Para celebrar a vida: uma reflexão sincera sobre a vida e sobre a morte.

Cesar Mangolin

Publiquei esse texto, com algumas modificações, três anos atrás. A reflexão é sobre a vida e sobre o momento em que ela não existe mais… Vale para celebrar o aniversário e agradecer as inúmeras mensagens que tenho recebido ao longo do dia. A vocês todos meu muito obrigado e minha gratidão.

Último ano turbulento este que passou…  Muitas questões envolvendo a saúde de gente próxima, pessoas próximas que se apagam naquele momento crucial que separa a vida e a morte. Como saber o que é isso? Por mais proximidade que haja, somente sabe da morte quem passa por ela. Visto que a morte é o fim de tudo, talvez devamos neste assunto seguir Epicuro e tratá-la como algo que não merece preocupação: quem está vivo não sabe do que se trata, àquele que morre já não importa.

Mas outra coisa me chamou a atenção: meus agora quarenta e três anos completos permitem perceber que adentro num novo momento. O momento em que a morte dos mais próximos, mais velhos e da mesma idade começa a ocorrer sem que tenha a dimensão trágica e excepcional dos anos anteriores.

Quando somos mais jovens a morte parece algo fora da regra, por razões óbvias. As mesmas razões, aliás, que valem para essa nova fase, ou seja, estamos numa idade em que morrer é parte do cotidiano e não algo distante. É como se estivéssemos entrando no início de uma curva semelhante ao desenho frontal de um chapéu: a aba representa graficamente menos casos, que vão aumento e se concentrando ali nos 55 ou 60 anos até os 70 ou 75, para novamente cair na aba aposta, afinal poucos, estatisticamente, morrem antes dos 55  e depois dos 75.

Fora a mania de quantificar e a queda por esquematismos, vale mais aqui pensar que estamos na fase em que nossos amigos começam a morrer e isso é muito normal.

Apenas os tolos ainda acreditam que vivemos para a felicidade: a vida, plena de contradições, de prazeres e de sofrimentos, não pode ser classificada, por sua dinâmica mesmo, como algo que possui finalidade. Vivemos, apenas. Uma parte disso depende de nossa ação, que é contingente, mas outra grande parte é produto do acaso, do aleatório, de encontros que “pegam” e outros tantos que não, como diria o último Althusser.

A influência cristã em nossa cultura nos ocupa demais da morte. Pobres diabos, pecadores  capazes de assassinar o próprio deus, nos rastejamos a vida toda implorando misericórdia e perdão de um  ser que nos colocou no “vale de lágrimas” somente porque assim o fez, afinal, é perfeito e é um atributo da perfeição a ausência de privação, portanto também de vontade. A esperança da outra vida, muito melhor ou desgraçadamente pior, e o temor do juízo final parecem obscurecer esta mesma vida aqui, a única que é certa pelo simples motivo de cá estarmos.

A certeza da morte, ainda que em tempo e condições incertas, pode nos fazer viver de outra forma. Outro jeito que despreze a esperança da felicidade total que nunca chega e, ao mesmo tempo, abandona os temores e as incertezas da vida futura. Uma ética para esta vida e não para justificar a que supostamente vem.

De novo me vem à mente Epicuro: viver prazerosamente. Isso não significa o hedonismo e a busca desesperada pelo prazer. Isso também leva ao sofrimento. Viver prazerosamente é aquietar o espírito, privilegiar o convívio dos amigos, misturar-se à natureza e voltar ou tentar começar a sentir pulsar sua vida, seus cheiros, seus ciclos, suas belezas. Viver agora sem olhar no relógio, o dia de hoje sem  a preocupação com o calendário, saber que o compromisso de amanhã será cumprido desde que inúmeras condições, a maioria das quais fora de nosso controle, se combinem nesse sentido. Significa ter uma vida material confortável, sim, mas nada que seja demais para gerar preocupação e nada que não possa ser deixado pra trás caso necessário.

O diabo é que o mundo que vivemos não permite isso a todos. Daí que viver prazerosamente somente pode ser completo quando também se luta para que isso seja possível aos demais. Tratar do bem coletivo, lutar por isso é também viver prazerosamente. Isso não significa que não haverá mais sofrimentos, mas talvez eles sejam vividos de forma diferente.

Que a morte não nos encontre vazios e sozinhos, sem ter feito o suficiente, como diz a música na voz de Mercedez Sosa. Que o egoísmo e a covardia não nos torne velhos rabugentos e moralistas.

Que a morte seja para nós o mero desfragmentar-se dos átomos, num momento em que a vida já não está ali. Que possamos sorrir para os amigos que desaparecem assim e continuar a viver enquanto houver tempo. A saudade, a vontade, a frustração, a alegria, a tristeza, o remorso, a culpa, o orgulho, tudo o que somos nós seja vivido e não negado. Isso pode garantir a vida prazerosa e nos fazer seguir adiante, mas com a sabedoria dos que já percorreram algumas décadas. Seguir adiante com o conselho de Erasmo de Rotterdam: “Apressa-te lentamente”.

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