Racismo, preconceito e violência: é preciso ir além do horizonte do rolezinho e dos setores médios.

Cesar Mangolin

Minha intenção era um texto rápido, curto e objetivo, da forma livre que um blog permite. Ficou um pouco maior que queria, mas a paciência de ler até o fim pode facilitar um bom debate entre nós…

A discriminação e o preconceito estão mostrando as caras nos últimos tempos. Não somente o étnico, mas o de gênero, de orientação sexual, o de classe, até o que discrimina os que fogem a determinados padrões estéticos que nos foram impostos. Todos sabem que sempre estiveram aí e sabem também que nossa capacidade de criar novas modalidades é infinita.

O mito da democracia racial, criado após a libertação dos escravizados, é  o mesmo mito dessas formas todas de discriminação e preconceito: no discurso e na cabeça de quase todos nós está aquela ideia de que vivemos num país multicultural e que é capaz de conviver com diferenças sem grandes problemas. Um país incrível esse, que parece até que não viveu quatro séculos baseados na matança dos nativos e na escravização de gente presa e trazida a força pra cá.

Esse mito, esse sentimento e essa ideia são antigos. Nosso hino da proclamação da república, que aprendi a cantar em formação militar de sentido quando ainda fazia o primário em plena ditadura, diz algo assim: “Nós nem cremos que escravos outrora tenha havido em tão nobre país”! Isso sintetiza o mito: vivemos em um país tão livre e multicultural que nem parece que essa aberração está em nossa história!

Mas basta que o espaço da Casa Grande seja ameaçado e todo o engodo cai por terra! Negros e pobres  são bem tolerados desde que se mantenham afastados, em seus “lugares”, apenas servindo às necessidades das elites brancas que trucidaram essas populações durante séculos. Elites brancas que encontram nas camadas médias urbanas das grandes cidades seus cães de guarda.

Mas há outro aspecto de nossa formação que nos passa despercebido, dado que somos produto dessa cultura:  somos acostumados historicamente à brutalidade, à violência, à covardia contra o mais frágil e isso ocorre porque toda a nossa história é uma história de violência.

Tive um aluno angolano. Um jovem negro de mais ou menos 30 anos que veio ao Brasil apenas estudar. Conversava com ele sobre seu país, sobre o que sobrou da guerra de independência, as ideias socializantes, Agostinho Neto etc. Ele me falou dos anos de guerra civil e suas dificuldades. Um dia ele chegou à faculdade muito assustado. Perguntei a ele o que havia ocorrido e me contou assombrado que foi parado pela polícia militar. Ora, diríamos nós, ele apenas “tomou uma geral”, como dizemos por aqui. Pois é: esse estudante que viveu quase toda a vida num país em guerra civil me disse que jamais tinha sido tratado com tamanha violência, jamais tinha visto uma arma apontada para si, nem mesmo tomado tantas pancadas para ser revistado, as 06:00h da manhã, perto de uma estação do metrô na periferia. Também disse que sentiu muita vergonha: percebeu que foi escolhido pelos policiais dentre outros transeuntes e alguns ficaram assistindo a ação. Acreditava que foi escolhido por ser, nas suas palavras,  “mais preto que os demais”.

Uma ação que para nós é costumeira é, na verdade, uma pequena demonstração de como somos dados à violência e acostumados com ela. Agimos violentamente quase o tempo todo. Isso me parece reflexo da nossa formação e está tão entranhado nas mentes que mesmo que os que procuram condenar a violência sentem prazer quando pobres e pretos são espancados e mortos por aí.  O “silêncio sorridente diante da chacina” não é particularidade apenas de São Paulo: é patrimônio brasileiro! Justificamos a violência o tempo todo na história do país e também nas vidas privadas.

Mas a violência não é apenas aquela que machuca ou mata o corpo. Há a violência verbal, a do olhar, da postura, assim como a dos raciocínios fáceis que tentam encobrir a mente preconceituosa, racista, machista, homofóbica etc..

Fiz dois exercícios com duas turmas distintas, com resultados idênticos – o que já era esperado. Minha intenção era utilizar os argumentos deles próprios para nossa reflexão posterior.

Primeiro, soltei o tema do racismo no ar e deixei que se manifestassem livremente. Ainda que reconhecessem que há gente racista (!), aos poucos a conversa foi mudando de orientação, dando uma volta, e no final estavam quase todos empenhados em demonstrar como os negros são racistas ou “não fazem nada pra mudar”!!!  Vejam que loucura isso: eles até reconhecem o racismo, mas acabam por atribuir à vítima da opressão o status de opressor e, com ele, a justificativa para a situação. É o mesmo que acontece com a mulher vítima de violência . Quantos atribuem às mulheres a razão dos estupros, dos assassinatos, dos espancamentos e das humilhações! Atribuem também aos miseráveis a razão de suas misérias!

O segundo exercício foi pensarmos na composição étnica dos trabalhadores da faculdade. Conseguiram perceber que nos serviços mais mal pagos e pesados havia grande número de negros e nenhum branco (limpeza, segurança e coisas assim); no serviço administrativo havia cerca de 25% de negros, os demais brancos. Entre os professores, concluíram que não havia nenhum negro. Mas o pior é que havia 1, apenas 1, e eles não o perceberam como negro!

Isso se explica porque era um negro que não estava no “lugar” devido dos negros. Os estudantes gostavam dele,  era considerado um bom professor, portanto, eles ao menos foram capazes de perceber que era negro!

Vejam, mesmo as pessoas bem intencionadas em criticar o racismo acabam caindo nessa armadilha da razão racista. Exemplo disso foi a reação à jornalista que disse que os médicos cubanos “não tinham cara de médico”, ma de empregados domésticos. Muitos condenaram (e com razão) a jornalista racista e afirmaram indignados na época que médico não tem cara, que nenhuma profissão tem cara. Ora, isso é repetir o mito da democracia racial, é propagar mais uma vez nossa cultura de violências diversas!

No Brasil médico tem cara sim, assim como uma série de outras profissões para as quais o acesso foi historicamente obstaculizado aos pobres e, dentre eles, principalmente aos negros. É uma raridade um médico negro, ou que tenha ascendência de algum povo nativo (os que chamamos de forma equivocada de índios até hoje).

É, em primeiro lugar, somente assumindo abertamente que somos um povo racista e preconceituoso, que temos uma cultura estupidamente violenta desde a nossa formação, que poderemos dar passos mais seguros no sentido da superação desses males.

A segunda necessidade é que os que sofrem com o racismo e o preconceito reajam de forma organizada. Isso nos remete a um exemplo mais recente, dessas movimentações nos centros de compra de São Paulo. Aqui pode ser que muita gente não me compreenda, mas peço a gentileza de lerem com atenção o argumento para evitar os costumeiros xingamentos que recebo.

Vejam: nas primeiras décadas após a abolição o povo negro foi marginalizado, como sabemos. Eles souberam se organizar, mas nesse momento inicial sua tentativa era a da integração, ou seja, reivindicavam participar da sociedade comandada pelas elites brancas como iguais, inclusive com seus defeitos. Foi somente após perceberem a impossibilidade disso que passaram a uma fase de denúncia do racismo e, na sequência, para uma luta mais direta contra o racismo. O elemento principal é que os movimentos negros organizados não conseguiram acessar jamais o conjunto da população negra e pobre. Isso não retira o mérito das inúmeras organizações e militantes. Dirigidos por uma camada média letrada, como dizia Clóvis Moura, esses movimentos conseguiram mobilizar sempre residualmente e com enormes dificuldades os negros pobres das periferias das grandes cidades, à semelhança do que ocorre com os partidos da esquerda da atualidade, dirigidos, no geral, pelos mesmos setores.

Alguns movimentos (rap, hip hop e por aí vai) conseguiram até certo ponto levantar a voz da periferia fazendo a denúncia das condições de vida, do racismo etc. Alguns grupos até avançam na atualidade para movimentações mais organizadas politicamente, conseguindo associar a questão do racismo à exploração capitalista etc. Mas também é ainda residual.

Parece então que temos um movimento ainda pequeno que se organiza mais amplamente na luta contra o racismo e a exploração capitalista. Outro grupo, um pouco maior e até certo ponto ligado a este, que faz a denúncia da sociedade burguesa e do racismo, mas se compreende como um movimento mais cultural que político diretamente.

Onde está a massa dos jovens negros e pobres, então? Em minha opinião essa massa está como que naquela fase inicial dos movimentos negros: reivindicando sua integração à sociedade, em particular, pelas características atuais, ao consumismo egoísta, que tem como manifestação sensível o sucesso impressionante entre eles do chamado funk ostentação. Isso não é “culpa” deles, as coisas apenas se processam assim: é razoável que queiram ter acesso ao que lhes é enfiado na cabeça o tempo todo e por todos os meios como sinônimo de sucesso e liberdade. Isso também é violência exatamente porque vela a exploração. Marx disse que “o escravo romano estava preso por correntes ao seu proprietário; o trabalhador assalariado o está por fios invisíveis”.

Defendo que qualquer um tenha acesso a qualquer espaço destinado ao público, seja individualmente, seja em grandes grupos. Sou contrário radicalmente à ação da polícia para retirar dos centros de compras os jovens da periferia que parecem contaminar as catedrais do consumo dos setores médios, que têm a mesma concepção de sucesso e liberdade via consumo individual.

Mas não devemos ver o que não existe… Esses jovens nada reivindicam, a não ser a possibilidade de serem exatamente iguais aos que lhes perseguem em estupidez, em egocentrismo e consumismo. É louvável a reação de pessoas e organizações contrárias à ação violenta para a retirada desses jovens, mas a coisa para por aí… Não há nenhuma ligação entre os tais rolezinhos e qualquer coisa progressista.

Quem sabe desses movimentos e desses apoios parte dessa juventude compreenda que a luta é outra, que o problema é maior e mais extenso que a distância que separa os olhos do umbigo ou das vitrines. Isso será ótimo. Mas o caminho para isso é longo e passa, necessariamente, por redefinir o foco das lutas e lembrar que não é a integração individual ao consumismo que pode levar a uma transformação definitiva da sociedade, que enterre de uma vez por todas o racismo e os preconceitos de todos os tipos. Nosso problema é sem dúvida de etnia, de gênero, de orientação sexual, mas é também de classe, ou diria melhor, as questões de classe compõem o pano de fundo de todas essas contradições específicas.

Sem que façamos isso, apenas vamos colaborar em reproduzir dois efeitos ideológicos que muito contribuem para a dominação de classe burguesa: primeiro, o sonho do enriquecimento individual; segundo, a violência de fazer com que a vítima seja apontada e se compreenda de fato como responsável pela violência que recebe.

Foi apontando a inferioridade de outros povos que os conquistadores justificaram sua dominação. É apelando à ausência de méritos pessoais dos mais pobres e, dentre eles, dos negros que a dominação de classe ganha um aliado poderosíssimo.

Em minha opinião é apenas o poder aquisitivo que difere os setores médios raivosos e os jovens do rolezinho. Essa não é, evidentemente, uma diferença insignificante. O que me parece mais triste é que ideologicamente eles são a mesma coisa.

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6 comentários sobre “Racismo, preconceito e violência: é preciso ir além do horizonte do rolezinho e dos setores médios.

  1. Cesar Mangolin, bom dia.
    Achei ótima a sua visão acerca do “rolezinho”, antes de ser professor eu era químico de uma multinacional e não tinha ideia dos problemas sociais vividos no Brasil, vivia viajando e o conhecimento que tinha vinham dos jornais “tendenciosos” que lia. Após ser demitido fui trabalhar como professor de uma escola particular e comecei a gostar. Quando saiu concurso para professor passei entre os primeiros, ao chegar na escola pública, em 2000, parecia um rolezinho dentro da sala de aula. Os alunos se recusavam a se sentar e fazer qualquer atividade.
    Foi necessário quase uma década e vários concursos para eu digerir isso e entender o que se passava com esses jovens que recusam o conhecimento.
    Percebo que o empoderamento dado aos jovens (seus direitos garantidos no ECA) foi percebido a priori na escola “pública” e agora está se expandindo para outros setores da sociedade e isso está incomodando as classes mais abastadas.
    Acredito que somente a educação poderá fazer as mudanças necessárias para esses “rolezinhos” se transformarem em manifestações.
    abraço

  2. Pois é camarada, nossa sociedade é conservadora ao extremo….
    Tanto os da periferia quanto a burguesia.
    A classe média? bem, a classe média é uma razão de espírito… Um pobre da periferia pode ter o espírito de classe média…
    Abraços

  3. Qual é o preconceito, um conceito pre determinado. Se partir deste ponto, você e tão preconceituoso quanto a famigerada direta brasileira que não existe, estes jovens entram nos centros comerciais e ficam a margem de qualquer regra de convivência, são vândalos, ladrões, marginais sem escrúpulos nenhum, depois ficam esperando pessoas como o senhor defende-los das garras da elite branca dentro da casa grande… Discursinho sem noção heim camarada.

    1. Caro João
      não sei se lhe conheço pessoalmente para dizer isso em sua frente, mas você deveria ler o texto com mais atenção e perceber que eu não sou um fascistóide como você. Preconceito é isso que você expressa em poucas linhas.

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