Os resíduos de junho de 2013, as esquerdas e as eleições.

Cesar Mangolin

Na campanha eleitoral deste ano podemos ver candidatos e partidos diversos falando em nome do “recado das ruas” de junho de 2013. Cada qual que tenta aparecer como porta voz daqueles eventos faz deles a interpretação que melhor lhe cabe. Partidos da direita, de centro e de esquerda, também as legendas de aluguel, enfim, para qualquer um as manifestações do ano passado servem. Desde os que defendem a “rota na rua” até os que estão vislumbrando a revolução socialista para a semana que vem.

Penso que já há certa distância para que possamos pensar no saldo, ou no rescaldo, de junho de 2013. Pensar no que aquelas manifestações representaram de fato. Arrisco aqui sugerir ainda, mais ao final, possibilidades ainda sem um tratamento mais aprofundado de caminhos a seguir. Um debate necessário, que deve partir de incertezas e não de verdades absolutas.

Muitos de nós escrevemos ali, em 2013, no calor da hora, tentando uma interpretação mais próxima da realidade, tendo em vista nossa participação nela. Sem dúvida, quem escreveu naquele momento não tinha ainda a visão dos seus desdobramentos, portanto, cometeu equívocos e bons acertos – como ocorre geralmente com as tentativas de prever o futuro.

Eu mesmo escrevi, dias antes da grande manifestação de São Paulo, um texto que deu muita atenção aos boatos golpistas daquele momento. Penso que não foi sem justificativa: uma quantidade grande de gente se precipitando às ruas, de alguma forma, obrigou que agrupamentos políticos diversos se manifestassem. Houve a manifestação por parte de setores reacionários e o fantasma das saídas golpistas esteve no ar, efetivamente. Podemos agora perceber melhor que a conjuntura, porém, não permitiria a formação de base social concreta para as aspirações desses grupos mais à direita. Concluir isso agora é, obviamente, bastante fácil. Não me parecia assim no calor da hora. Eis minha autocrítica.

Mas meu texto também chamava a atenção para outro erro muito comum, que persistiu na análise de setores da esquerda sobre junho. Dizia naquele texto que não se tratava da juventude nas ruas protestando contra a ordem burguesa, mas ao contrário: que o grande fluxo que foi para as ruas somente ocorreu quando, para além do aumento do preço das passagens (o que envolvia mais diretamente a prefeitura de São Paulo), houve a associação com o governo federal. Essa associação não expressava exatamente qualquer desconforto com a ordem burguesa, mas explicitava um ranço conservador e de direita da crítica rasteira dos setores médios a um governo que, apesar dos pesares, ainda carrega a palavra “trabalhadores” no nome do partido.

Isso pode ser compreendido quando o governo do Estado de São Paulo (do PSDB) retirou das ruas o aparato repressivo que dias antes tinha massacrado uma manifestação bem menor no centro da cidade. O grosso daquelas manifestações que percorreram todo o território nacional foi formado pelos setores médios urbanos, conservadores, que fazem do discurso meritocrático sua bandeira e sua principal ilusão. Não tenho receio em afirmar, hoje, que aquele movimento teve um saldo de expressão e aprofundamento do conservadorismo, que se expressa politicamente pedindo mudanças, mas mudanças à direita e plenamente dentro da ordem. Não é a toa que o grosso dos que participaram daqueles movimentos vê numa fraude como Marina Silva a esperança para a solução dos seus problemas. Gente da mesma estirpe também viu em Mussolini e em Hitler a mesma promessa (sem querer, evidentemente, dar a Marina a estatura histórica dos dois citados).

Intelectuais, dirigentes e militantes da chamada “esquerda revolucionária” tenderam a um discurso triunfalista: confundindo a própria vontade com a realidade objetiva (como é próprio do esquerdismo), compreenderam ali um avivamento das lutas populares que não ocorria efetivamente. A desastrosa sequência das atividades, com a equivocada palavra de ordem “não vai ter copa” e seus correlatos, colocou esses partidos a reboque de dois grupos distintos em São Paulo: os infantis coletivos ultra-esquerdistas e o movimento de luta pela moradia, em particular, o MTST. Este último, vivendo das condições e contradições de qualquer movimento, ao ter a promessa de que suas aspirações seriam realizadas pelo governo federal, se retirou das ruas. Restaram os “anarcoloucos” da vida, seguidos de uma reduzida militância partidária perdida e sem peso político. O resultado sabemos qual foi: repressão desmedida, prisões arbitrárias, ausência total de respaldo ou diálogo com demais setores dos trabalhadores e o aprofundamento no caminho do auto-isolamento em guetos felizes que vêm a revolução às portas a qualquer grunhido da classe média. Protegidos ali pela bandeira casta dos princípios revolucionários, deixam de fazer política em nome da pureza moral. Esquecem-se da chamada de atenção de Lênin de que a política não se faz pelos princípios, tampouco se trata de um passeio em campo aberto, sem obstáculos. O esquerdismo é incapaz de participar da vida real e de utilizar como ponto de partida as condições concretas dos trabalhadores e seus movimentos. Esses partidos atraem a pequena-burguesia e seu revolucionarismo que, como dizia Lênin, decorre da insatisfação da sua perspectiva individualista. Servem a ordem burguesa na mesma proporção em que vislumbram seu fim próximo.

Por fim, os desvios de direita (tão nocivos como os de esquerda), ficaram por conta do partido no governo federal e seus aliados históricos. Tentando, ao mesmo tempo, tornar-se representante do “clamor das ruas” e detrator dos ultra de direita e de esquerda (de braços dados no processo), o governo foi forçado a ir mais à direita na medida em que a oposição de direita angariava o apoio dos debutantes nas ruas. O que pode garantir a vitória de Dilma nas urnas neste ano são os votos dos mais empobrecidos pelo Brasil afora, no geral, alheios a toda a movimentação que ocorreu em 2013. Os setores médios urbanos e os que vivem em sua órbita tendem a ir mais à direita, com Marina Silva e, residualmente, com Aécio Neves, que já está fora do páreo.

Há diferença, sem dúvida, caso Dilma continue, ou Marina se torne, presidente. Mas minha preocupação maior, como militante de esquerda, é como explicar o momento que vivemos e quais seriam as possibilidades para uma retomada, de fato, de um ciclo no mínimo progressista para o médio prazo.

O momento que vivemos já possui elementos de resposta pelas linhas acima: estamos separados por desvios à direita e à esquerda, ambos nocivos a uma política de esquerda consequente. Arrisco dizer que vivemos um momento novo, uma crise nova, mas ainda ligada ao que começou a acontecer 25 atrás, com a queda do Muro de Berlim e o consequente refluxo dos movimentos de esquerda. Um tempo marcado por uma ofensiva ideológica brutal com a pregação do fim da história, pela corrida para mudar nomes e símbolos associados ao movimento comunista, pela mudança de lado, pelo caminho ao centro e pela opção pela conciliação de classe (que explica o desvio de direita), pela tentativa de reafirmação de princípios revolucionários de forma desesperada e historicamente impaciente. Nossa conjuntura de médio prazo, marcada por esses eventos, nos coloca a tarefa de repensar a tática, equivocada por todos os lados.

Não é tarefa de quem pensa a realidade arriscar previsões do futuro. Mas é nosso papel arriscar dizer que o caminho para uma retomada de um processo de ascensão dos movimentos, no mínimo, progressistas, passa necessariamente pela capacidade de estar junto dos movimentos que organizam, ainda que residualmente, os trabalhadores. Estar nos sindicatos pelegos para dialogar com os trabalhadores e apontar outras possibilidades, nos movimentos populares participando das lutas cotidianas, no parlamento burguês, em todas as instituições, atuando em todas as contradições da formação social brasileira. Sem dúvida isso é ainda bem geral, mas podemos indicar o caminho que pode nortear (e exigir) as necessárias mudanças no modo de atuação das chamadas esquerdas: isso somente deve e pode ser feito abandonando as pretensões hegemonistas, a tendência ao aparelhamento, a cooptação dos movimentos pelo Estado e, fundamentalmente, aprendendo a ter paciência histórica, sem messianismo, sem revolucionarismo. Precisa ser de acordo com as possibilidades concretas abertas em cada quadra e não através de um discurso ininteligível, porque descolado da realidade. É preciso, como dizia Engels, saber aprender com os trabalhadores. É necessário lembrar que aos revolucionários cabe tentar fazer a revolução, não emitir auto-atestado de pureza. É preciso compreender, de fato, que revolução não é resultado apenas de atos de vontade, muito menos de proselitismo religioso, de conversão de consciências, de conquista de “corações e mentes”. Não são necessárias essas expressões sentimentais.

Passa da hora, isso sim,  de recolocar os pés no chão e recomeçar a caminhar.

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3 comentários sobre “Os resíduos de junho de 2013, as esquerdas e as eleições.

  1. Muito bom (novamente).
    Levarei o texto para discutir com alguns camaradas, por considerá-lo oportuno e rico em elementos reflexivos.

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