O mito chamado humanidade e a humanização

Cesar Mangolin

Escrevo aqui de forma assistemática sobre temas que temos discutido com alguns bons camaradas. O texto não tem, portanto, a pretensão de dar respostas definitivas sobre coisa alguma, mas apenas expressar questões e possíveis vias de reflexão sobre o que o humano é concretamente e como costumamos tratá-lo idealmente.

O debate gira em torno de um necessário resgate da animalidade do humano e do tratamento a partir do que essa espécie é concretamente, não o que deveria ser. Isso indica que o que chamamos de humano é tratado idealmente por correntes diversas.

Nessa primeira contribuição ao debate, vou me ater ao uso de dois termos, como ponto de partida para avançarmos no debate, ainda que pareça, a primeira vista, muito óbvio.

Não é raro ouvir a atribuição de “desumano”, quando estamos diante de alguma tragédia, ou de uma violência extrema. Também é muito comum a utilização do termo “humanização”.

É evidente que todos compreendem o que esses termos querem dizer diante dessas situações concretas. São como “conceitos de passagem”, largamente utilizados, do senso comum ao discurso científico e filosófico mais elaborados, ou seja, termos que permitem partir de um ponto da análise ou do discurso, que é compreendido, mas que deixa na obscuridade seus pressupostos.Vale, nesse caso, dar um passo atrás e procurar esclarecer o que está implícito no uso desses termos, ou seja, tentar responder, antes de tudo, o que pode ser o “desumano” e o que seria “humanizar”.

Os dois casos revelam que há uma construção ideal do que seria humano, que não corresponde à realidade concreta do que o humano é. Ainda que esteja presente em formulações mais antigas, sem dúvida é no pensamento moderno que podemos encontrar a raiz dessa idealização do humano na forma como se propagou nas formações sociais capitalistas. A passagem, nem sempre operada “até o fim”, do teocentrismo ao antropocentrismo do século das luzes, carregou para o esforço de constituição das ciências (da forma como se passou a compreender o termo a partir do Iluminismo) uma alta carga de filosofia idealista, em particular as tentativas tanto quanto idealizadas de construção de ontologias, permeadas por profundo traço teleológico.

É essa tradição que torna possível a criação e larga utilização de termos da filosofia idealista mesmo dentro do marxismo. Por exemplo, para dar resposta às razões pelas quais a vida concreta não corresponde à teoria sobre ela, foram criados conceitos que criam a ideia do que as coisas são em si mesmas e o que são para si mesmas. Isso siginifica, de forma simples, o seguinte: a humanidade, ou uma classe, enfim, são uma coisa na realidade porque são, ontologicamente, isso; o fato de não agirem exatamente em consonância com o que são é explicado pela ideia de que ainda não sabem que são, lançando tudo no vazio e obscuro espaço da consciência… A humanidade (compreendida como uma unidade idealizada) possui tais características; o fato de que os humanos não se expressam qualitativamente como essa unidade compreende apenas um desvio, revela que ela, apesar de ser outra coisa, ainda não vive como é de fato.

Um pouco complicado, sem dúvida. Mas dessa idealização teórica geral do humano e dessa mistificação chamada humanidade derivam as posições que, a meu ver, precisam ser quebradas para que possamos aproximar mais o que entendemos de nós do que somos concretamente.

Ao definirmos o que o humano deveria ser idealmente, quando comparamos com a realidade, encontraremos desvios, daí a ideia do desumano… E é diante do que é considerado desumano que estabelecemos o que deve ser humanizado. Ora, vale considerar quantas outras espécies animais são capazes de realizar tudo o que consideramos desumano. A violência extrema e por vezes banal, as desigualdades sociais gritantes, a miséria, a fome… Isso tudo é qualificado, independentemente da solução que qualquer um possa apresentar, como desumano. Mas, quantas espécies animais são capazes de realizar esse tipo de coisa? Alguns, nas conversas informais, ao ver algo assim costumam dizer que seu responsável é um “animal”… Ou seja, colocamos nossa espécie acima e fora da natureza. Os “animais”, ou “desumanos”, ficam colocados como concretizadores de ações que não correspondem à humanidade idealizada, embora o façam corriqueiramente e não como exceção. Por exemplo: somente os humanos desenvolveram a capacidade de torturar seus semelhantes para obter informações… Esta é uma ação apenas e tão somente humana, portanto, não pode ser qualificada como “desumana”.

Claro que nossa espécie foi capaz de realizar coisas incríveis, muito interessantes, que tornaram a vida da espécie possível, incusive nos tornou capazes de ir para além da seleção natural, visto que desenvolvemos a capacidade de intervir no meio e adaptar a vida da espécie a condições extremas. Foi essa capacidade (humana) que nos permite ser uma espécie animal capaz de viver em qualquer canto do mundo. Mas nossa espécie também foi capaz de desenvolver, ao mesmo tempo, a capacidade de realizar atrocidades e violências extremas, humanas tanto quanto.

Daí vem a ideia da “humanização”… O que seria, por exemplo, “humanizar a saúde”? Claro que a intenção expressa na frase é compreendida por todos, como melhoria do atendimento e das condições desse atendimento, da prevenção, da redução do sofrimento, inclusive deixando de pensar o corpo como uma máquina na oficina, mas tratando também das questões emocionais, que não são nada mais que nosso próprio corpo também.

Mas, pensando nos termos em nosso exercício de ir às suas raízes, como falar de “humanização” nesse caso? Humanizar, como a palavra diz, é tornar humano. Vimos que humano é capaz de misérias extremas também e, nesse caso do exemplo da saúde, como falar em humanizar algo que foi criado e pensado pelos humanos mesmo?

Todas essas questões nos levarão, necessariamente, à compreensão de que, apesar de realizar coisas incríveis (em todos os sentidos), a raiz para a explicação não está exatamente no que o humano é ou deixa de ser, mas no que ele se torna dentro de relações sociais específicas. A centralidade que a modernidade atribui ao humano, na verdade, vela o cerne do problema: o humano é produto de relações, relações desenvolvidas por uma série de contradições que independem do controle total e da vontade dos humanos existentes aí.

Alguém vai dizer: mas são os humanos que criam essas relações… Sem dúvida, mas os humanos que criam essas relações não as fazem por planejamento em em conjunto. Além disso: os humanos planejam e fazem coisas dentro de certos limites (contingenciais), são produtos das relações das quais partem, relações que lhes fizeram assim e não de outro jeito, com grupos diversos atuando em sentidos múltiplos, tornando o resultado final pouco previzível.

Os humanos são, antes de tudo, suportes de estruturas que lhes determinam e delimitam, inclusive as possibilidades abertas pelas contradições diversas.

Os que chegaram a conclusões semelhantes correm o risco de cair em outra armadilha idealista e teleológica: já que não podemos atribuir ao humano, ou a essa unidade idealizada – a humanidade – o resultado do que somos e como vivemos, atribuirão vida própria e “sentido” a uma nova entidade, chamada “história”. Isso significa atribuir não mais ao humano, mas à história, um fim, um destino, no geral, fatalmente feliz: o “fim da história” vai corresponder ao que tratamos como a “realização plena da humanidade” e a longa trajetória no tempo vai aparecer como a escalada crescente e segura rumo a esse destino glorioso, assim como, individualmente, é comum pensar que a vida individual caminha, necessariamente, à realização da satisfação pessoal. Não é comum pessoas afirmarem que nascemos para sermos felizes? De onde tiram isso, a não ser de uma idealização da própria vida, por mais que a vida concreta demonstre que as coisas não caminham assim? O indivíduo como o compreendemos hoje, essa outra criação da modernidade burguesa, auxilia brutalmente esse processo de mistificação da realidade.

Vale e é necessário avançar o debate…

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5 comentários sobre “O mito chamado humanidade e a humanização

  1. Camarada,

    Belíssima reflexão!
    Vale observar a diferenciação que os gregos faziam entre “bios” e “zoé”, tal como Agamben argumenta em Homo sacer. Platão [Filebo] e Aristóteles [Ética a Nicômaco] diferenciavam as vidas humanas possíveis de serem vividas: a contemplativa, a de prazer e a política fe expressavam o que Agamben argumenta.
    Abraço,
    Anderson.

  2. Esses conceitos ideais sobre a humanidade são muito utilizados para explicar o fenômeno do nazismo. Diz-se que as atrocidades cometidas por Hitler e seus asseclas foram atos de “desumanidade”, quando na verdade foram praticadas por pessoas como quaisquer outras. É como se não admitíssemos que a espécie humana é capaz de produzir atrocidades – mas é, como nenhuma outra espécie do reino animal. O mesmo se dá agora no massacre israelense contra a Palestina, mas os sionistas fazem parte dessa humanidade gloriosa e miserável, assim como os Palestinos, que muito provavelmente não reagem na mesma medida por falta de condições bélicas para tanto.

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