Olavo de Carvalho e a miséria da razão miserável…

Cesar Mangolin

Nunca dei atenção a esse sujeito que, de terras distantes, tornou-se um dos gurus da récua histérica que pretende derrubar o governo eleito legitimamente.

Tenho escrito aqui que o governo tem reagido muito mal a essas movimentações. Isso ocorre porque entende de maneira equivocada suas intenções e motivações. A récua não vai às ruas por causa da corrupção e pela reforma política: grita pela cabeça da presidente e pela extinção de tudo que cheire a trabalhador, ainda que à maneira petista de sê-lo. Já insisti no fato de que a miséria e a pobreza são os esteios da classe média: é pela manutenção daquelas que esta se justifica diante da burguesia como quem deve ocupar os postos melhor remunerados na divisão do trabalho. Isso explica a razão de sua insatisfação sempre que um governo atua no sentido de elevar as condições de vida das populações fadadas à miséria, particularmente quando isso começa a aparecer no acesso à educação formal e a determinados serviços antes obstaculizados a elas.

A coisa tem ido mais além: não basta derrubar a presidente, é necessário eliminar tudo que lembre esquerda da cena política nacional. Foi isso que me chamou a atenção para esse sujeito rasteiro que se diz filósofo… As e os “olavetes”são tão ou mais rasteiros que o guru, sem dúvida, mas mantêm o mesmo nível miserável de argumentação, numa redução à miséria de uma razão que já é, por si mesma, miserável.

Vejamos um exemplo: Olavo de Carvalho diz que não participa de nenhum dos grupos organizados para derrubar a presidente, mas colabora com todos eles. Dá, na sequência, a orientação para o momento, em quatro passos:

“1 – remoção da sra. Deu Uma da presidência;

2 – fechamento do PT e demais partidos do Foro de São Paulo;

3 – proibição das atividades do Foro de São Paulo em território nacional;

4 – Cadeia para os ladrões de dinheiro público”.

Reproduzo integralmente como aparece no texto do próprio, numa rede social. Percebam bem: somente no item 4 há uma genérica figura: os “ladrões de dinheiro público” que devem ir para a cadeia… Os outros três pontos se referem à necessidade de eliminação de qualquer coisa que lembre esquerda no Brasil. Insisto novamente: o que é mais necessário para que compreendam (gente de esquerda inclusive) que esse problema é um pouco mais amplo que apenas o ataque a este governo ou ao PT e seus supostos erros? Atribuir a crise política atual aos erros do PT é o mesmo que atribuir o acidente de carro ao motorista, embora estando dentro do carro. As consequências de um movimento aparentemente acéfalo como esse podem ser terríveis…

É aparentemente acéfalo porque o insano “filósofo” recomenda aos manifestantes que não se preocupem com o resultado do processo: se será renúncia, impeachment ou intervenção militar. O mais importante é que persistam nas ruas. Ele diz: “protesto de rua não é hora de discutir meios, estratégias e táticas”. Curioso, não? O fato mesmo é que massa amorfa e histérica que vai às ruas como uma grande soma de umbigos apenas não deve se preocupar com os rumos das manifestações: sem dúvida, há quem pense e direcione as coisas por ela.

Há muito dinheiro e muita gente trabalhando para isso. Não será, assim como jamais foi, a própria classe média histérica quem vai resolver o que fazer.

Não penso que essa ameaça seja tão grande assim, mas temos aventureiros que topariam uma saída dessas, havendo base social para tanto, para lucrar alguns dólares extraordinários, para limpar o terreno de concessões que foram necessárias na crise do início dos anos 2000, mas que agora, em outro cenário de crise, tornam-se inoportunas…

Enfim, a expressão mais miserável dessa razão miserável, que podemos encontrar em Olavo de Carvalho, Lobão, Bolsonaro e outros gurus da récua, expressa com letras garrafais que o problema é de classe, que se trata de um movimento reacionário, de direita, golpista e que pode trazer muitos danos aos trabalhadores brasileiros e um retardo terrível à já combalida luta de setores progressistas e de esquerda. Subestimar esse momento é um grave erro.

Por fim, vale ainda chamar a atenção para a miséria da argumentação desse sujeito obtuso. O trocadilho com o nome da presidente no primeiro item é digno de dó. Pelo que pude ler das postagens do infeliz, essa é uma prática corrente. Associações infelizes, trocadilhos pobres, alguns permeados por machismo, por discriminação de orientação sexual e por aí vai. Por exemplo, ele se refere ao recém-nomeado ministro da educação como “vigarista” e “bundão”, chama FHC de “sociologuinho chinfrim” e Florestan Fernandes de “burro”…

Nem vale insistir… Mas é um sintoma que justifica já o título deste texto. Olavo, o “filósofo da récua”, se utiliza de expressões histéricas e ofensivas para tentar dar munição aos seus tresloucados seguidores. Ainda que reconheçamos o direito que ele tem de se apresentar como filósofo, não encontramos ali nada que se aproxime dessa palavra e dessa atividade. Mas também não reprovamos a qualquer maluco dizer-se Napoleão ou Deus… Independente do que pensam de si, a verdade mesmo é que, no geral, o que se pensa de si mesmo corresponde muito pouco ao que se é na realidade, assim como não podemos entender um momento qualquer da história pela consciência que tinham dele os que ali participavam.

Mas o subsolo da miséria da razão miserável encontra ouvidos ávidos , mas por escutar o que querem, de antemão, ouvir. Olvavo chama isso de filosofia… A história chama de marionetes, de massa de manobra… A psiquiatria chama de histeria… E quanto mais coletiva, mais burra é – do guru ao mais singelo abanador de orelhas.

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3 comentários sobre “Olavo de Carvalho e a miséria da razão miserável…

  1. Muito bom, direto e esclarecedor. Já algum tempo eu pensei em sugerir escrever sobre esse sujeito, mas pensei que ele não merecia atenção. Um abraço!

  2. Muito bom, direto e esclarecedor. Já algum tempo eu pensei em lhe sugerir escrever sobre esse sujeito, mas pensei que ele não merecia atenção. Um abraço!

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