Os que batem panelas e os que batem cartão…

Cesar Mangolin

Ontem, enquanto a presidente falava ao Brasil, uma porção de gente em bairros de gente rica batia panelas e gritava xingamentos da sacada dos apartamentos… Vi, no programa “Fantástico” da Rede Globo, a reportagem mais escancaradamente antigoverno que poderia haver: eles editaram a fala da presidente, a coisa ficou meio sem começo e nem fim e, na sequência, deram o mesmo tempo para a cobertura dos bairros de gente rica e de classe média abastada fazendo barulho, piscando luzes e gritando impropérios contra a presidente. Feito isso, a repórter disse secamente: “O Planalto foi procurado para dar sua versão dos fatos, mas não quis se pronunciar”….

Óbvio que não quis… O que dizer dessa gente?

A não ser que tenham desenvolvido uma capacidade fora do comum, os que faziam o estardalhaço não ouviram o que a presidente dizia… Gritar, bater panela e piscar as luzes não deve permitir escutar ninguém… Os que estão em estado de histeria são bem assim mesmo… Por isso é que alguém um dia inventou que um bom tapa na cara chama a pessoa para perceber que há mais coisas ao redor.

O que ninguém viu na reportagem muito “séria” foi a filmagem dos protestos em bairros de pobres… Eles cobriram três Estados: São Paulo, Rio de Janeiro e Minas Gerais. No primeiro, os bairros que tiveram a barulheira foram Moema, Morumbi, Itaim Bibi… No Rio, Ipanema e Leblon… Em Minas, os bairros chiques ao redor da Pampulha…

Quem é desses Estados deve saber o quando custa o metro quadrado nesses bairros e, portanto, entender bem de onde vieram os protestos… Nos bairros pobres eles não ocorreram e podem ter certeza de que não foi pela ausência de equipes de televisão: a Globo faria com todo gosto uma ampla cobertura de trabalhadores pobres protestando contra o governo.

Para além das irresponsabilidades de uma porção de organizações e de gente, devemos reconhecer que o discurso do “é tudo igual” está superado pela objetividade dos fatos… Fossem iguais os governos do PT e do PSDB não haveria razão para a raivosa articulação que tem os setores médios como marionetes e pontas de lança.

E, de fato, não são iguais. Já insisti nisso aqui em outros textos. O fato mesmo é que enquanto a vida muda sensivelmente, os mais empobrecidos conseguem perceber que isso resulta de uma porção de políticas públicas, portanto, sabem reconhecer o papel do Estado e desses governos em alguns campos da vida. Ora, três milhões de casas populares entregues, a redução drástica do problema da fome, a erradicação da mortalidade infantil em alguns Estados, a garantia da venda e, portanto, o estímulo à produção da agricultura familiar, aumento real do salário mínimo, enfim, uma porção de medidas e programas mudaram sensivelmente a vida dos mais empobrecidos. Alguns vão dizer: “Mas ainda há muitos problemas”, “O governo ainda é da ordem burguesa” etc, etc.. Não há dúvida de que há problemas enormes ainda, mas apenas a vontade política de resolver outros problemas seculares já torna esses governos do PT o que houve de mais progressista na história da República. Podemos ir adiante, sem dúvida, com o caminho já aplainado em setores diversos, abrindo novas possibilidades. Por honestidade, por responsabilidade e por ser minimamente sensível aos dramas sociais que vivemos secularmente é que esse governo deve ser defendido de qualquer ameaça que queira fazer retroceder os avanços sociais dos últimos 12 anos.

Os setores médios também sentiram as mudanças. Eles também puderam viajar mais, comprar mais carros, porcarias eletrônicas, ter mais acesso a crédito, às universidades…. Mas por qual razão esses setores servem de bucha de canhão para os setores mais reacionários, em particular o grande capital financeiro, que se ressente das migalhas lançadas ao setor produtivo e da taxa de juros não viver mais na média dos 30%? Por que tornam-se porta-vozes de interesses internacionais, que não enxergam com bons olhos esse país imenso da América do Sul fazendo negócios com Rússia e China em lugar de sua histórica e rastejante posição de satélite dos interesses dos EUA?

O problema é que os setores médios possuem um sonho e um medo: o sonho é do aburguesamento individual; o medo é o da proletarização. Tudo o que ocorre, esse insano grupo de pessoas acredita ser apenas e tão somente produto do seu mérito pessoal, não podendo reconhecer, portanto, que as mudanças que ocorreram nos últimos anos no Brasil melhoraram também sua vida… Mas o sonho de ser burguês e o medo de se proletarizar envolve o que é individual e o que é coletivo… Enriquecer deve ser algo individual, porque os ideais de “sucesso” gestados na ordem capitalista não passam apenas pela aquisição de bens materiais: passam necessariamente por algum grau de distinção, para que a riqueza seja ostentada e reconhecida. A proletarização é coletiva, e nesse caso não significa empobrecimento. Na cabeça dos setores médios, o acesso de camadas miseráveis da população a condições mais razoáveis de vida, o acesso a espaços que lhes foram sempre bloqueados, a determinadas carreiras, determinados serviços, enfim, a proximidade dos “pobres” que já não vão aparecer tão pobres assim joga areia no seu projeto individual, amplia a concorrência, faz com que se percam os canais tradicionais de sua manutenção e justificação em determinados postos e carreiras… Por isso reagem com tanta raiva aos programas sociais, com tanta raiva contra as cotas, com tanta raiva contra governos como os dos últimos 12 anos…

Esse ódio está expresso nas redes sociais de todas a maneiras possíveis, mas com o tom histérico de sempre. Eles são violentos, distorcem informações, descambam para o ataque pessoal, pregam valores egoístas e odiosos e demonstram ainda largo desconhecimento da nossa história recente…

Mas não querem discutir as coisas: querem apenas gritar, querem a cabeça da presidente, mas não sabem exatamente porque querem isso… Como bons histéricos, não conseguem perceber que o ambiente exterior não está no mesmo patamar que o da sua loucura.

Mas os que batem cartão não estão histéricos, nem do lado dos que querem derrubar a presidente porque ela ameaça interesses de setores poderosos, nem daqueles que querem que a presidente se dane porque o PT não fez a revolução socialista. Ainda que residualmente recebam as influências desses discursos infantis, os donos da histeria são ainda os setores médios, a pequena burguesia de direita e de esquerda.

Por isso vale esperar que os que batem cartão e têm muito a perder com essa onda saibam dar um belo tapa na cara dos batedores de panelas histéricos…

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8 comentários sobre “Os que batem panelas e os que batem cartão…

  1. Ai fica a pergunta, quem são os ignorantes afinal ? Os nordestinos, os mais pobre?
    De vez em quando fico que deu a oportunidade pra esse bando de reaça ir pra Disney e agora fica puto porque está mais difícil, justamente pra atender o capital financeiro, os Marajas que a classe média cor de rosa tanto idolatra.
    Parabéns professor, bela reflexão.

  2. Toda conduta humana é determinada pelo interesse próprio, a procura do prazer, a fugir do sofrimento. Essa bela peça de diarreia mental em que eles representa é nossa velha conhecida, já não nos representa mais. O importante é que eles não façam a maioria.

  3. Ola professor, eu moro na periferia e lá ninguém bateu panela. O povinho de Ipanema, Copacabana, Leblon, Higienópolis, Jardins e Vila Mariana, entre outros, na verdade se desesperam é quando uma familia emergente, portanto, “diferenciada” muda para o bairro “deles”. Abraços

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