A récua é do setor médio, majoritariamente branca e de direita.

Cesar Mangolin

A afirmação que dá título ao texto saiu no The Guardian, jornal britânico sobre o qual não pesa nenhuma suspeita de ser simpático aos comunistas, que estampou a manchete de uma manifestação de “direita e de gente branca”, o que os levou à compreensão dos estratos que participavam das manifestações de domingo. Além disso, observaram, no final da matéria, que os partidos ligados aos trabalhadores fizeram uma manifestação menor na última sexta, desvencilhando portanto os trabalhadores e suas organizações dessa papagaiada de ontem.

Por detrás dos discursos de insatisfação com a vida devido à crise que bate em nossas portas, as manifestações que ocorreram no domingo demonstraram apenas o que já temos tratado aqui neste blog desde meados de 2013…

Ontem pudemos perceber qual é o componente básico desses protestos e suas principais e esdrúxulas palavras de ordem. Em meio a suásticas nazistas e camisas da seleção brasileira, um público majoritariamente branco e de classe média pisou nas ruas das grandes cidades brasileiras, pelas quais passam geralmente apenas dentro de automóveis com vidros bem fechados.

A caracterização merece ser pensada: é a classe média; é uma elite branca; é de direita.

Não vou gastar tanta energia com o item “elite branca” (isso vale outro texto somente para o tema), apesar de ser o mais polêmico. Apenas vale insistir que não se trata de procurar negros nos protestos, embora fossem poucos mesmo. A passeata era nas ruas e quem quisesse poderia participar. Há, inclusive, uma camada pequeno burguesa negra no Brasil. Não é numericamente que este componente está ausente, mas culturalmente e o que significa historicamente: aqueles aos quais foram relegadas as posições menos remuneradas na divisão do trabalho. Mas ainda vale ressaltar a admiração dos ingleses do The Guardian em não encontrar (no caso deles, numericamente mesmo) os negros (maioria da nossa população) em número expressivo nas passeatas.

Os cartazes expressaram a combinação das três características, embora não estivessem sempre escritos em bom português e alguns deles escritos em inglês (!), visto que faz parte da récua abanar as orelhas aos seus senhores.

Tentemos entender os setores que compuseram esses protestos então.

A crítica aos governos petistas, que fazemos no sentido de avançarmos em medidas progressistas para os trabalhadores, passa necessariamente pelo reconhecimento de suas ambiguidades. Fundamentalmente, é preciso jamais esquecer que são governos da ordem burguesa, portanto, é óbvio que operam no sentido de manutenção dessa ordem e no atendimento prioritário dos interesses das frações do capital. Mas esses governos operaram uma mudança na maneira de atender a esses interesses: num momento de grave crise, que marcou o segundo mandato de FHC, Lula assumiu a presidência com o compromisso de dar continuidade a essa ordem, mas também com a possibilidade, aberta pela crise e pela insatisfação popular, de tomar medidas que mudariam substancialmente a vida dos trabalhadores e da população mais empobrecida.

Aumento real do salário mínimo e dos salários em geral; redução drástica do desemprego; programas sociais de renda mínima casados com o incentivo ao pequeno produtor e à formação profissional para retirar da miséria milhões de brasileiros; redução da fome e da população em situação de miséria; ampliação do acesso à educação formal; ampliação do acesso a casa própria para todas as faixas de renda… Enfim, medidas que possuem efeitos contraditórios, não há dúvida, mas que modificaram a vida de todos os brasileiros. Todos.

Ninguém pode afirmar que vive hoje pior do que vivia em 2002. Essa mudança tem relação com a ação desses governos. Os setores médios não percebem isso evidentemente: acreditam que o que melhorou foi apenas fruto do seu mérito pessoal…

O fato mesmo é que, independentemente das contradições que ainda vivemos e da ordem burguesa, os que se opõem a este governo o fazem por duas razões: criticam o governo por seus méritos, não por seus defeitos; expõem um ranço conservador que despreza qualquer organização que carregue o nome de “trabalhador” consigo…

As frações do grande capital se ajustaram e algumas (mais que outras) encontraram maneiras de ampliar seus lucros. A estabilidade do país e sua cada vez mais respeitada posição na cena internacional facilitou isso.

Mas a chegada da crise e a disposição histérica da récua cor-de-rosa em pedir a cabeça da presidente faz acender, no entanto, uma nova luzinha para essas frações, em particular para a do grande capital financeiro. A possibilidade de quebrar, via golpe de qualquer tipo, o ciclo petista e colocar em seu lugar um novo ciclo de gente e partidos mais fiéis aos seus interesses aparece como um negócio interessante. A mídia, que se vê diante de uma disposição do governo de estabelecer sua regulação, embarcou com tudo no mesmo projeto. Governos, como o dos EUA, incomodados com as relações brasileiras com o novo bloco formado pela Rússia e China, pelo apoio à Venezuela, à Cuba e a experiências progressistas ocorridas no cone sul, como no Uruguai, vêm também com otimismo a possibilidade do golpe.

O resultado é essa gente toda nas ruas, estimuladas pela grande mídia e por campanhas caras, pagas por alguém… Como já disse aqui, a histeria coletiva faz essa massa nem saber exatamente o que pedem, nem as consequências desse processo.

Os setores médios sempre estiveram ali à direita, fazendo o papel que lhe foi atribuído pelas elites: no suicídio de Vargas, na derrubada de Jango…. Estiveram também no apoio do fascismo na Itália em 1922, do nazismo na Alemanha em 1933… Em todos os casos foram largamente prejudicados: são marionetes, base social de manobra para os interesses do grande capital. Não os que se beneficiariam do resultado.

Têm disposições à direita. Repito aqui algo já dito em outros textos. O problema é que os setores médios possuem um sonho e um medo: o sonho é do aburguesamento individual; o medo é o da proletarização. Tudo o que ocorre, esse insano grupo de pessoas acredita ser apenas e tão somente produto do seu mérito pessoal, não podendo reconhecer, portanto, que as mudanças que ocorreram nos últimos anos no Brasil melhoraram também sua vida… Mas o sonho de ser burguês e o medo de se proletarizar envolve o que é individual e o que é coletivo… Enriquecer deve ser algo individual, porque os ideais de “sucesso” gestados na ordem capitalista não passam apenas pela aquisição de bens materiais: passam necessariamente por algum grau de distinção, para que a riqueza seja ostentada e reconhecida. A proletarização é coletiva, e nesse caso não significa empobrecimento. Na cabeça dos setores médios, o acesso de camadas miseráveis da população a condições mais razoáveis de vida, o acesso a espaços que lhes foram sempre bloqueados, a determinadas carreiras, determinados serviços, enfim, a proximidade dos “pobres” que já não vão aparecer tão pobres assim joga areia no seu projeto individual, amplia a concorrência, faz com que se percam os canais tradicionais de sua manutenção e justificação em determinados postos e carreiras… Por isso reagem com tanta raiva aos programas sociais, com tanta raiva contra as cotas, com tanta raiva contra governos como os dos últimos 12 anos…

É esse amálgama de interesses confluentes por parte de setores do grande capital (fração financeira, empresas da grande mídia, interesses imperialistas, em particular, dos EUA) e dos difusos (e confusos) interesses dos setores médios que dá forma aos que pedem o fim do governo Dilma.

Conseguir ou não o que intentam vai depender dos desdobramentos do final de semana: é o fôlego das organizações dos trabalhadores de um lado e o dos coxinhas histéricos de ontem quem dará a tônica do processo. Eles têm a-poios poderosos, sem dúvida. Mas acreditamos que as organizações progressistas e de esquerda saberão tomar posição e aglutinar mais forças para o combate. Quem define o resultado disso, quem define se avançamos ou retrocedemos é, sem dúvida, a luta de classes.

Obs.: “récua” é um coletivo de jumento… Também pode ser, no sentido figurado, “corja”. Mas eu prefiro o primeiro…

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8 comentários sobre “A récua é do setor médio, majoritariamente branca e de direita.

  1. esse texto é um assalto ‘a inteligência e capacidade de observação de qualquer brasileiro. o brasil é feito de muitas cores, paspalho, e qquer um pode ver isso nas pessoas protestando.

    1. Carlos, não sei quem é você, mas “democraticamente” aprovei sua mensagem, embora não me considere u paspalho… Talvez o epíteto caiba mais a quem leu o texto e não soube interpretá-lo corretamente. Sugiro que leia de novo… Mas você não é, obviamente, obrigado a concordar comigo. O que qualquer um pode ver não costuma ser mais que as aparências das coisas…. Não pauto minha análise por essas impressões. Nem ofendo pessoalmente aqueles que não conheço.

  2. Boa noite César,

    Você acredita que os atos ocorridos nesse domingo possa vir a ser uma reedição da marcha pela família de 1964? Sei que não temos a conjuntura da guerra fria, porém fazendo uma análise no calor dos acontecimentos, vejo os mesmos atores: os setores médios conservadores e a grande mídia golpista, com a diferença ao meu ver, que agora a rede Globo faz as vezes da igreja católica, com um desempenho invejável, haja vista a ampla cobertura feita. Também gostaria de saber sua opinião a respeito de como a esquerda deva reagir, já que infelizmente como sabemos como quase sempre acontece (como ocorreu em 2013), os partidos de esquerda fazem análises equivocadas, como se o descontentamento fosse contra o governo do PT, porém na realidade, todos que estão à esquerda saem prejudicados, pois para os conservadores o ódio é contra o que o PT representa, ou seja, contra um governo dos trabalhadores. Acredito ser o momento de unir, não de se fazer mais oposição. Podemos não concordar com a manutenção da ordem burguesa mantida pela administração petista, mas negar avanços socias seria incoerente. Qual caminho tomar?

    Forte abraço.

    1. São muitas questões. Eu, sinceramente, não pretendo ter respostas precisas para todas elas. mas podemos pensar que algo semelhante tem acontecido na história do Brasil sempre que temos governos que voltam os olhos para os mais empobrecidos e também à capacidade produtiva interna. Nesses momentos os interesses de algumas frações do grande capital se juntam e os setores médios são sempre mais sensíveis em defendê-los, ainda que sempre se ferrem com o resultado. Penso que a esquerda consequente deve se posicionar contrária à onda golpista, ocupar também as ruas e, ao mesmo tempo, pressionar o governo no sentido de que avance nas reformas populares e não o contrário. Seria um grande retrocesso para os trabalhadores a derrubada desse governo e as condições de luta que encontrariam mesmo os que pretendem construir algo para além da ordem burguesa. Continuemos conversando. abraço!

      1. Mesmo sabendo ser utopia, acredito que esse é o momento do governo petista trabalhar para aqueles que realmente bancaram esse mandato da Dilma, que no crescimento dos liberais na última eleição, deram uma resposta e defenderam a presidente, mesmo já tendo sido traídos anteriormente. O PT teria que verdadeiramente trabalhar em prol dos trabalhadores, e infelizmente não parece que irão fazer isso, principalmente depois dos discursos proferidos pós manifestações, estão colocando panos quentes e procurando conciliação com quem quer tirá-los a força. Sei que temos que formar uma frente ampla da esquerda para manutenção não desse governo, mas em defesa das parcas conquistas dos trabalhadores nesses últimos 12 anos, e claro contra esse fascismo golpista travestido de democrático, porém, devo concordar com o camarada Diego, tá difícil de defender….

        Abraço.

  3. Caro ompanheiro Cesar;

    O problema é que esse governo não reage. Apanha e fica calado….. Fica dficil até de defender.
    Abraços

  4. Ao ler este post me lembrei do grupo de estudo da uniesp quando comentávamos sobre ideologia alemã.

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