Nós limpamos a bunda da sociedade

Cesar Mangolin

As férias terminaram, professores e estudantes retornam às aulas. Lanço aqui uma reflexão para as duas categorias sobre nossa função e nossas ilusões. O título é sugestivo…

A frase que nos serve de título foi dita por uma professora de uma escola de ensino infantil, que reclamava das suas precárias condições de trabalho e de um material básico para trocar as fraldas das crianças: luvas descartáveis.

Para ser sincero gostei muito da frase e passei a fazer milhões de relações. Talvez essa seja a melhor síntese, no final das contas, do papel dos professores da educação formal, em todos os níveis: limpar a bunda da sociedade!.

A frase não é polida e nem gentil, sem dúvida. Mas defendo que a palavra falada e escrita permita que se entenda claramente a intenção daquele que fala ou escreve. Tenho certeza que muitos já compreenderam o texto todo lendo apenas a frase em questão. Portanto, abaixo a polidez!

Já insisti nesse espaço no papel reprodutor da educação formal. Althusser tratou a escola como um Aparelho ideológico fundamental das formações sociais capitalistas: a escola aparece como algo extremamente necessário para a nossa vida, assim como a igreja parecia sê-lo nos tempos do feudalismo.

Daí que dificilmente alguém pensa na possibilidade de sua eliminação. Sempre vem a pergunta: mas  o que colocamos no lugar? Que tal refletir um pouco em não colocar nada em seu lugar? Parece impossível, não é? Daí os pedagogos e outros bem intencionados profissionais passam a vida tentando e propondo formas de arrumar uma máquina de moer gente que não tem defeito: cumpre, exatamente, seu papel.

Na verdade, poucos conseguem perceber a insanidade do processo escolar. Para os que passam por todos os seu graus, são mais ou menos 17 anos de frequência regular, quase que diária, desde a mais tenra idade até a vida adulta. Caso se queira somar aí a pós-graduação, podemos incluir mais uns dez anos.

Nela são transmitidos os condicionamentos básicos, mais que a construção de conhecimento: uma “visão de mundo” que torna naturais e razoáveis as relações sociais de produção capitalistas, o reconhecimento e a obediência cega às hierarquias, ficar preso e fazer coisas nas quais não se vê sentido,  enfim, aprende-se a viver nesse mundo e aprende-se, pela ideologia do mérito, a aceitar a distribuição que a escola opera para o “mercado” de trabalho.

Indivíduos, avaliados individualmente, que são apenas um número durante anos e convencidos de que são os únicos responsáveis por sua trajetória de vida, seu sucesso ou seu fracasso. Claro que sucesso e seu contrário também são ideologicamente construídos: significa o exercício de algum trabalho não-manual e a acumulação de determinada quantidade de riqueza material ao longo da vida. Os que não o alcançam aprendem a atribuir à sua própria incompetência individual a responsabilidade de seu trágico fim.

A verdade é que não existem postos de trabalho não-manual para todos, assim como não existe correlação entre o número de diplomados e as vagas abertas nesse grande comércio de carne humana que se chama, de forma equívoca, “mercado de trabalho”.

Não havendo essa relação direta, ocorre o fenômeno do que prefiro chamar de sobrecertificação, no lugar da batida sobrequalificação. Isso porque falar de qualidade de ensino é sempre bastante complicado, gelatinoso e, geralmente, acaba despolitizado por um discurso tecnicista que pretende medir conhecimentos que seriam imprescindíveis (decididos por quem?).

Havendo um número de diplomados sempre crescente, as empresas passam a elevar a exigência de certificação para a ocupação de postos que, há pouco tempo, bastava o ensino fundamental. Por sua vez, essa elevação provoca a corrida aos bancos escolares e aos bancos das universidades, atrás do famigerado diploma, e isso alimenta uma grande máquina de fazer dinheiro para as instituições privadas, jamais a construção do conhecimento.

A obrigatoriedade de “estudar”, essa pena que deve ser cumprida pelo único crime de ter nascido, torna qualquer coisa que signifique construir conhecimento como algo chato, enfadonho, enfim, como qualquer coisa que não se faz quando se tem possibilidade de escolher. A escola elimina a possibilidade e a vontade de construir conhecimento.

E quem são os agentes diretos dessa desconstrução? Quais são aqueles que, por vezes de forma inocente, transmitem ao longo da vida ideologia travestida de ciência à quase totalidade da população? Somos nós, os professores.

Pode-se argumentar que nem todos fazem isso. Mas não adianta coisa alguma não fazê-lo: a lógica do sistema é determinada por um objetivo, que é a necessidade da certificação. A obrigatoriedade da frequência, as notas nas malditas provas, são suportadas em nome da possibilidade de viver um pouco melhor, ou continuar a viver como se vive, mantendo posições, como faz a classe média.

Ainda que um professor se acabe na tentativa de reverter esse fim funesto, a lógica do sistema e seus demais colegas fazem o trabalho de coveiro. Busca-se a escola para poder conseguir uma inserção melhor nessas mesmas relações de exploração do trabalho, não para transformá-la. A ideologia do mérito pessoal movimenta as pessoas e é estimulada pelos professores e pelos “media” o tempo todo. Buscam a escola para lutar por sua escravidão, como se lutassem pela liberdade!

Está aí o segredo do aparelho escolar e sua importância: inculcar a ideologia dominante, distribuir os indivíduos nos postos de trabalho, garantir as condições de reprodução do modo de produção capitalista.

É como se a escola tivesse uma ação de tornar, na aparência, limpas e saudáveis essas relações. Através do processo escolar se justifica a exploração do trabalho e se faz creditar as posições às capacidades e incapacidades pessoais. A ordem capitalista é vista, portanto, como algo bastante razoável, justa e natural: os melhores avançam, os piores lhes servem.

A escola oculta as relações sociais reais, não permite que se compreenda a essência das relações sociais capitalistas, limpa a sujeira desse tipo de organização social, ou a oculta, pelo menos.

Os professores são linha de frente nessa tarefa: não limpam a bunda de gente, limpam a bunda da ordem capitalista, para que ela apareça como algo belo, justo e natural.

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5 comentários sobre “Nós limpamos a bunda da sociedade

  1. Na verdade acho que o objetivo da educação é dar instrução para que uma pessoa conviva em sociedade, aprenda a pensar por si só e aprenda os conhecimentos básicos, que serão os intrumentos cognitivos que ele se utilizará para servir ao próximo com seu talento e seu trabalho.
    A boa educação, na minha opinião, deve ensinar os indivíduos a pensar, capacitando-os a lidar com os desafios de viver em sociedade e interagir com pessoas.
    Desenvolver os talentos com os quais o aluno irá servir a sociedade é apenas uma das funções da educação formal.
    O serviço ao próximo e à sociedade não se dá somente em um regime capitalista.
    A verdade é que infelizmente, no nosso país, muitos concluem o nível médio sem saber ler ou escrever, ou seja, ganham apenas um certificado, mas, na realidade estão desprovidos do mínimo necessário para conseguirem entender como lidar com pessoas, métodos, sistemas e ideias. Logo, muito provavelmente, terão muito maiores dificuldades.
    Todas as profissões são dignas e honradas, porém, a razão pela qual no Brasil todas elas são pessimamente remuneradas, e o trabalhador male male consegue sobreviver com seu salário é uma gestão econômica porca desde os primórdios do Brasil.
    A prova disso são os países em que todos os segmentos profissionais tem boa remuneração proporcionando qualidade de vida boa a todos independentemente da profissão exercida.

  2. Penso que a realidade atual em relação ao sistema de ensino vigente, trata-se, basicamente, da estagnação mental do ser. O retardo do senso-crítico de modo que não nos tornemos uma ameaça, pois pensar é altamente perigoso.

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