Quem está destruindo a Síria?

João Quartim de Moraes

Professor doutor da Unicamp e colaborador do Observatório das Nacionalidades

A chamada “primavera árabe”, expressão que hoje soa como uma ironia macabra, propiciou ao bloco imperialista hegemônico a ocasião de tentar liquidar mais um dos governos que resistiam à recolonização do Médio Oriente. Depois do Iraque de Saddam Hussein e da Líbia de Khadafy, a Síria de Assad tornou-se alvo prioritário da máquina de guerra da Otan por manter uma política externa independente e sustentar firmemente a causa palestina.

Apresentadas simpaticamente pelos jornais e TVs alinhados com a Casa Branca como rebelião democrática contra o “ditador” Bashar al-Assad, as ações armadas começaram em meados de março de 2011 (quando a Otan bombardeava pesadamente a Líbia para depor Khadafy) e receberam apoio irrestrito do governo estadunidense e da União Europeia. Os comandos rebeldes dispunham de armamentos para operações de envergadura, como a de 16 de novembro daquele ano, quando atacaram com lança-granadas, morteiros e metralhadoras a base da Força Aérea Síria em Harasta, subúrbio de Damasco.

Em julho de 2012, diante da firme resistência das forças governamentais, o “Exército Sírio Livre” (ESL), fortemente patrocinado pela Otan, foi reforçado por algumas dezenas de milhares de fanáticos sunitas apoiadas pelos emirados feudais da Arábia Saudita, que entraram no país através da Jordânia, após se apoderarem de vários postos de fronteira. Na manhã do dia 18, desfecharam uma ofensiva bem coordenada que começou por um ataque fulminante contra o quartel da Segurança Nacional, onde mataram o ministro da Defesa, cristão ortodoxo, seu adjunto e o secretário da presidência da República. Foi o sinal para outros comandos ocuparem várias áreas na periferia de Damasco. Simultaneamente, outra aguerrida coluna de invasores, vindos do norte, atravessou a fronteira turca e rumou para Alepo, pondo a grande cidade em chamas. A emissora Al-Jazeera, propriedade do emir de Qatar, seguida pela BBC, congratularam-se com “o avanço estratégico dos opositores”.

A comemoração do “Ocidente” durou pouco. Os agressores foram repelidos de Damasco em duas semanas. Conseguiram manter-se em alguns setores de Alepo, onde se travaram encarniçados combates rua por rua, casa por casa. Antecipando as atrocidades que seriam cometidas por seus parceiros sunitas, o ESL torturou, mutilou e assassinou não somente policiais e funcionários, mas também os civis contrários à sedição. Entrementes, novas vagas de invasores, vindos principalmente da Turquia, avançaram pelo norte da Síria.

Mas a Otan estava longe de seu objetivo final. Faltava contornar o firme veto da Rússia e da China a mais uma intervenção armada direta do bloco hegemônico. O pretexto hipócrita de Obama consistiu em acusar o governo sírio de ter lançado gás sarin principalmente na região de Ghuta, não longe de Damasco. Quem o lançou? Al-Jazeera e as emissoras das metrópoles imperialistas, CNN, BBC, Fox News etc., coadjuvadas por seus papagaios periféricos, tinham a resposta pronta: foi Assad! Estariam, pois, legitimados os “bombardeios humanitários” visando a derrubá-lo.

Rebatendo as acusações mentirosas, jornalistas honrados responsabilizaram os jihadistas pelo uso do gás, o que ficou comprovado em janeiro de 2014: dois especialistas ocidentais demonstraram que em Ghuta os gases tinham sido lançados de uma distância inferior a dois quilômetros, quando as forças governamentais estavam muito mais longe.

Há pelo menos dois anos esses mesmos jornalistas já vinham denunciando os crimes dos “rebeldes”: extorsão, tortura, execução sumária de soldados do governo, recrutamento de crianças, brutais perseguições às comunidades xiitas, alauitas e cristãs. Mas não interessava a Obama e parceiros divulgar os crimes dos terroristas que eles ajudavam a se expandir pelo Iraque e pela Síria. Só quando esses fanáticos, desenvolvendo seus próprios planos, anunciaram a fundação de um “Estado Islâmico” e passaram a exibir imagens das execuções públicas de prisioneiros ocidentais, a Otan deixou de lhes fornecer bombas e passou a bombardeá-los. Mas, longe de reconhecer que o regime laico e pluriconfessional da Síria continua sendo a única muralha efetiva contra o vagalhão obscurantista, o bloco imperialista e seus parceiros feudal-petroleiros mantêm o objetivo estratégico de derrubar Assad. Seria ingênuo imaginar que os duzentos mil mortos e três milhões de refugiados comoverão os “war lords” do Ocidente. Já ceifaram muito mais vidas em menos tempo.

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8 comentários sobre “Quem está destruindo a Síria?

  1. Eu fico realmente intrigado, a grande ordem mundial (USA) que é responsável por todas as atrocidades ocorridas no planeta é sempre demonizada pelo seu sistema Capitalista (O qual graças a Deus venceu a extinta e comunista URSS na Guerra Fria). Os simpatizantes de esquerda sempre argumentam que o Capitalismo funciona, mas em pequenos países, onde é fácil de administrar, porém estes mesmos esquecem que os USA são um dos maiores países do mundo no que se refere à extensão territorial e um dois mais bem colocados no ranking do IDH. Os imigrantes que chegam na terra da oportunidade podem até trabalhar “limpando fezes de animais” como muitos desses dizem, porém o que ganham com este trabalho possibilita que vivam em um país com qualidade de vida e tenham um salário a nível de um doutor se comparado ao seu país natal.
    O Capitalismo realmente é o sistema mais excludente do mundo.
    Ele exclui o fraco, o preguiçoso, o chorão, o idiota, o bajulador e todo corja que busca enriquecer ou sobreviver sem trabalhar.

    “In God We Trust!”

    1. Meu caro: você está muito, mas muito mesmo equivocado. Recomendo que mude de autores através dos quais estuda o capitalismo. Garanto a você que o argumento de que o capitalismo é bom em pequenos países mas ruim em grandes é um argumento infantil e incorreto. O capitalismo somente pode ser pensado como sistema mundial e mundializado. Apenas assim conseguimos entender porque há um centro e uma periferia do sistema e, principalmente, a relação existente entre centro e periferia. Os EUA não andam tão bem assim…. Nem me parece que seja algo a se festejar pessoas abandonarem suas famílias e sua terra para poderem limpar merda de qualquer coisa em qualquer lugar. Os seus argumentos são pobres e rastejantes… Mesmo porque capitalismo não é a relação do indivíduo e seu umbigo com o universo, mas um sistema. Mesmo que todos os indivíduos sejam substituídos ou troquem suas posições sociais ano após ano, ainda assim teremos diante de nós, quando pensamos a estratificação social, uma pirâmide. Nem estou falando das classes sociais, que são outra coisa que a estratificação. Portanto, a crítica ao capitalismo que fazemos aqui é a crítica a um sistema excludente, gerador de miséria e de morte. Pouco importa, nesse caso, qual indivíduo escapou de ser miserável ou de morrer de fome. Importe que uma quantidade deles sempre vai, necessariamente, acabar assim, pois é a lógica nefasta da reprodução desse sistema. Por isso ele é injusto. Consegue entender agora, idiota?

  2. A Bíblia Sagrada diz: ” No suor do teu rosto comerás o teu pão”. Poderíamos atribuir a esse tal sistema que se opõe ao Capitalismo a seguinte analogia: “No suor do rosto dos outros comerás o teu pão”. Isso parece justo? Pense comigo em uma sala de aula brasileira, escola pública, ensino médio. Exitem por volta de 40 alunos por sala e quando passamos apenas uma simples aula de 50 minutos junto a esta sala constatamos que no mais otimista dos casos 3 ou 4 alunos desses 40 de dedicam realmente aos estudos, ao aplicar uma prova, essa minoria que se dedica tirar 10 e o restante que só quer “zuera” tira 0, parece justo distribuir notal igual para todos? Esse tipo de pensamente é ridículo e para corjas.

    PS: O argumento de que o Capitalismo só funciona em países pequenos como você mesmo disse é infantil e incorreto, entretanto é defendido por muitos, realmente muitos esquerdistas. O que eu quis dizer citando este argumente é que como pode o Capitalismo funcionar nos USA sendo um país tão grande? Ai vem aquelas do tipo: OS USA estão em crise, as coisas não funcionam lá, é tudo uma máscara, será então que eles manipulam os índices econômicos e de IDH? Pelo que li hoje cedo no WSJ são outros lugares do mundo que deveriam se preocupar com o que estão fazendo, mais especificamente a América bolivariana…

    1. Meu caro: em primeiro lugar, quem utilizou o argumento de que o capitalismo “funciona” somente em países pequenos foi você. Não sei a quais pessoas se refere ao falar de “esquerdistas” que dizem isso, mas lhe adianto que estão todos bastante equivocados: você e eles… Aliás, “esquerdismo” é um termo pejorativo para a esquerda, como bem escreveu Lênin, que além de líder da revolução russa, foi um grande intelectual. Eu ainda sugiro que você deveria estudar um pouco mais para poder ter mais base nos argumentos que utiliza. Falar das impressões próprias do senso comum não o torna um interlocutor com o qual dê algum gosto debater. Os marxistas pensam o sistema capitalista como sistema mundializado, portanto, a comparação entre países distintos, isolada da compreensão de um centro e uma periferia do sistema, não é um procedimento teórico razoável. Vale ainda, em segundo lugar, informá-lo que o sistema em que uma classe vive do trabalho ou do suor dos outros é o capitalismo, não a possibilidade da sociedade comunista. Também seria legal você estudar um pouco para sair dessa informação primária e tola de que o comunismo é um modo de produção baseado em qualquer tipo de igualitarismo. Fica chato ter que falar assim com você, mas seu tom arrogante e seus argumentos de quem ignora o que fala me obrigam a expô-lo a esta situação vexatória. Outras pessoas leem o que estamos escrevendo aqui e chega a dar uma certa vergonha alheia o que você está fazendo. Não sei se o conheço pessoalmente, mas caso queira, pode conversar comigo pessoalmente. Posso indicar alguns bons livros para que você leia e se informe melhor. Não se trata de fazê-lo comunista, apenas de lhe indicar o caminho para que consiga defender suas posições com argumentos razoáveis. Os que você utiliza, insisto, são frágeis e equivocados… É necessário ter um tanto de tempo gasto estudando as coisas para que você possa ser a favor ou contra elas. Caso qualquer tolice que venha à cabeça fosse conhecimento da realidade, a ciência seria desnecessária. Desconfie das informações que brotam na sua mente: elas foram enfiadas aí ao longo da sua vida, não são emanações do seu espírito brilhante. Gastar tempo estudando para poder entender melhor as coisas é um bom caminho para quem quer emitir opiniões, ainda mais da maneira áspera e conclusiva (quase mal educada) com que você faz. A revista Veja e o Jornal nacional não servem como fonte para isso. Vá estudar, entender qual a proposta dessa possibilidade da sociedade comunista. Estude também para entender que, independentemente do empenho de cada um, a sociedade que vivemos continuará a ser injusta. A análise que faço não é a do umbigo de cada um, mas desse sistema. A mobilidade ou não das pessoas dentro dele é o que menos importa nesse caso. Vale mais entender o seu metabolismo, a sua anatomia, como bem fez Marx em sua obra maior (e inacabada) O Capital que, aliás, precisa ser estudado. Não é necessário ser de esquerda para estudar Marx. Muitos intelectuais de direita o estudaram e o estudam, no Brasil e fora daqui. Portanto, seja razoável, não seja histérico e estude. Você está precisando aprender bastante… Começo a acreditar que o exemplo que cita é algo de pessoal: você deveria estar entre os trinta e seis que não fizeram nada na escola e não entre os 4 que estudavam. Fique em paz e, precisando de qualquer ajuda no seu caminho inicial para sair da ignorância e deixar de viver como merda no mar, pode contar comigo. Sou um educador de profissão! abraço!

  3. Ascolta bene amico;
    Eu ficaria feliz que você respondesse a questão inicial, fica realmente chato usar palavras bonitas e deixar de responder as questões meritocráticas que abrangem o Capitalismo e o outro sistema.
    Enfim, como educador de profissão você sabe melhor do que eu como funcionam esses sistemas, afinal a teoria sempre irá superar a prática, não?
    Agora apenas para ser objetivo e responder a real questão que levantei a cerca do texto, sei que o número deve ser gigantesco mas, quantos casos de pessoas oprimidas pelo Capitalismo em Miami que fugiram em um bote arriscando de maneira bruta a vida com destino a Cuba você ouviu falar?
    Só quero entender isso, Capisce?

    PS: Sim, eu realmente fazia parte do grupo dos 36 alunos da bagunça, porém não no decorrer da aula, até pois o feedback que meus responsáveis tiveram ao longo de minha vida acadêmica sempre foi unanime: Melhores notas e mais bagunceiro, fato que me deixa muito feliz, sempre busquei e busco ser o melhor em tudo, Alexandre “O Grande” antes de se tornar adolescente já havia conquistado todo o velho mundo, através de sua determinação, era um homem implacável. Baseio meus argumentos através desses bravos homens e suas ações ao longo da história. Até aqui todos os métodos utilizados por eles se estudados mostram o quão grande o individuo pode se tornar se perceber que seu crescimento só depende de si mesmo.

    Até mais Cesar e obrigado pela disposição.

    1. Vou insistir novamente: é inegável que vivemos numa sociedade injusta e desigual, baseada na exploração do homem pelo homem. Isso é um fato. Negar isso é um atitude semelhante à daquele que fecha os olhos para não ver o que o desagrada ou o amedronta. Um recurso infantil apenas. Negar a existência de algo não faz com que qualquer coisa, que existe objetivamente e independente da nossa vontade, deixe de existir. Pois bem, compreendendo então o capitalismo como um sistema mundializado, que produz um centro e periferias desse sistema, que estão inter-relacionadas pela dinâmica predatória da sua reprodução, podemos afirmar que, como regra, a mobilidade entre classes é inexistente (veja: falo de classes sociais e não de estratificação social). Ora, se pensamos o capitalismo como um sistema e não como a disposição de pessoas, podemos explicar com facilidade os fluxos de imigrantes da periferia em direção ao centro, não apenas como aquele que ocorreu de Cuba para a Flórida, mas a que ocorre hoje entre países africanos e asiáticos em direção à Europa, bem como a que ocorre entre países mais empobrecidos da periferia para países da periferia que apresentam condições melhores, ainda que precárias, como ocorre com a vinda de Haitianos para o Brasil. No século XIX recebemos aqui milhões de europeus, a maioria italianos, que fugiam das penúrias causadas pela guerra civil que culminou com a unificação italiana em 1870… A busca por melhores condições de vida é, para qualquer espécie animal, algo natural… Portanto, entender esses fluxos passa pela compreensão de situações históricas pensadas como o movimento e as contradições desse sistema estruturado, e menos pelas disposições individuais. Mas se, ainda assim, você persiste na ideia da meritocracia, vale mais um argumento, para que entenda de uma vez por todas que está sobrepondo temas distintos. Veja: um tanto de empenho é necessário até no momento em que vamos ao banheiro, caso não estejamos com alguma virose que resolva o serviço espontaneamente… Que pode haver mobilidade social (agora falo da estratificação social, ou seja, gente muito pobre que consegue alcançar uma vida mediana e vice-versa), não há dúvida. Que pode haver mobilidade de classe, isso somente ocorre como exceção e não como regra. Que melhorar as condições de vida são relevantes para o indivíduo que o alcança e para sua família, também não há dúvida. Mas a passagem para o setor médio de gente muito empobrecida e vice-versa não altera em nada a sociedade como tal: a velha imagem da ‘pirâmide” social persiste intacta, revelando uma ordem desigual e injusta. Portanto, quando pensamos a sociedade como um todo, a migração por essas camadas sociais são irrelevantes: continuamos a ter uma maioria de miseráveis, uma camada superior em condições um pouco melhores e assim sucessivamente, diminuindo o número da população a cada camada acima, que vai formar a famosa pirâmide. Entende isso? Estou tentando ser o mais didático possível… Portanto, duas conclusões até aqui: PRIMEIRA: o capitalismo somente pode ser compreendido como um sistema mundializado; SEGUNDA: as possíveis movimentações de indivíduos nas camadas sociais, para cima e para baixo, são irrelevantes na análise do conjunto, visto que a pirâmide continua a existir da mesma maneira. Partimos então para a terceira e derradeira conclusão: você deve estar pensando a esta altura que se todos se esforçarem podem então melhorar suas condições de vida… Isso não é verdade. Os postos de trabalho, as possibilidades de negócios para os empreendedores, possuem limites, limites que são dados pelas estruturas do próprio sistema… O sistema gera, por contradição, uma massa de empobrecidos. Se uma parcela deles “sobe” é porque outra “desce” em algum canto (por isso que chamo essa mobilidade de irrelevante socialmente). Em uma mensagem anterior você citava aqueles que vão limpar as bundas dos cachorros… Pois bem, não há bundas de cachorros suficientes, ou quem pague para que elas sejam limpas para todos quantos queiram seguir o mesmo caminho… A mesma coisa serve para alguns postos de trabalho melhor remunerados, serve os empreendedores, serve para todo o resto… O esforço pessoal, portanto, não resolveria o problema de todos: por isso o discurso que você faz é equivocado, embora seja moeda corrente. Pense na seguinte hipótese: se todos se esforçassem igualmente, acumulassem os mesmos conhecimentos, se dispusessem a trabalhar da mesma maneira, se todos tivessem o título de doutorado debaixo do braço, todos melhorariam de vida? Ou teríamos doutores bem empregados e doutores revirando os lixões das grandes cidades e vivendo nas ruas ou em barracos de madeira? Garanto a você que a segunda opção ocorreria… Isso porque é o sistema capitalista e não a boa vontade de cada um quem define a divisão social do trabalho… Por fim, o último recurso dos que defendem a ideologia do mérito pessoal é concluir que nossa sociedade não permite espaço para que todos vivam bem, que uma parcela vai, necessariamente, engrossar os bolsões de miséria e que os “melhores” dentre eles merecerão viver melhor, por mérito, por empenho. Esses que nascem nessas condições devem, portanto, concorrer com seus semelhantes para ver qual deles se “dá bem” e qual deve viver na merda o resto da vida… Os “melhores” vão justificar sua posição invocando seu empenho pessoal e, ao mesmo tempo, atribuirão à pobreza dos demais a ausência do mesmo empenho… Essa é apenas uma boa forma de mascarar as relações nas quais vivemos, de justificar uma ordem desigual. É a partir daqui que a posição é política e não mais teórica: você pode fazer esse discurso e justificar assim as relações que nós vivemos, atribuindo às vítimas dessa violência e culpa da violência que sofrem; de outro lado você pode compreender que é possível construir uma outra forma de organização da vida social, que exija igualmente a colaboração de todos para a produção dos gêneros necessários para a garantia da vida material e de sua reprodução, ao mesmo que garante a todos as condições materiais necessárias para que possam, em condições de igualdade, viver suas diferenças. Uma sociedade em que o desenvolvimento de todos é condição necessária para o desenvolvimento de cada um e vice-versa. Nós temos condições materiais para fazer isso. Elas estão concentradas nas mãos de um grupo minúsculo, que ri bastante quando vê trabalhadores raciocinando como você e a maioria do nosso povo, fazendo essa defesa cega e danosa da meritocracia… Nós não partimos de condições similares, não concorremos em condições de igualdade e não é razoável concorrer para apanhar um tanto a mais de migalhas. Pode ter certeza que dentre os milionários capitalistas a palavra meritocracia não aparece no dicionário… Ela serve para que trabalhadores se iludam e tenham uma representação falseada da vida e da realidade. Você, sendo um trabalhador também, deveria começar a pensar mais no que é regra e menos no que é exceção. A história não é feita de exceção, mas de regra. Para fechar com seu exemplo, pode ter certeza de que haviam outros tantos homens e mulheres inteligentes e valentes como Alexandre… As condições das quais ele partiu, no entanto, fizeram dele um grande conquistador, não suas características individuais tomadas de forma isolada: não se esqueça que ele era o filho do rei e, inclusive, foi educado pelo maior filósofo de todos os tempos, Aristóteles. E ele não se tornou conquistador antes de se tornar adolescente. Dê uma olhada melhor na história e leve também em consideração que um “homem feito” era assim considerado ainda bem jovem num tempo em que a expectativa média de vida era mais reduzida, assim como ocorre ainda hoje em alguns lugares do brasil e alguns países do mundo. Abraço!

  4. Pensando então no caso da piramide que você citou, no Capitalismo teríamos independente de qualquer coisa um cenário dividido por classes, correto? E se tratam de classes amplamente desiguais, correto? E os grandes Capitalistas estão rindo de pessoas que pensam na linha de raciocino que estou apresentando, correto?
    Você também sitou o caso dos Italianos no século XIX, meu nonno está entre esses Italianos e aprendi muito com meu nonno, ele foi um verdadeiro Consigliere. Pois bem, esse gigantesco número de Italianos a maior parte distribuiu-se pelo próprio continente europeu e outra enorme parte veio para as Américas, principalmente USA e Argentina. De todos esses Italianos que conheci e conheço (inclusive meu nonno), chegaram em seus respectivos destinos sem NADA, tudo que tinham construído na Itália fora perdido. É vero que grande parte se não absoluta trabalhou de forma “alienada” e “neo-escrava” por assim dizer, mas o empenho que tinham para reconstruir tudo a partir do zero foi tão grande que não foi a exceção e sim a regra que conseguiu reerguer seu patrimônio de forma mais elevada ainda do que era.
    Nos USA, (você sabe do que estou falando, então, não preciso deixar nada explicito nessa questão) as organizações Italianas que nasceram em Chicago cresceram TODAS sem exceção de forma majestosa. Todos nossos homens honrados e implacáveis não tiverem o pensamento igual a da maioria de corjas existentes no mundo desejando que os poderosos sejam fracos como a ti mesmo, do que lutar para ser tão poderoso quanto eles…
    Per questo, o capitalismo por muitos medíocres é tão odiado. Enfim, o Grande Lucky Luciano (o qual faço homenagem aqui) você conhece a história dele?
    Pequeno foi para os USA, se criou e cresceu nas ruas de NY e foi o maior líder e grande revolucionário da organização nos USA.
    Meu intuito aqui é aprender com pessoas que tenham visões diferentes da minha, afinal aquele que defende algo e não conhece sua oposição não passa de um parasita, minhas palavras podem parecer enfáticas e arrogantes como você mesmo disse, mas quero apenas mostrar meu pensamente para poder aprender mais e entender esse outro lado da moeda, que até então não consigo ver nada de honrado nele.

    1. meu caro, faça apenas a seguinte simples reflexão: a mudança na vida dos que você cita tornou a sociedade capitalista mais justa, ou ela continuou exatamente igual? Pela última vez: quando falamos da sociedade (como sistema) a mobilidade desse ou daquele indivíduo ou grupo é irrelevante. Por último: o caso do imigrantes italianos (para Brasil, para a Argentina ou para os EUA) é uma grande exceção histórica, coisa que somente ocorre em momentos de transição… De qualquer maneira, o destino da maioria deles foi continuar pobre, ainda que tenham saído da miséria. Portanto, novamente, seu exemplo privilegia casos excepcionais de indivíduos, não pensa a sociedade e sua dinâmica. São duas coisas diferentes. Enquanto você pensá-las como sendo a mesma coisa, será vítima de conclusões equivocadas. Abraço.

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