Entre crentes e fanáticos: a violência de Paris é cotidiana…

Cesar Mangolin

Certa vez ouvi de um aluno meu, do ensino superior, que os ateus deveriam morrer… O seu raciocínio era simples e lógico: já que recebemos a vida de deus, o mínimo que merecem os que não acredtiam nele é perdê-la, visto que é uma imensa ingratidão continuar com o presente recebido sem reconhecer e agradecer diariamente quem o ofertou.

Para tentar argumentar por dentro de seu campo, perguntei a ele se era razoável matar as pessoas por não acreditarem em deus, visto que, ainda que ele (deus) existisse, teria criado seres capazes de não ter fé (visto que os ateus existem), portanto, ainda que sugerindo que isso tudo fosse razoável, seria igualmente razoável que deus liberou os humanos para que acreditassem nele ou não. Tendo feito deus assim, como poderia achar que ele (o estudante) deveria resolver de outro modo o desígnio divino?

A sua resposta foi rápida: deus nos deu liberdade, mas também nos deu sua palavra revelada e nela está que devemos adorá-lo sobre todas as coisas. Sendo assim, não cabe a deus defender o mundo e os crentes dos ateus, mas aos homens de fé… A conclusão, que ele não proferiu, é óbvia: deus fica lá quietinho e os que têm fé formam seu exército de justiceiros divinos.

Minha última questão foi simples: e em qual deus, deuses ou deusas devemos acreditar? Ele foi categórico: no deus trino, na salvação conquistada pelo sofrimento de Jesus, enfim, no deus dos cristãos. As demais religiões para ele eram equivocadas…

Não acredito que esse estudante sozinho seria capaz de matar pessoas por causa da fé, mas não tenho dúvida que pela intolerância expressa e pelos limites da sua argumentação, poderia fazê-lo desde que estivesse num grupo maior.

Em qual momento a fé vira fanatismo dado a executar barbaridades? Poderíamos acrescentar aí não apenas a fé, mas determinadas convicções morais, políticas, étnicas etc. Qual o limite entre lutar por algo que parece razoável e ser fanático ao ponto de realizar atrocidades sem razão?

Parece que a linha que divide as duas coisas está na maneira como concebem o que acreditam os que possuem causas quaisquer. Mas pricipalmente está no fato de não conseguirem alargar o horizonte do raciocínio para além do seu próprio campo, o que significa que qualquer maluquice pode adquirir sentido. Voltando ao exemplo do estudante, disse que seu argumento era lógico, mas a lógica formal que governava sua maneira de pensar era, desde sempre, escrava de um campo fechado, pois operava apenas por dentro e a partir de uma certa concepção de cristianismo, sem estabelecer relações com a vida concreta, com outras visões de mundo, com zilhões de coisas das quais depende a existência de uma simples folha de árvore e, ao mesmo tempo, depende também a constituição de espécies e seres contingentes e casuais como somos nós etc.

Assim também operam os fanáticos de todo tipo: as demais religiões possuem os seus; há militantes políticos, de direita e de esquerda, reféns da mesma lógica circular e hermética.

Uma outra consequência para as vítimas que ultrapassam a barreira do que acreditam para o campo do fanatismo dogmático é a intolerância radical e a prática da violência com relação a tudo que é diferente do seu mundinho… Um outro estudante, certa vez, disse que seu pai lhe falava que estudar era uma grande perda de tempo. Ele dizia que não havia estudado nada e sabia tudo do mundo e da vida… O próprio estudante concluiu: “Imagine, professor, o mundinho em que vive meu pai!”

É isso! Quem acredita que sabe tudo desse mundo sabe, na verdade, tudo de um universo restrito, um mundinho que ele enfiou na cabeça como sendo o todo. Ora, quem sabe de tudo não tem nada a aprender, apenas a ensinar. Daí a arrogância encontrada não apenas no exemplo do pai do estudante, no senso comum, nos que não estudaram, mas também a arrogância que está presente, principalmente, naqueles que estudaram muito. Estes não são capazes, no geral, de responder sem violência ao mínimo questionamento. É curioso como um fedelho qualquer que coloca o pé na universidade vê-se, da noite para o dia, como conhecedor das coisas todas e um arrogante de primeira linha. Talvez o exemplo ensine mais que os livros: ele tem espelhos nos seus professores…

Quando falo da violência não me refiro apenas à violência direta, do assassinato, como fizeram em Paris… Falo também da violência simbólica, da violência do preconceito e da exclusão, que também mata aos montes e destina vidas a seguirem caminhos dolorosos por um decreto da irracionalidade.

Não estou fazendo o discurso de um pacifismo tolo. Sei reconhecer o papel da violência na história como algo objetivo. Mas é necessário, sempre, que digamos o óbvio diante de fatos estúpidos como o que ocorreu com os responsáveis pelo jornal parisiense. É necessário condenar a violência religiosa e a tentativa de impor aos demais que vivam segundo os preceitos de uma divindade qualquer que não acreditam. Jamais vi os ateus reagindo dessa forma estúpida ao serem chamados de pagãos, de infiéis, de condenados, possuídos pelo demônio e uma série de outros termos tolos.

A intolerância religiosa, pricipalmente a que parte dessas três religiões monoteístas (cristianismo, islamismo e o judaísmo), suja a história de sangue e dor. Aliás, e com raras exceções de pequenos grupos, elas sempre estiveram ao lado de interesses poderosos pelo mundo afora, jamais ao lado dos trabalhadores, jamais ao lado dos oprimidos concretamente.

Tenho certeza de que a maior parte dos adeptos dessas religiões condena coisas como a que ocorreu hoje na França e, inclusive, manifestam-se contrárias ao atentado. Mas não vejo, por outro lado, um grande empenho de todos os crentes no sentido de uma fraternidade de fé, pelo menos no sentido da tolerância e do respeito mínimos aos demais.

Na virada do ano, desejei aos amigos que o ano de 2015 fosse mais gentil com todos nós. Pelo menos isso. Parece que esses animais estúpidos – me refiro à espécie humana – não serão capazes disso. Paciência. Há muito e vem muito por aí…

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8 comentários sobre “Entre crentes e fanáticos: a violência de Paris é cotidiana…

  1. Mais um absurdo que assisto, só assito sem poder fazer nada a não ser lamentar.
    Eu sou uma atéia (acho que não tem mais acento) do tipo “pacífica tola” por que me questiono se tenho o direito de matar uma barata ou não … acabo matando, mas no fundo sempre me sinto uma assassina!
    Como sempre você é brilhante ao expressar suas idéias (mais uma!).

  2. Olá professor Mangolin,
    Gostei do artigo achei muito interessante, mas gostaria de colocar meus argumentos.

    Primeiramente, gostaria de deixar bem claro que o aluno, mencionado no artigo, está agindo completamente fora dos padrões cristãos e seu discurso é totalmente oposto ao do próprio Jesus. Veja as afirmações de Cristo:

    “Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos façam, assim fazei-o vós também a eles; porque esta é a Lei e os Profetas” Mateus 7:12

    “Eu, porém, vos digo que não resistais ao mau; mas, se qualquer te bater na face direita, oferece-lhe também a outra;” Mateus 5:39

    A verdade é que não devemos ignorar o fato de que o cristianismo genuíno, ou seja, a mensagem e a obra de Cristo, deu uma contribuição nunca vista antes na história da humanidade em direção à paz e à tolerância em todos os sentidos.

    Vejamos o texto abaixo do diálogo de Jesus com um doutor da lei:

    “E eis que se levantou um certo doutor da lei, tentando-o, e dizendo: Mestre, que farei para herdar a vida eterna?
    E ele lhe disse: Que está escrito na lei? Como lês?
    E, respondendo ele, disse: Amarás ao Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todas as tuas forças, e de todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo.
    E disse-lhe: Respondeste bem; faze isso, e viverás.
    Ele, porém, querendo justificar-se a si mesmo, disse a Jesus: E quem é o meu próximo?
    E, respondendo Jesus, disse: Descia um homem de Jerusalém para Jericó, e caiu nas mãos dos salteadores, os quais o despojaram, e espancando-o, se retiraram, deixando-o meio morto.
    E, ocasionalmente descia pelo mesmo caminho certo sacerdote; e, vendo-o, passou de largo.
    E de igual modo também um levita, chegando àquele lugar, e, vendo-o, passou de largo.
    Mas um samaritano, que ia de viagem, chegou ao pé dele e, vendo-o, moveu-se de íntima compaixão;
    E, aproximando-se, atou-lhe as feridas, deitando-lhes azeite e vinho; e, pondo-o sobre o seu animal, levou-o para uma estalagem, e cuidou dele;
    E, partindo no outro dia, tirou dois dinheiros, e deu-os ao hospedeiro, e disse-lhe: Cuida dele; e tudo o que de mais gastares eu to pagarei quando voltar.
    Qual, pois, destes três te parece que foi o próximo daquele que caiu nas mãos dos salteadores?
    E ele disse: O que usou de misericórdia para com ele. Disse, pois, Jesus: Vai, e faze da mesma maneira.”Lucas 10:25-37

    Lendo o texto com a mentalidade moderna, da paz entre os povos e da tolerância, acabamos ignorando o peso da pergunta do doutor da lei, e um aspecto completamente revolucionário na resposta de Jesus. A pergunta feita pelo doutor da lei “E quem é o meu próximo?” era muito pertinente naquele contexto judaico onde as guerras e inimizades entre povos era absolutamente comum. O que o doutor da lei queria saber era: devo amar a um não judeu também? Devo tratar bem a pessoas de outros povos raças e etnias? Um romano é meu próximo?
    A resposta de Jesus com uma parábola é ao mesmo tempo brilhante e inovadora. Jesus apresenta como modelo a ser seguido um samaritano, que fazia parte de um povo que era hostilizado pelos judeus, agindo com bondade para com um inimigo.

    Note-se também que o ensinamento de Jesus vai além do mero respeito pelo próximo, Jesus nos ensina a termos uma atitude ativa de bondade.

    Gostaria de destacar também o papel importante dos cristãos na luta contra a intolerância e o preconceito. Meu desejo era falar de cada um deles, mas o texto ficaria gigantesco, então vou deixar os links para quem se interessar . A começar pelo pai do ecumenismo, um pastor cristão chamado Comênio (para quem se interessar em saber mais sobre ele, vai o link do Wikipedia http://pt.wikipedia.org/wiki/Comenius ). William Wilberforce, parlamentar inglês, ícone da abolição da escravatura (http://pt.wikipedia.org/wiki/William_Wilberforce), Martin Luther King (http://pt.wikipedia.org/wiki/Martin_Luther_King_Jr.), e tantos outros.

    Infelizmente muitos, a maioria pra falar a verdade, dos que se dizem cristãos não conhecem o Jesus que dizem seguir, e por esta razão o evangelho acaba sendo envergonhado por pessoas que alegam seguir a Cristo, mas que na verdade agem movidos pelos desejos malignos de seu próprio coração cheio de ódio, preconceito e ganância. Para dar alguns exemplos mais óbvios: cruzados, inquisidores, nazistas, membros da klu klux klan e tantos outros que a história nos mostra.
    Eis a verdadeira religião:

    “A religião que Deus, o nosso Pai aceita como pura e imaculada é esta: cuidar dos órfãos e das viúvas em suas dificuldades e não se deixar corromper pelo mundo.”

    Tiago 1:27

    Grande abraço professor!

    1. Caro Tercio: escrevo apenas para agradecer seus comentários e dizer duas coisas. Primeiro, não tenho dúvida de que o diálogo que descrevi com o estudante está fora do que prega não apenas o cristianismo, mas também o islamismo e qualquer outra religião. Segundo, mas decorrente do primeiro: é exatamente a dimensão prática do processo e do que chamei de raciocinar num círculo fechado que abra a possibilidade de fazer a fé transpor o limiar do fanatismo… Qualquer grupo (mesmo que um grupo de ateus) que atentasse da maneira e pelas razões que fizeram ontem na França mereceria repulsa… Você pode encontrar um ou outro argumento que demonstre a boa vontade do cristianismo ou qualquer outra religião, mas não há como negar que, historicamente, essas religiões estiveram sempre ao lado do poder e o serviram fielmente. Se isso foi ou vai contra o que essas religiões professam é outra coisa. Infelizmente. abraço, meu irmão!

  3. Só nos cabe uma indagação infinitamente sem resposta, qual estupidez é maior o monoteísmo Islâmico, ou pertença cretinice do judaísmo cristão européia?!!!… Isso levando em conta os dois extremismos inegável dessas duas espécie humana;

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