“Nós limpamos a bunda da sociedade III”: conhecimento e transformação social.

Cesar Mangolin

Da série “vamos voltar às aulas pensando mais ou mais deprimidos”: já postei outros dois textos com o mesmo título fazendo a crítica da educação formal neste espaço. O primeiro tratava de maneira geral do papel do professor; o segundo, associava a escola e o professor a outras profissões voltadas a manter a “ordem” social”. A insistência no título e no terceiro tema  não é em vão: muitos, ou quase a totalidade das pessoas fazem uma associação direta entre educação e um mundo melhor.

O raciocínio é simples: havendo um povo que tem acesso ao conhecimento, esse povo ganha, como que por acréscimo da deusa sabedoria, a glória de atingir os píncaros do bem viver, uma vez que sabe reivindicar melhor, escolher melhor seus representantes, exigir seus direitos constituídos etc.

Até mesmo entre a esquerda revolucionária temos exemplos dos que têm uma fé bastante grande na tarefa de ensinar como instrumento fundamental para a luta de classes, ou a famigerada “consciência de classe”, que ninguém, a não ser em termos idealistas, conseguiu ajustar bem.

Pois bem, nosso tema se restringe aqui à relação entre conhecimento e a associação da escolarização e uma vida socialmente melhor.

Temos provas suficientes desse engodo. Por exemplo: o ganhador do Nobel de física de uns anos atrás deve parecer a todos como um homem que possui conhecimentos vastos. Isso não o impediu de tratar preconceituosamente os negros e asiáticos, definidos como inferiores aos brancos por ele.

O acúmulo do conhecimento não permite, pura e simplesmente, que as pessoas pensem para além das estruturas da vida de agora. Pelo contrário: no geral, esse conhecimento obtido é exatamente aquele necessário para que as atuais relações se reproduzam. Os professores, pobrezinhos, apesar de se verem como um dos elementos mais importantes da sociedade, são os que, imediatamente, cumprem esse papel.

Ora, qualquer problemática, definida pelas questões que a envolve, deve ser compreendida pela contingência da formulação dessas mesmas questões. Isso pode ser dito, de forma mais simples e direta, que as questões levantadas diante de um problema não são formuladas de forma pura pelo intelecto puro, mas determinadas, ou sobredeterminadas, pelo meio em que se vive. É o mesmo que dizer que as questões que são levantadas possibilitam respostas dentro da mesma ordem, portanto, são, no geral, conservadoras de nascimento.

Alguns diriam que o indivíduo pode romper com essa contingência… Daí que o recurso a esta figura – o “indivíduo” – já é um retrato das possibilidades do pensar nos quadros do mundo que vivemos. Que é o indivíduo?

O subjetivo não é construído à parte do conjunto, ou do meio. Isso nos leva à conclusão que as questões levantadas, que caracterizam uma problemática qualquer, não são obra de indivíduos, mas determinadas pelas relações predominantes e pela ideologia dominante. O meio faz o homem, que não está dividido entre o público e o privado, noções jurídicas do mundo burguês que pretendem qualificar, nesse campo, dois momentos da vida: a social e a individual, assim como muitos pensadores da esquerda insistem em recorrer às idéias de sociedade civil e sociedade política.

Os padrões mais elevados de vida em países com índices mais elevados de escolaridade não são explicados por estes últimos, ao contrário: esses índices de escolaridade são explicados pelos níveis mais elevados de vida nesses países. Como chegaram até aí? Diferentes vias do desenvolvimento capitalista e, com peso maior, o papel da luta de classes nesses países.

Ainda que o Estado de Bem-Estar Social esteja em franca decomposição na Europa, sua origem remonta também às lutas dos trabalhadores que, em muitos casos, sucumbiram às concessões feitas pelas burguesias locais às custas da exploração dos povos do então chamado “terceiro mundo”.

Os mesmos vícios, o mesmo egocentrismo, os mesmos preconceitos são encontrados em países como o Brasil e nesses mencionados acima. Mudar o tom da grosseria (ou da estupidez egocêntrica) é apenas uma mudança de externa, não de conteúdo. A maneira de expressar o individualismo exacerbado também depende das condições objetivas de cada formação social. O importante é que isso é uma característica predominante das formações sociais capitalistas, independente da maneira como ela vem à tona.

O conhecimento via escolarização não leva à revolução, não leva a transformações sociais. Mesmo porque ele está, de um lado, todo carcomido pelas representações individualistas que têm da vida os infelizes humanos vivos aqui e, de outro, permeado pelo “objetivo” ou “sentido da vida” nas formações capitalistas, qual seja, o enriquecimento individual (associado à felicidade e à realização).

Os revolucionários são formados na luta, num longo caminho que tem como ponto de partida não uma aula ou um curso, mas o colocar-se em movimento porque algo está errado. É esta indignação inicial, objetiva, que pode redundar na formação de revolucionários. O acesso que têm depois às teorias não vai aparecer como o véu descortinado diante de seus olhos, mas apenas a explicação sistemática daquilo que já sentiram, daquilo que estão já vivendo, e que orienta a luta política.

Isso os intelectuais de ofício não são capazes de entender. Por duas razões: primeiro, porque lhes tira a suposta importância; segundo (e principalmente), porque estão engessados até a medula de uma percepção pequeno-burguesa do mundo. Por isso que as vertentes messiânicas do marxismo têm tão grande acolhida dentre eles. Por isso que os partidos mais esquerdistas e infantis são os que têm maior número de professores e do componente pequeno-burguês.

Por isso que Lênin sugeria cuidado especial com os intelectuais: seu caminho de pequeno-burguês a revolucionário é muito mais longo e sinuoso que o do proletário. Lênin os chamava de “lacaios diplomados”… Pena que esses intelectuais tenham tomado a maior parte da formulação progressista e de esquerda no Brasil e pelo mundo afora… Prova de que até teorias progressistas e revolucionárias podem ser absorvidas, re-significadas  e postas à serviço da ordem, mesmo que mantenham o charme e a maquiagem da revolução.

Ao consumir a todos e às teorias todas, a escola e seus agentes persistem em seu papel fundamental de reprodução e de inculcação ideológica, servindo de instrumentos importantes de base para a ideologia da meritocracia… Aliás, esse tema será o foco do IV texto desta série.

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