Ainda sobre a récua: como compreender as manifestações de domingo?

Cesar Mangolin

No último domingo a récua saiu às ruas novamente. O número de manifestantes, menor que da última vez, mas ainda expressivo, revela que a tendência dessas manifestações é mudar de foco e que elas serão “disputadas” entre setores da direita parlamentar.

Alguns questionaram o termo “récua” que tenho utilizado para me referir a essa gente… É ofensivo, sem dúvida. Propositalmente, aliás. Récua pode ser um coletivo de asininos, ou de jumentos, além de poder ser compreendido como “corja”. Para os dois sentidos, ainda penso que não há termo melhor. A interpretação que faço do presente e das tendências desse movimento parece dar razão aos termos, com o devido pedido de perdão aos jumentos…

A redução do número parece se dever a dois fatores: primeiro, o público próprio dessas manifestações não tem fôlego para um longa jornada. Segundo, os partidos da direita brasileira colocaram um pé no freio no apoio às manifestações ao perceberem que algo estranho estava no ar. Por detrás dos dois fatores  está a essência do movimento: não possui objetivo claro, um ponto a ser atingido em bloco. O que as unifica é uma manifestação difusa de preconceitos construídos historicamente, um ranço conservador à esquerda e aos movimentos dos trabalhadores, que tem seu epicentro histórico em São Paulo, e uma condenação moralista (e não política) e apenas parcial da corrupção como a mãe de todos os males. É parcial porque condena a prática da corrupção de integrantes do PT, mas é permissiva com atos similares de outros partidos.

Partidos como o PSDB perceberam que as tendências mais “radicalizadas” do movimento tendiam a lançar fora a água da banheira junto com a criança que pensavam ter parido. Não há movimento concreto no sentido de uma ditadura escancarada, mas é sempre bom tomar um tanto de precaução quanto ao papel de algum grupo de aventureiros histéricos em instituições importantes da República.

A hostilização de políticos profissionais que procuraram catalizar o movimento nas ruas deu o sinal de alerta, afinal, não se trata de colocar tudo a perder, mas de manter a histeria coletiva até 2018 e vencer um desgastado PT eleitoralmente. Tal saída agrada os setores da direita mais consequentes, aqueles que têm como certa a necessidade de recolocar, sem concessões, o governo nas mãos de gente de sua estrita confiança e não mais nas dubiedades possíveis de um partido que ainda é reconhecido como sendo do campo da esquerda.

Os herdeiros da velha UDN e outros aprenderam a lição de 1964… Na esperança de uma “limpeza de terreno” para as eleições presidenciais de 1965, foram surpreendidos por 21 anos de ditadura, à qual se ajustaram por convicção ou por força das circunstâncias…

Os estúpidos líderes desse movimento (financiados por quem?) já se colocaram na tarde de ontem a tarefa de mudar o foco das ruas para o parlamento. O DEM já apareceu ali como seu interlocutor, como disse o infeliz Agripino, aquele mesmo que deu ao Lula sua candidata à sucessão, ao questionar Dilma sobre mentiras ditas quando estava sob tortura para salvar a vida de seus companheiros, tornando-a conhecida do povo brasileiro.

O fantasma de um golpe vai se diluindo na bruma na medida em que os interesses dessa massa amorfa ofereceram algum risco de saída do controle. À tucanagem serve o discurso moralista, rançoso, de direita e histérico, mas não que isso se torne algum projeto que lhe escape por entre os dedos. Diante das dificuldades da vitória nas urnas, uma direita organizada e com base social de massa pode ser o melhor cabo eleitoral.

Isso motivou lideranças do PSDB e o FHC a fazerem declarações contra o suposto golpismo… Há quase dois meses atrás, atribuíram a um de seus valets a missão de tentar agitar, por dentro do congresso, um pedido de impeachment e resolver as coisas por um golpe à paraguaia. Paulinho da Força Sindical, de um partido chamado Solidariedade, saiu à caça de assinaturas e argumentos pela derrubada da presidente. Uma semana depois, virou motivo de chacota. Eles queimam seus rastejantes subordinados com muita tranquilidade… Há outros 300 por lá… Paulinho, aliás, que apareceu na televisão oportunamente no domingo criticando a presidente por um pacote de maldades contra os trabalhadores e foi hostilizado nas ruas, vaiado pelos que ele serve há décadas com muito empenho… Ele que, durante a semana, foi um dos mais árduos defensores do projeto da terceirização e votou a favor dessa aberração. O Solidariedade tupiniquim é uma versão tosca, mas não menos pelega e subserviente, do Solidariedade polonês. Serve aquela frase conhecida de Marx aqui: ocorre uma vez como tragédia e outra como farsa ou comédia.

Gente que fez pesquisas com os que estavam nas ruas no domingo descobriu que muitos não sabiam exatamente porque estavam ali, mas um traço comum dá a orientação geral: com raras exceções, eram a favor da terceirização, da redução da maioridade penal, da queda da presidente (de qualquer maneira), contrários às politicas afirmativas (como as cotas), homofóbicos, racistas e as demais características que todos conhecemos próprias dos setores médios brasileiros e do senso comum criado num país que, historicamente, apenas recentemente se libertou de 400 anos de escravidão e possui um traço marcante em sua formação: a violência impune contra os mais fragilizados e a conivência da maioria.

O governo reage mal quando tenta disputar institucionalmente as manifestações. Age mal também quando imputa a insatisfação a questões como a reforma política. Esse pessoal não quer isso: o problema é de classe, é de luta política por projetos bem distintos, são inimigos dos trabalhadores, é a direita ocupando espaços vazios nas ruas, que foram deixados por movimentos sociais, sindicais e partidos que representam os interesses dos trabalhadores, seja pela cooptação operada pelo próprio governo, seja por posições equivocadas e isolacionistas de parte da esquerda, que não deixa de ser moralista, assim como é a récua da direita. O governo precisa, dentro dos limites que bem conhecemos, tomar posição clara e não a tentativa de conciliar. Ceder ao PMDB não é um caminho satisfatório. A presidente pode indicar o caminho, na prática,  vetando a lei da terceirização, ou tende a se ver cada vez mais isolada.

Ao contrário de alguns que se satisfazem com as aparências, não me parece razoável festejar a redução do número dos manifestantes do domingo: se atentarmos para os movimentos recentes, a coisa está tomando forma e pode tender a um movimento de direita enfim organizado, capaz de operar de maneira menos difusa e, portanto, com maior força, trazendo prejuízos históricos para os trabalhadores e convencendo a muitos de que suas bandeiras são razoáveis.

As ruas tendem a deixar de ser o palco da luta dessa gente. Não estão acostumados a elas, embora contem com um grande número de lacaios histéricos para fazer volume. Mas chega a dar pena ver aquela gente branquela pintada de verde e amarelo, que somente vê sol quando vai a Miami ou a Ibiza, batendo com a cara na porta da loja que vende café brasileiro feito de um jeito americanizado e que custa mais de vinte reais a dose… A loja alegava falta de água. Feliz foi  a família mais precavida que, na ausência de água, lembrou de levar um balde de gelo e a champanhe… A foto chega a dar gosto: isso sim é protesto de gente que está preocupada com o futuro do Brasil e dos brasileiros!

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