A Globo e a bobalização

Republico aqui um post de uns três ou quatro anos atrás… A ação midiática não é, sem dúvida, a única responsável pela histeria que tem movido os setores médios às ruas pedindo a cabeça da presidente, mas cumpre um papel fundamental. O empenho dessas grandes empresas tem razão de ser: são grandes corporações capitalistas, ameaçadas pela tentativa de regular o setor por parte do governo e estão envolvidas (as “famílias” e seus principais apresentadores) num grandioso esquema de sonegação fiscal, via contas “secretas” do HSBC no exterior, que bem vale a pena ofuscar e retirar de pauta. É o mesmo esquema que fez economistas da Europa afirmarem tratar-se do maior escândalo de evasão do mundo, o mesmo também que aponta o PSDB como dono de contas que passam dos cento e tantos bilhões de dólares… No início do texto, escrito em outra conjuntura, prometi que não gastaria mais tempo com a Rede Globo… Mas ainda vale persistir na sugestão para a reflexão.

A Globo, a Globo… Depois de ver que agora a globeleza faz chapinha e que o samba se rendeu aos encantos do plim-plim, com versinhos pobres de Arlindo cruz, eu que já não esperava nada de interessante dali acabei por jogar a toalha de vez. Não vou mais gastar tempo falando ou escrevendo sobre a Globo. Prometo que é a última vez.

O povo não parece fazer questão alguma de pensar de forma um pouco mais crítica a sua própria bovinização. Não há nada de mais escancarado e mais discutido e mais divulgado que o papel nefasto desta emissora ao longo das últimas décadas. Não temos inocentes aqui: é necessário ser muito desligado e completamente ignorante para nunca ter lido, ouvido e visto alguma crítica razoável às distorções efetuadas por aquela gente que decretou que vivemos numa aldeia global.

Claro que as demais emissoras e outros meios de comunicação tomam a mestra como padrão. As críticas não servem apenas à rede Globo, mas a todos os meios de comunicação de massa, concentrados nas mãos de alguns poucos bilionários. Grupos poderosos que interferem decisivamente na vida política do país e nas possibilidades de acirramento da luta de classes.

Apesar da origem pública do sinal concedido, governo algum ousaria, dentro desta ordem, a afrontar o poder dos que, de fato, compartilham o poder econômico e político.

A música de Arlindo Cruz diz no refrão que o “povo escolheu a Globo, isso é globalização”. Não vamos exigir rigor teórico de uma letra medíocre (aliás, de nenhuma letra ou poesia, ou discurso). Porém, vale já salientar que a tal globalização é um conceito ideológico, que tem servido para diversas malandragens e como justificativa para qualquer safadeza mundial. Ao inferno a música e a globalização, então.

Chama a atenção uma inversão bastante curiosa. O povo não escolheu a Globo: ela foi enfiada goela abaixo dos brasileiros e eles aprenderam a gostar do que vêm ali.

Essa é uma inversão bastante comum no mundo que vivemos: há uma crença de que a produção das mercadorias também obedece à demanda por elas. Sabemos que a produção capitalista gera não somente a demanda, mas também um tipo de consumidor próprio.

A mesma coisa pode ocorrer com relação aos expectadores da televisão brasileira. Eles não escolhem nada: os produtos lhes são impostos e geram não somente a necessidade do seu consumo (novas necessidades, por vezes…), mas também moldam um tipo específico de consumidor. Esse consumidor específico é o santamente bovinizado, egocêntrico e ignorante que vê nas telas um ideal de vida tão estupidificado quanto a sua própria vida real, embora com cores diferenciadas.

Há espaço para ver desgraças ocorridas com os outros, momento de agradecer a deus por não ser com ele próprio; há espaço para as pregações e louvações diversas, afinal, uma fezinha não faz mal a ninguém; há o momento de assistir dramas imaginários e uma vida imaginária; há momentos para rir; há espaço até para ver gente de plástico vivendo trancada e fazendo micagens, alimentando sonhos, declarando o egocentrismo e o hedonismo como valores universais e, às vezes, até fazendo sexo.

É curioso, retomando o que disse mais acima, que muita gente tem consciência disso, mas a coisa funciona como um vício: você sabe que faz mal, mas não consegue largar. Isso me faz lembrar da questão da ideologia, que estudo de um jeito um pouco diferente dos que fizeram do marxismo uma antropologia essencialista ou uma sociologia do trabalho.

Ainda que o recurso à ciência possa fazer perceber, para além das aparências, a estrutura das relações sociais reais sob as quais vivemos, tal conhecimento não faz, pura e simplesmente, com que se mude de postura ou se lute contra a ordem capitalista. É como se a ideologia fosse algo mais arraigado, mais profundo, como se correspondesse ao real por mais que a teoria possa afirmar seu caráter de limitação aparente, e ainda que a teoria parta e tenha como objetivo último desvendar esta mesma realidade.

É como se estivessem todos embebidos de um líquido alucinógeno: ainda que sabendo que as coisas que vê e vive são efeitos da droga ingerida, acreditam nelas. Ou, podemos até aceitar que a resignação diante da vida como é faz com que tal opção coloque a todos numa zona de conforto e faça do umbigo de cada um o seu universo.

Ser imbecil por opção não deixa de ser uma opção.

Mas, caso o nosso sambista queira mudar um dia o seu refrão, penso que ficaria mais feio, porém mais correto assim:

“Não é mole não, não é mole não, a Globo idiotizou o povo, isso é bobalização”.

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3 comentários sobre “A Globo e a bobalização

  1. Caramba professor, voce e o cara! diz tudo o que e necessario e que a midia tenta camuflar sem precisar usar aquele famoso tom arrogante e exibicionista, utilizado pela maioria dos escritores, teoricos entre outros pra forçar muitas vezes a compra da ideia ilusoria de uma pessoa culta, inteligente, esclarecida e com “acumulo” de bibliografias…o que de fato voce e, sem precisar desse tipo de manobra pra isso.

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