Sobre os ovos da serpente: o exército fantoche da PM

João Quartim de Moraes

O EXÉRCITO FANTOCHE DA PM

Quando a água ferve muito, vira vapor; quando esfria muito vira gelo. Chamar 100° a primeira transformação, 0° a segunda, é convenção, mas ebulição e congelamento são fenômenos naturais que expressam a dialética da transformação da quantidade em qualidade. Quando uma aglomeração humana se torna multidão, vira força social. Quanto maior a multidão, maior a influência que pode exercer na cena politica. Por isso os grandes trustes audiovisuais, que são safados, mas não são bobos, empenharam-se em subestimar descaradamente o número dos trabalhadores que participaram da manifestação democrática do dia 13 e em superestimar, com ainda maior descaramento, o tamanho da multidão reacionária que foi às ruas no dia 15.

Seria um grave equívoco descartar como secundária a importância de uma avaliação objetiva desses números. Vale neste, como em tantos outros confrontos, o antigo preceito de Sun Tzu, grande mestre da arte da guerra:

Conhece teu inimigo, conhece a ti mesmo, travarás sem temor cem batalhas”

Conhecer os inimigos começa por saber quantos são, continua por avaliar quantos mais eles são capazes de mobilizar. Em São Paulo, a superestimação dessa capacidade foi grotesca. Durante a tarde do dia 15, os canais de TV do cartel mediático, eufóricos com o grande afluxo de manifestantes à avenida Paulista, começaram a inflar os números para melhor celebrar a apoteose dos coxinhas. Em menos de uma hora, as “estimativas” saltaram de dez para cem mil, depois duzentos e logo em seguida, num salto não dialético, a um milhão e duzentos.

A fonte dessas desinformações era a Polícia Militar, a qual

a respeito da grande manifestação popular realizada nesta data (15/03), na região da Avenida Paulista, ratifica suas estimativas de público em aproximadamente 1 milhão de pessoas, de acordo com a aplicação de sua ferramenta tecnológica “COPOM ON-LINE”, que utiliza recursos de mapas e georreferenciamento, baseadas nas imagens aéreas colhidas por um dos helicópteros Águias, determinando a extensão principal da manifestação, bem como, a ocupação das ruas adjacentes adotando como parâmetro de cálculo, naquele momento, de 5 pessoas por metro quadrado”.

A PM, mais conhecida pela “aplicação” de outros tipos de “ferramentas tecnológicas”, manipulou grosseiramente os dois fatores da multiplicação. Observadas do alto de um de seus helicópteros, que se chamam Águias, mas são pilotados por tucanos, as “ruas adjacentes” ampliaram-se desmesuradamente; quanto ao parâmetro de “5 pessoas por metro quadrado”, tracem um quadrado de 1 metro e juntem dentro cinco humanos de estatura e envergadura média, depois comparem com as inúmeras imagens da multidão facho-coxinha e verão o tamanho da mentira da PM.

Embriagados com o espetáculo da multidão furibunda babando ódio contra a esquerda, insultando a presidente, vociferando contra tudo que lhes parecia vermelho, de Cuba e Venezuela até a Rússia (a ignorância da reação é um poço sem fundo), os psitacídeos mediáticos foram repetindo enfaticamente os números inventados pela polícia de Alckmin. Achando, porém que a histeria estava indo longe demais e acabaria desacreditando qualquer avaliação séria, o Datafolha calculou, mais razoavelmente, em 210 mil os manifestantes em sua máxima concentração. Embora o número seja muito menor do que o dos participantes das paradas do “Orgulho Gay” (estas sim, ultrapassando a casa do milhão), ele é grande o bastante para reforçar a campanha golpista.

Além de falta de seriedade ao fabricar um exército fantasma de cerca de 800.000 figurantes quiméricos, a PM mostrou, com seu excesso de zelo no apoio ao “fora Dilma”, a hipocrisia da tucanagem e de outras formações da direita, que se queixam incansavelmente do “aparelhamento” da máquina do Estado pelo PT, mas instrumentalizam sem pudor os aparelhos do Estado sob seu controle.

Longe porém, de estar sozinha na promoção da ofensiva reacionária de 15 de março, a PM contava com muitos parceiros dispostos a pôr a mão na massa. Como foi bem assinalado nas Notas Vermelhas do Portal Vermelho (a cor proibida nos atos golpistas), a Federação Paulista de Futebol, cujos cartolas não parecem credenciados para estar à frente de um combate contra a corrupção, antecipou para as 11:00 um jogo do Palmeiras que estava marcado para as 16:00, afim de permitir que a torcida fosse torcer pelo golpe. O metrô foi liberado para transportar grátis os coxinhas menos endinheirados e o cartel da notícia, em ordem unida, assegurou em todos os pormenores a propaganda e a divulgação da grande revanche dos derrotados nas urnas de 2014. Por isso mesmo, defender o mandato da presidente Dilma (o que não implica necessariamente concordar com as medidas que seu governo tomou ou venha a tomar) é defender o princípio da soberania popular expresso no sufrágio universal.

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