“Nós limpamos a bunda da sociedade II”: reflexões sobre a violência

Cesar Mangolin

Há muita polêmica sempre que se discute o tema da violência. Dentre as tantas coisas que são mistificadas no mundo que vivemos, parece que suas causas e, principalmente, seus agentes, figuram como objetos privilegiados.

Cotidianamente famílias e amigos assistem estarrecidos a morte por motivos banais de seus membros. A televisão transmite videos de assassinatos… O sentimento de tristeza e revolta, de insegurança e medo, faz com que as vítimas potenciais, compreensivelmente,  voltem sua raiva contra os efeitos dessa hecatombe social, não havendo espaço para pensar em resolver suas causas.

Como sou adepto de “colocar as coisas no chão”, algumas constatações me parecem óbvias: 1. sempre que se fala da violência a referência é à violência praticada por indivíduos, jamais a violência do Estado e, muito menos, a violência das nossas relações, que segrega e condena milhões à miséria; 2. nosso povo vive, essencialmente, dentro da “ordem” (a ordem burguesa, evidentemente): trabalha honestamente para garantir a sobrevivência do dia-a-dia, ainda que os elementos básicos para que se mantenham vivos sejam adquiridos através de pesados trabalhos, desde os que trabalham manualmente nas indústrias aos batalhões da “informalidade”, vendendo qualquer coisa nos faróis, revirando os sacos de lixo, limpando a sujeira produzida por outros, guardando carros nas ruas etc; 3. é, portanto, uma ínfima minoria a que se propõe partir para toda sorte de crimes; 4. é notável que, com raras exceções, esses criminosos fazem parte das camadas mais empobrecidas da população, ainda que isso não sirva para justificar a sua ação.

Não tenho a pretensão de fazer a apologia do crime ou dos criminosos. Constatar os dados da realidade, porém, é fundamental para poder chegar a conclusões também mais próximas da concretude de nossas relações.

Mas, comecemos com essa minoria e as soluções que estão postas legalmente, como a cadeia. Chocam as condições dos que estão presos: sem assistência jurídica, médica, psicológica; vivem amontoados; comem mal, não têm atividades regulares, convivem com os ratos e insetos etc.

Alguns poderiam dizer que os presos, por terem praticado algum crime, devem mesmo viver assim. Boa parte da população afirma mesmo que deveriam ser mortos, pura e simplesmente, em lugar de presos. A raiva dos amigos e parentes das vítimas pode fazer parecer que a morte de um infeliz resolveria o problema. Mas vale aqui o exemplo: matar uma mosca não evita que outras apareçam, sem que a causa, ou o atrativo, seja igualmente resolvido…O fato é que, pelo menos na teoria, a pena a ser cumprida por um delito qualquer tem, por princípio, uma caráter também educativo: a tal ressocialização.

Aí é que as coisas se complicam…

Primeiro, novamente, uma constatação óbvia é que a cadeia não serve para ressocializar ninguém. Todos sabemos disso. Segundo, esse ressocializar é algo extremamente questionável.

O que isso pode significar se levamos em conta as condições de vida do grosso dessa população? Sabemos que não há postos de trabalho para todos, sabemos que suas vidas não vão mudar apenas porque querem (assim como a vida de ninguém muda ao sabor de suas vontades), que vão voltar, no geral, em condições pioradas para as mesmas perspectivas de vida e de sobrevivência, portanto, as opções são apenas duas: voltam a praticar crimes ou adaptam-se à vida de humilhação e pobreza a que são relegados seus pares (como disse no início, a maioria do nosso povo pobre).

Isso tudo me parece muito óbvio…

Menos óbvia é a ação dos agentes do Estado.

Escrevi tempos atrás, neste espaço, um texto sobre os professores, intitulado “Nós limpamos a bunda da sociedade”. Penso que podemos incluir nessa tarefa mais profissionais. Além dos professores, os policiais e demais agentes do Estado e de seus aparelhos ideológicos… Mas não é a toa que professores e policiais são os que mais procuram auxílio e os recordistas de afastamento por problemas psicológicos-psiquiátricos.

A coisa funciona mais ou menos assim: as relações capitalistas típicas de um país como o Brasil produzem um exército de miseráveis, que matam um leão por dia para garantir a sobrevivência. Grande parte dessa massa apreende através da escola e dos meios de comunicação a raciocinar segundo a ideologia do mérito pessoal, no seu aspecto negativo: aprende a atribuir a si mesma incapacidades diversas que justificariam sua miséria, subordinação e o destino de ocupar os postos mais baixos, em termos de pagamento, desse negócio de carne humana chamado mercado de trabalho.

Os agentes diretos da subordinação desse primeiro contingente são os professores, além dos eunucos do reino e demais pregadores histéricos, os meios de comunicação de massa etc. Eles dão ao resultado de relações de exploração e concentração de riqueza, próprios do modo de produção capitalista, uma aparente coerência, que nega a essência dessas relações, ao mesmo tempo em que afirma a individualidade e o mérito pessoal. Dão sentido para suas vidas miseráveis.

O segundo contingente, menor, é aquele que parte (e é questionável se há, de fato, um momento em que se toma essa opção…) para a prática de crimes diversos. Procuram, através de uma forma mais rápida e prática, resolver os problemas que envolvem a sobrevivência e a possibilidade de uma vida digna. Todos, é claro, tendo na mente o que se construiu ideologicamente como sendo sucesso em sociedades como  a nossa (basicamente, o acúmulo de quinquilharias e riqueza material). Esse contingente menor volta suas armas contra pares. Não volta, no geral, sua violência contra a burguesia. O objetivo é apenas alcançar, de alguma forma, o que foi construído como sinal de “sucesso” pela ordem capitalista e é obstaculizado pelas vias da própria ordem.

Para estes, vem o sistema penal e os aparelhos coercitivos: a polícia, o código penal, as penitenciárias. Seus agentes diretos são todos os envolvidos nesse lamaçal que se chama Justiça (com o “j” maiúsculo).

Claro que todos esses agentes fazem parte da mesma ideologia. Não reconhecem a gênese do processo, não pensam nas contradições, apenas atribuem aos que se “desviam da lei” a responsabilidade individual de seus crimes, pelos quais devem pagar em condições assustadoras.

Isso me faz lembrar de aspectos do filme “laranja mecânica”. Particularmente do método Ludovico. A grande sacada desse método não era exatamente o de fazer com que aquele rapaz violento deixasse de sê-lo. O mais interessante era a combinação da impossibilidade do exercício da violência com a incapacidade de auto-defesa: não ser mais capaz de defender-se de uma sociedade que permanece violenta, que foi quem exatamente gerou aquele comportamento.

A ressocialização dos presos é o nosso método Ludovico que, assim como no filme, acaba não dando certo.

A escola consegue aplacar a reação violenta a relações violentas antes que elas aflorem – diríamos que é uma aplicação do Ludovico antes da manifestação do ato, uma vacina que torna imunes de perceber a realidade todos os que passam por ela. Incapacitados de agir violentamente, igualmente impossibilitados de auto-defesa, procuram uma forma de inserção subordinada e lutam por sua escravidão como se lutassem pela liberdade.

Para os que a vacina não faz efeito, a ação violenta dos que detêm o monopólio da violência legitimada faz o trabalho necessário.

Novamente, a sujeira que as relações capitalistas produz é recolhida. Os que fazem esse trabalho sujo são igualmente membros desses grupos empobrecidos. Trabalham para a ordem que lhes relega esse serviço. Auxiliam na criação de condições para que a reprodução do capital continue seu sanguinário destino. Vêm sentido nisso tudo…

Assim como no filme, não é possível mudar comportamentos sem a transformação das relações sociais.

Os diversos agentes não percebem, mas também limpam a bunda da sociedade. Assim como também acabam fazendo, pela dor sentida, aqueles que pretendem resolver o problema pregando a morte dos que matam… Sem saber, apenas justificam algo que já acontece largamente em nossa sociedade e também deixam  navegar em céu de brigadeiro a ordem que gera esses efeitos danosos.

A violência cotidiana é fruto dessa ordem. Por ela somos todos responsáveis. De alguma forma, todos os gatilhos apertados têm as digitais de todos nós.

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Um comentário sobre ““Nós limpamos a bunda da sociedade II”: reflexões sobre a violência

  1. Excelente análise professor. Mas se criminosos e honestos seguem um sistema que visa servir a “entidade” capital, o que pode ser feito?

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