O papa, o pop e o bope

Cesar Mangolin

Chegando ao fim os passeios do papa por estas terras vale dizer algo.

Primeiro, e antes que me acusem de ser cristofóbico de novo, não vejo problema nos que professam uma religião qualquer, respeito essa opção. Critico  essas organizações humanas, chamem-se igrejas, congregações ou qualquer coisa do tipo.

O que gostaria de chamar mais a atenção é que o conservadorismo se traveste com as cores do novo e isso ilude muita gente.

Como vivemos na ordem burguesa, obviamente, o conservador é aquele que conserva esta ordem. É contrário até mesmo a determinadas medidas que representam algo progressista, ainda que circunscritas nessa mesma ordem.

O papa Chico, é necessário reconhecer, é muito mais pop que o sisudo alemão anterior, até mesmo mais simpático que o polonês vigarista que está para ser declarado santo. Talvez seu sangue latino o faça mais assim. Desde o primeiro dia, Chico procura uma aproximação com o povo incomum para déspotas de Estados Absolutistas.

As medidas que reduzem a pompa cerimonial têm agradado aos seus seguidores e feito até com que gente que já havia desistido da santa madre voltar aos bancos das igrejas típicos: aqueles que têm o assento e, logo adiante, o local onde se deve ajoelhar para pedir perdão e misericórdia a deus, pois, pecadores que somos, afrontamos a majestade celeste que, curiosamente, nos criou com a capacidade de pecar e exatamente para fazê-lo.

Enfim, o nosso papa pop da vez, como qualquer político de direita em campanha, distribui sorrisos, tem frases de efeito imediato, beija as crianças, visita casa de pobres, quebra os protocolos e formalidades. Isso, sem dúvida, cativa a população, predisposta a ver no papa uma figura “do bem”, ou seja, um homem bondoso, santo, que abençoa o Brasil com sua vinda.

Mas essas coisas têm seu próprio círculo e não podem fugir dele. Peguem as pregações do papa e verão que se circunscrevem a posições moralistas, que velam as causas de nossas misérias. Nossa formação social não padece do pecado e da falta de cristo, nem do reconhecimento das famílias e dos avós como âncoras de uma sólida formação baseada no amor. Os círculos familiares são despedaçados pela necessidade do trabalho extenuante. São separados pela necessidade da migração. Eliminados pela violência urbana, pela pobreza extrema, por uma vida de sofrimento.

Que sofrer pareceu sempre interessante aos católicos não tenho dúvida. As dores desse mundo, sofridas e caladas, aproximam esses infelizes dos caminhos do salvador, ele mesmo grande sofredor de uma violência extrema, a crucificação.

Reconhecer a todos como filhos do mesmo deus e aceitar como projeto desse deus as condições de cada vida individual não são posições estranhas e próprias apenas do discurso religioso. Os humanos todos colocados num mesmo balaio, as condições de vida tratadas como dadas e “naturalizadas”, cada qual correndo atrás do seu lugar ao sol… Se substituirmos deus pelo Estado e suas ponderações moralistas pelo direito, temos o velho e sempre atual discurso liberal.

Mas, dirão alguns, o papa pop Chico reclama ao vento das condições de pobreza do povo. Isso é verdade. Mas, como todo bom liberal conservador, prega ao mesmo tempo a necessidade de que cada qual deve correr honestamente atrás de uma vida melhor e que o conjunto da sociedade pode fazer alguns ajustes a fim de minimizar os sofrimentos dos mais penalizados pela miséria. Caridade, meus amados, caridade.

As relações sociais concretas ficam esquecidas. A moral ocupa o centro. Sempre que isso ocorre, se despolitiza o discurso e as raízes reais das nossas misérias todas ficam escondidas. Resta apenas pedir aos céus uma saída, já que não se pode compreender a causa e lutar por uma saída com as forças terrenas mesmo.

Mas o papa Chico tem seus limites. Nessas horas, deixa de ser pop. Não se deve misturar a política com as coisas de fé, pelo menos quando a política pode significar a ação autônoma da classe que vive a exploração.

De baixo pra cima, é violência revolucionária. De cima pra baixo, é a vida mesmo e que  deus abençoe cada um..

Peguem os que foram canonizados e declarados mártires pela Igreja ao longo do século XX! É curioso que muitos dos  padres e freiras que morreram vítimas da violência dos oprimidos foram canonizados: isso ocorreu, por exemplo, com os que colaboraram com Franco na Guerra Civil Espanhola. Os padres e freiras mortos pelas ditaduras latino-americanas, lutando ao lado do proletariado e de camponeses contra o imperialismo e a exploração capitalista são tratados como gente equivocada que se meteu em política. Temos muitos desses: Camilo Torres, Oscar Romero, Josimo, as freiras estadunidenses que foram estupradas e assassinadas por militares em El Salvador etc.

Chiquinho mesmo tem explicações a dar sobre seus companheiros jesuítas na Argentina… Se não foi ele quem entregou os padres à tortura e à morte, tampouco disse uma só palavra contra tais práticas e contra a ditadura. Enquanto o alto clero argentino participava sorridente dos encontros e festas com o carniceiro general Videla, numa cópula diabólica, membros do baixo clero eram torturados e assassinados.

Em política não há neutralidade. De papa pop a papa bope não há uma mudança: é a mesma posição e a mesma pessoa.

Alguns dirão que o papa, por ser líder religioso, não deve entrar nessas questões. Pois então que não entre nelas por porta alguma, muito menos pelas portas da reação, do conservadorismo moralista que mata tanto (e junto) quanto os fuzis dos aparelhos repressivos.

Que me desculpem os deslumbrados com o sorriso celestial de Chico pop-bope: vocês estão embriagados pelo encanto do que nos divide e nos mata ao nos massificar e individualizar ao mesmo tempo. Pensando assim dá pra entender a popularidade dos fetinhos distribuídos amplamente nessa jornada conservadora da juventude, assim como o sorriso diabólico (no sentido original da palavra) do Chico pop-bope fazendo pose rodeado pela tropa de choque  do Rio, seu habitat natural.

Que ensaque seu sorriso e se vá daqui.

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Um comentário sobre “O papa, o pop e o bope

  1. disse tudo nobre e amado mestre ,alias aqui perto de nós tem uma capela e igreja em homenagem ao nobre padre Oscar Romero ,você citou no seu texto.a igreja mata seus padres para torna los mártires.

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