos pelo infeliz.

Não é cerceamento de expressão repreender publicamente quem diz qualquer besteira, principalmente quando a bobagem afeta diretamente a dignidade de milhões de pessoas.

No caso dos negros, população que sofre secularmente nessas terras, as ofensas colocam em questão a própria fé cristã, visto que é em nome de uma versão dela que fala o ignóbil pastor. Como seguir tal religião se ele trata os negros e seus descendentes como amaldiçoados por um deus que se tornou pretensamente universal, depois de ser de apenas um povo e fazer  as misérias  relatadas no antigo testamento? Ao se tornar de todos, o suposto deus também se tornou sinônimo de amor, como diz o apóstolo João. Sem levantar as referidas atividades nem um pouco amorosas relatadas no período anterior, fica estranha a ideia do deus-amor que amaldiçoa e discrimina não somente os negros, mas também os homossexuais, nas palavras do ilustre imbecil da vez.

O que chama mais a atenção é que o tal pastor não fala ao vento: fala para um rebanho que parece ser tristemente grande.

Ele foi feito deputado com alguns milhares de votos; tem seus fiéis; representa não apenas a si próprio ou a uma pequena comunidade, mas faz coro com milhões de vozes, de outros tantos pastores e seguidores cegos de uma fé estúpida, porque preconceituosa, excludente e baseada em preceitos questionáveis.

O pastor não fala ao vento porque é expressão de uma parcela considerável de brasileiros, cristãos ou não, que vêm os negros e homossexuais como excrescências,  assim como vêm os mais pobres como “gente diferenciada”.

Ouso dizer que até muita gente que reage ao pastor deputado vai apenas na onda: no fundo, a compreensão que têm é de que se trata mesmo de gente inferior, portanto, apenas a forma, agressiva na fala do deputado, seria reprovável.

Nosso país ainda é um país de miseráveis e pobres. Tanto no escravismo, quanto com o advento das incríveis oportunidades de diversificação da miséria trazidas pelo desenvolvimento capitalista, tratou-se de justificá-la atribuindo aos que padecem dela a responsabilidade.

Os mesmos que recriminam o pastor fazem o discurso liberal de que o acesso à educação resolveria esses problemas. Ora, isso nada mais é que atribuir a miséria à ignorância, portanto, a uma responsabilidade dos próprios miseráveis que poderiam ser salvos pelas palavras de um bom e bem intencionado professor que, no geral, pensa como um pequeno-burguês e está carcomido até às entranhas desses preconceitos todos.

A classe média, no seu combate intensivo aos programas sociais de distribuição de renda, costuma utilizar a frase do “Não dar o peixe, mas ensinar a pescar”. Novamente, por detrás da frase, temos a atribuição da responsabilidade da miséria à ignorância. Uma inversão comum, portanto, visto que a ignorância decorre da miséria, e não o contrário.

Mas a ignorância não é propriedade privada apenas dos miseráveis: a maior parte do povo brasileiro padece dela, mesmo em círculos intelectualizados, em todas as classes sociais.

Isso não se resolve com educação formal. O que está enraizado secularmente no viver e no pensar não se resolve mudando apenas o pensar em um de seus níveis: aquele mais claro e consciente. Isso significa que a ligação que julgamos automática entre pensar e viver não ocorre assim, tratando o pensar como o acúmulo das informações recebidas por vias formais. Há um nível mais profundo do pensar, aquele que é determinado pela vida, que justifica o princípio da filosofia materialista que afirma que pensamos como vivemos, ou seja, o primado do ser sobre  pensamento. Sair da ignorância significa, portanto, mudar o viver, que muda o pensar.

Parece que a maioria das pessoas, embora tenham as informações necessárias que rompem com os preconceitos como os expressos pelo pastorzinho da vez, não é capaz de sintonizar a vida e o pensamento.

Lá no fundo, determinados pela vida prática, balançam a cabeça como jumentos concordando com o pastor.   Seu público é, infelizmente, muito maior do que se pensa.

Mas… há um bom sinal nisso tudo: a radicalização do discurso desses líderes religiosos, escancarando seus preconceitos, leva a uma parcela considerável dos que ainda acreditam nessas bobagens os elementos primeiros do rompimento, ainda confuso, com a moral de rebanho. O ápice do que foi construído sobre a mentira é também sinal do começo da queda.

E a essa quero assistir de um local privilegiado.

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9 comentários sobre “O infeliz Feliciano não fala ao vento!

  1. Parabéns pela postagem professor César, é sempre inspirador e revigorante observar os acontecimentos com certa relevância midiática a partir da sua vasta capacidade de síntese e profundidade de análise. Espero sentar-me ao seu lado para assistir a queda desse império da ignorância.

  2. Excelente, análise, Cesar. Poderíamos, usando uma terminologia do Althusser, refletir sobre essas igrejas como um novo tipo de Aparelho Ideológico de Estado? É algo sobre o qual cogitei sozinho nesses dias. Existe bibliografia especializada nesse sentido?

    Abração.

    VINÍCIUS PINHEIRO

    Revista Crítica do Direito

    1. Existe,a história da humanidade mostra as religiões usadas como armas para a dominação e manter a classe dominante no poder,uma destas armas, inclusive remotamente, e de inicio por Maquiavel.

  3. Olá!

    Não entendo muito de filosofia e pouco menos de política, mas concordo com muitos pontos aí. No caso do pastor, acho ele apenas um imitador barato e descarado do sr. Bolsonaro que se vale da mesma estratégia para conseguir votos. Quase digo que admiro o sr. Bolsonaro pois, de qualquer forma, é preciso ter muita coragem para proferir tais babaquices em um país de dimensão continental como o Brasil é. Mas acho que não viverem em um país de “condições igualitárias e democráticas” se todo e qualquer político defender uma posição pejorativa a respeito de outro grupo para conseguir chegar ao poder.
    Achei muito interessante o ponto ressaltado sobre a relação entre miséria e pobreza. Eu nunca tinha pensado dessa maneira! Admito que imaginava a questão da ignorância da mesma maneira como é descrita aqui como comumente divulgado na sociedade, talvez porque esse conceito já esteja arraigado culturalmente.
    Gostaria de agradecer pelo texto que é bom de verdade é muito bem construído. Continue sempre escrevendo professor, eu lerei sempre que puder!

    Abraços!

  4. Excelente o texto. Também quero assistir a queda de um lugar privilegiado, no entanto a quantidade do “rebanho” me assusta, politicamente falando. Gostaria que você lesse três textos meus que se encontram nos links abaixo:

    OS PEIXINHOS DO AQUÁRIO

    http://edvaldodosreis.blogspot.com.br/2013/02/os-peixinhos-do-aquario.html

    O FILHO DE MARIA

    http://edvaldodosreis.blogspot.com.br/2013/02/o-filho-de-maria.html

    A VOZ DA ANTA MARXISTA

    http://edvaldodosreis.blogspot.com.br/2013/01/a-voz-da-anta-marxista.html

    Desde já, Grato.
    Edvaldo dos Reis

  5. Professor Cesar como existe neste pais , filhos da “outra” que promovem estes atos! Se pregam seu abominável censo e encontram éco, ressoa no seu texto a imbecibilidade dos aconchegados ao tal “senhor” realmente , este pais jamais será conduzido ou se conduzirá,a bom termo , é feito na sua maioria por um povo mesquinho,oprtunista e carneiro, mesmo pobres são safados oportunistas alienados a Lei do Gerson . Passaram-se décadas e o povo continua o mesmo boi e carneiro de sempre perdi a esperança,povo brasileiro, “desculpe-me professor” ( foda-se) cansei de lutar por ignóbeis. Mauro Cipro

  6. Professor Cesar, você falou do Pr. Marcos Feliciano chamando-o de preconceituoso, porém ao analisar seu discurso, está cometendo o mesmo “crime”, são falácias recheadas de preconceitos contra diversas classes de pessoas que aos seus olhos são menos do que isso, quanta moralidade!

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