Racismo e capitalismo como complementares: a atualidade do tema e o significado do “funk ostentação” ou da “integração” individual.

Cesar Mangolin

Utilizo os argumentos aos quais já me referi quando tratamos dos “rolezinhos”. O tema, em seus diversos enfoques, é sempre atual. Vale fazer mais uma vez uma reflexão sobre o lugar do racismo no capitalismo brasileiro e como as diversas reações das populações que sofrem seus efeitos têm atuado ou podem atuar no sentido da superação. É um bom e necessário tema de debate. Vou voltar a ele de maneira mais específica, tanto tratando do chamado “funk ostentação”, quanto do que chamo aqui da ilusão da integração individual à sociedade do consumo, via mérito pessoal, que é moeda corrente nas faculdades e os meios de  comunicação. Neste primeiro texto, portanto, lanço os argumentos gerais para a discussão.

A discriminação e o preconceito estão mostrando as caras nos últimos tempos. Não somente o étnico, mas o de gênero, de orientação sexual, o de classe, até o que discrimina os que fogem a determinados padrões estéticos que nos foram impostos. Todos sabem que sempre estiveram aí e sabem também que nossa capacidade de criar novas modalidades é infinita.

O mito da democracia racial, criado após a libertação dos escravizados, é  o mesmo mito dessas formas todas de discriminação e preconceito: no discurso e na cabeça de quase todos nós está aquela ideia de que vivemos num país multicultural e que é capaz de conviver com diferenças sem grandes problemas. Um país incrível esse, que parece até que não viveu quatro séculos baseados na matança dos nativos e na escravização de gente presa e trazida a força pra cá.

Esse mito, esse sentimento e essa ideia são antigos. Nosso hino da proclamação da república, que aprendi a cantar em formação militar de sentido quando ainda fazia o primário em plena ditadura, diz algo assim: “Nós nem cremos que escravos outrora tenha havido em tão nobre país”! Isso sintetiza o mito: vivemos em um país tão livre e multicultural que nem parece que essa aberração está em nossa história!

Mas basta que o espaço da Casa Grande seja ameaçado e todo o engodo cai por terra! Negros e pobres  são bem tolerados desde que se mantenham afastados, em seus “lugares”, apenas servindo às necessidades das elites brancas que trucidaram essas populações durante séculos. Elites brancas que encontram nas camadas médias urbanas das grandes cidades seus cães de guarda.

Mas há outro aspecto de nossa formação que nos passa despercebido, dado que somos produto dessa cultura:  somos acostumados historicamente à brutalidade, à violência, à covardia contra o mais frágil e isso ocorre porque toda a nossa história é uma história de violência.

Tive um aluno angolano. Um jovem negro de mais ou menos 30 anos que veio ao Brasil apenas estudar. Conversava com ele sobre seu país, sobre o que sobrou da guerra de independência, as ideias socializantes, Agostinho Neto etc. Ele me falou dos anos de guerra civil e suas dificuldades. Um dia ele chegou à faculdade muito assustado. Perguntei a ele o que havia ocorrido e me contou assombrado que foi parado pela polícia militar. Ora, diríamos nós, ele apenas “tomou uma geral”, como dizemos por aqui. Pois é: esse estudante que viveu quase toda a vida num país em guerra civil me disse que jamais tinha sido tratado com tamanha violência, jamais tinha visto uma arma apontada para si, nem mesmo tomado tantas pancadas para ser revistado, as 06:00h da manhã, perto de uma estação do metrô na periferia. Também disse que sentiu muita vergonha: percebeu que foi escolhido pelos policiais dentre outros transeuntes e alguns ficaram assistindo a ação. Acreditava que foi escolhido por ser, nas suas palavras,  “mais preto que os demais”.

Uma ação que para nós é costumeira é, na verdade, uma pequena demonstração de como somos dados à violência e acostumados com ela. Agimos violentamente quase o tempo todo. Isso me parece reflexo da nossa formação e está tão entranhado nas mentes que mesmo  os que procuram condenar a violência sentem prazer quando pobres e pretos são espancados e mortos por aí.  O “silêncio sorridente diante da chacina” não é particularidade apenas de São Paulo: é patrimônio brasileiro! Justificamos a violência o tempo todo na história do país e também nas vidas privadas.

Mas a violência não é apenas aquela que machuca ou mata o corpo. Há a violência verbal, a do olhar, da postura, assim como a dos raciocínios fáceis que tentam encobrir a mente preconceituosa, racista, machista, homofóbica etc..

Fiz dois exercícios com duas turmas distintas, com resultados idênticos – o que já era esperado. Minha intenção era utilizar os argumentos deles próprios para nossa reflexão posterior.

Primeiro, soltei o tema do racismo no ar e deixei que se manifestassem livremente. Ainda que reconhecessem que há gente racista (!), aos poucos a conversa foi mudando de orientação, dando uma volta, e no final estavam quase todos empenhados em demonstrar como os negros são racistas ou “não fazem nada pra mudar”!!!  Vejam que loucura isso: eles até reconhecem o racismo, mas acabam por atribuir à vítima da opressão o status de opressor e, com ele, a justificativa para a situação. É o mesmo que acontece com a mulher vítima de violência . Quantos atribuem às mulheres a razão dos estupros, dos assassinatos, dos espancamentos e das humilhações! Atribuem também aos miseráveis a razão de suas misérias!

O segundo exercício foi pensarmos na composição étnica dos trabalhadores da faculdade. Conseguiram perceber que nos serviços mais mal pagos e pesados havia grande número de negros e nenhum branco (limpeza, segurança e coisas assim); no serviço administrativo havia cerca de 25% de negros, os demais brancos. Entre os professores, concluíram que não havia nenhum negro. Mas o pior é que havia 1, apenas 1, e eles não o perceberam como negro!

Isso se explica porque era um negro que não estava no “lugar” devido dos negros. Os estudantes gostavam dele,  era considerado um bom professor, portanto, eles ao menos foram capazes de perceber que era negro!

Vejam, mesmo as pessoas bem intencionadas em criticar o racismo acabam caindo nessa armadilha da razão racista. Exemplo disso foi a reação à jornalista que disse que os médicos cubanos “não tinham cara de médico”, mas de empregados domésticos. Muitos condenaram (e com razão) a jornalista racista e afirmaram indignados na época que médico não tem cara, que nenhuma profissão tem cara. Ora, isso é repetir o mito da democracia racial, é propagar mais uma vez nossa cultura de violências diversas!

No Brasil médico tem cara sim, assim como uma série de outras profissões para as quais o acesso foi historicamente obstaculizado aos pobres e, dentre eles, principalmente aos negros. É uma raridade um médico negro, ou que tenha ascendência de algum povo nativo (os que chamamos de forma equivocada de índios até hoje).

É, em primeiro lugar, somente assumindo abertamente que somos um povo racista e preconceituoso, que temos uma cultura estupidamente violenta desde a nossa formação, que poderemos dar passos mais seguros no sentido da superação desses males.

A segunda necessidade é que os que sofrem com o racismo e o preconceito reajam de forma organizada. Vejam: nas primeiras décadas após a abolição o povo negro foi marginalizado, como sabemos. Eles souberam se organizar, mas nesse momento inicial sua tentativa era a da integração, ou seja, reivindicavam participar da sociedade comandada pelas elites brancas como iguais. Foi somente após perceberem a impossibilidade disso que passaram a uma fase de denúncia do racismo e, na sequência, para uma luta mais direta contra o racismo. O elemento principal é que os movimentos negros organizados não conseguiram acessar jamais o conjunto da população negra e pobre. Isso não retira o mérito das inúmeras organizações e militantes. Dirigidos por uma camada média letrada, como dizia Clóvis Moura, a maior parte desses movimentos conseguiu mobilizar sempre residualmente e com enormes dificuldades os negros pobres das periferias das grandes cidades, à semelhança do que ocorre com os partidos da esquerda da atualidade, dirigidos, no geral, pelos mesmos setores.

Alguns movimentos (rap, hip hop e por aí vai) conseguiram até certo ponto levantar a voz da periferia fazendo a denúncia das condições de vida, do racismo etc. Alguns grupos até avançam na atualidade para movimentações mais organizadas politicamente, conseguindo associar a questão do racismo à exploração capitalista etc. Mas também é ainda residual.

Parece então que temos um movimento ainda pequeno que se organiza mais amplamente na luta contra o racismo e a exploração capitalista. Outro grupo, um pouco maior e até certo ponto ligado a este, que faz a denúncia da sociedade burguesa e do racismo, mas se compreende como um movimento mais cultural que político diretamente.

Onde está a massa dos jovens negros e pobres, então? Em minha opinião essa massa está como que naquela fase inicial dos movimentos negros: reivindicando sua integração à sociedade, em particular, pelas características atuais, ao consumismo egoísta, que tem como manifestação sensível o sucesso impressionante entre eles do chamado funk ostentação, mas que também se manifesta numa estreita faixa de jovens que acessam a universidade, o emprego formal e começa a ter ilusões semelhantes com a sociedade em que vivemos… Isso não é “culpa” deles, as coisas apenas se processam assim: é razoável que queiram ter acesso ao que lhes é enfiado na cabeça o tempo todo e por todos os meios como sinônimo de sucesso e liberdade. Isso também é violência exatamente porque vela a exploração. Marx disse que “o escravo romano estava preso por correntes ao seu proprietário; o trabalhador assalariado o está por fios invisíveis”.

Esses jovens nada reivindicam, a não ser a possibilidade de serem exatamente iguais aos que lhes perseguem em estupidez, em egocentrismo e consumismo.

Quem sabe os movimentos negros e as organizações progressistas dos trabalhadores consigam fazer com que parte dessa juventude compreenda que a luta é outra, que o problema é maior e mais extenso que a distância que separa os olhos do umbigo ou das vitrines. Isso será ótimo. Mas o caminho para isso é longo e passa, necessariamente, por redefinir o foco das lutas e lembrar que não é a integração individual ao consumismo que pode levar a uma transformação definitiva da sociedade, que enterre de uma vez por todas o racismo e os preconceitos de todos os tipos. Nosso problema é sem dúvida de etnia, de gênero, de orientação sexual, mas é também de classe, ou diria melhor, as questões de classe compõem o pano de fundo de todas essas contradições específicas.

Sem que façamos isso, apenas vamos colaborar em reproduzir dois efeitos ideológicos que muito contribuem para a dominação de classe burguesa: primeiro, o sonho do enriquecimento individual; segundo, a violência de fazer com que a vítima seja apontada e se compreenda de fato como responsável pela violência que recebe.

Foi apontando a inferioridade de outros povos que os conquistadores justificaram sua dominação. É apelando à ausência de méritos pessoais dos mais pobres e, dentre eles, dos negros que a dominação de classe ganha um aliado poderosíssimo.

Em minha opinião é apenas o poder aquisitivo que difere os setores médios raivosos e reacionários e os jovens fãs do “funk ostentação”, ou os que estão encantados com o “canto da sereia” da integração individual via mérito pessoal amplamente pregada nas faculdades. Essa não é, evidentemente, uma diferença insignificante. O que me parece mais triste é que ideologicamente eles são a mesma coisa.

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2 comentários sobre “Racismo e capitalismo como complementares: a atualidade do tema e o significado do “funk ostentação” ou da “integração” individual.

  1. Cesar Mangolin, sou advogada, branca e de classe média baixa, conforme classificação na sociedade capitalista que vivemos. Apesar de entender que todos os movimentos de rua e a criação de partidos políticos que realmente se preocupem com o tema da discriminação em geral, sejam muito importantes, entendo que há só uma forma de desfazer esse nó cego.
    O Código Civil diz que a família é o cerne da sociedade. É uma verdade imposta, não resta dúvida, mas seja qual for a espécie de família em que se viva, onde houver responsabilidade sobre crianças e jovens, tais problemas. a meu ver, devem ser tratados não só através da verbalização, como também através de atitudes daqueles que “servem de exemplo” dentro do contexto familiar. Ninguém pode ficar dormindo até meio-dia no dia que a faxineira vai. Ela não é obrigada a ficar esperando quem quer que seja acordar, para iniciar seu trabalho. Isso é um desrespeito com a trabalhadora/trabalhador. O valor do trabalho tem que ser ensinado desde cedo. Ela/ele não é menos importante. O trabalho que exerce, possibilita que a dona ou dono da casa, tenha tempo de exercer outro trabalho. Quer comprar alguma coisa? Desde cedo deve-se colocar em questão a necessidade. Acho que ensinar os jovens a serem minimalista quanto à posse de bens, ajuda muito. Precisa comprar? Tem utilidade? Evitar levar os filhos aos shopping centers também acho uma boa providência. Lugar claustrofóbico, com vários apelos ao consumo e caríssimo.Porque não comprar de um artesão, num brechó (viva a reciclagem). O mais importante: não se pode cair no faça o que eu digo mas não faça o que eu faço. As atitudes devem ser tomadas por todos dentro daquele contexto. Cumprimentar o Porteiro tem que ser uma obrigação. Respeitar o professor, outra. Se discorda, argumente. Achou uma criança perdida, auxilie. Pessoa idosa coopere. E isso tem que ser ensinado em relação a qualquer pessoa. Solidariedade não pode ver cor, orientação sexual e gênero. A conduta ensinada deve mostrar que o comportamento do indivíduo deve ser independente da conduta vista nas ruas. Acho que só mudando a família e essa forma conservadora de convívio “modelo” (homem, mulher, um casal de filhos e um cachorro tem sido passados como padrão), por ela ser o cerne da sociedade, como já dito, pararemos de criar mais “ditadorezinhos” e consumistas discriminadores.
    Um bom exemplo disso seria dar para a leitura dos jovens o seu texto acima. Não podemos parar de tentar e ficar atento aos socialistas de palanque.
    Achei excelente seu texto.
    Marcia Perrone

    1. Marcia: obrigado pela leitura e pelo comentário. Concordo com as atitudes positivas que você indica, mas minha convicção é devemos ir além. Nosso objetivo deve ser o de resolver os problemas sociais que massacram os mais pobres em particular. Por isso luto contra a sociedade capitalista. Não sou socialista de palanque, como você menciona, mas alguém que entende que é possível construir outra sociabilidade e que vê no socialismo uma saída viável, avançada e capaz de, estruturalmente, encaminhar a solução desses problemas. As atitudes dentro dessa ordem capitalista podem ter um efeito educativo, pode gerar a mudança de hábitos, mas não muda o fato de que vivemos uma sociedade profundamente desigual e que precisa ser desigual para que seja capitalista. Pensar nas ações d presente precisa estar casado com um projeto de futuro, de um mundo mais justo e razoável para se viver. Eu chamo isso de socialismo, de comunismo… Independente do nome que queira dar, se acredita na necessidade dessas mudanças, pode ter certeza de que estamos do mesmo lado. Mais uma vez agradeço a leitura e o comentário. Fique sempre a vontade em fazer críticas e sugestões. Isso engrandece o blog e faz com que cumpra seu objetivo: de ser um pequeno espaço de debate de ideias, aberto a todos. Abraço!

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