O crucificado na parada do orgulho LGBT…

Cesar Mangolin

Há pessoas reagindo muito mal ao ato simbólico de representar com a figura de Cristo crucificado as violências de toda sorte vividas pela população LGBT… O argumento dos menos violentos e preconceituosos procura ponderar que a religião deveria ser respeitada, já que os que participavam ali exigiam respeito à sua orientação sexual. Aqueles outros argumentos, preconceituosos e que inspiram mais violência nem merecem ser mencionados.

Mas, talvez, os que argumentam identificando no ato um desrespeito à religião cristã podem estar abertos a um diálogo mais franco, ou pelo menos parte deles. Para estes é que escrevo hoje, usando uma linha de raciocínio diferente da que andam expondo. Peço paciência e que cheguem até o final do texto.

Eu não sou cristão, digo desde já. Fui há não tão longínquos 25 anos atrás… O tempo, implacável, simplesmente passa. A sensação de ser mais ou menos rápido depende da intensidade da vida. A impressão que tenho é de que foi muito, muito rápido. Mas vamos lá…

No meu tempo de cristão fui me ligando à teologia da libertação. Para os que não conhecem, um belo movimento que sabia traduzir as verdades de fé e a mensagem bíblica levando em conta a vida concreta na periferia do sistema capitalista, daí sua importância política na América Latina. Ela (a TL) persiste, sem dúvida, mas foi sufocada pela própria Igreja Católica (onde nasceu), pela repressão dos governos ditatoriais e pela exportação do pentecostalismo e do fundamentalismo made in USA, inclusive a chamada Renovação Carismática Católica, a versão pentecostal e individualista dos católicos. A CIA e as grandes corporações interessadas em sugar o sangue e as riquezas da parte sul do Continente financiaram largamente os santos missionários pentecostais e também os mórmons e adventistas. Centrados no próprio umbigo, certos de que a salvação vem do céu e crentes na ação do Espírito Santo e, ao mesmo tempo, de Satanás, os novos cristãos latino-americanos não atribuiriam mais a sua miséria às relações sociais perversas nas quais vivemos e à ação das grandes corporações multinacionais.

Satanás, o Espírito Santo e a ausência da realidade concreta formam a trinca diabólica (no sentido do que divide…) desse cristianismo calcado no individualismo, no consumismo e em posições moralistas e politicamente conservadoras. A teologia tradicional e a teologia da libertação perderam espaço para a teologia da prosperidade e pela relação mercantil entre o fiel e seu deus. Claro que isso tudo, por corresponder à ideologia dominante em formações sociais capitalistas, encontrou amplo espaço de aceitação e reconhecimento.

Mas tudo isso é contrário à mensagem evangélica, que poderia ser resumida no mandamento supremo de que todos se amem uns aos outros. É contrária à grande mensagem dos discípulos que fugiam amedrontados após a morte de Jesus e encontraram, em Emaús, um estranho que lhes acolheu sem nada querer em troca. Diz a Bíblia que quando esse estranho dividiu o pão, eles reconheceram ali Jesus. Não porque Jesus apareceu, como interpretam alguns, mas porque ao repartir o pão eles perceberam que a mensagem do seu mestre estava viva e precisava ser difundida e vivida, mesmo após sua morte.

Essa postura atual dos cristãos é contrária à própria vida e exemplo de Jesus: ele andava com aqueles que eram desprezados, marginalizados e considerados pelos judeus amaldiçoados por Deus. Os deficientes físicos e mentais, os mais pobres, as prostitutas, os cobradores de impostos… Jesus não apontava o dedo para supostos amaldiçoados por Deus. Ao contrário, criticava e combatia os moralistas da época, os apontadores de dedo, aqueles que acreditavam saber o que Deus queria e julgavam e condenavam ao inferno desde já aqueles que não estavam vivendo de acordo com o que pensavam.

Foram estes os responsáveis pela morte de Jesus… Seguindo a lógica da fé, mataram o próprio Deus acreditando fazer o que Deus queria… E isso baseados num moralismo tolo, mas violentíssimo, numa visão da vida baseada em rastejar-se e pedir piedade a um deus que vai aparecer aos demais como cruel e genocida, que condena aqueles que criou por não submeterem-se à sua lógica sádica e psicótica… Aquelas mensagens centrais do evangelho viram letra morta…

Jesus morreu crucificado, mas estava já crucificado naqueles com os quais gastou a vida e pelos quais morreu: os marginalizados pelos supostos detentores das verdades de fé. Como dizíamos nos tempos de teologia da libertação, Jesus está crucificado ainda hoje nos mais pobres, nos oprimidos, nos marginalizados, nos que sofrem todo tipo de violência, também nas vítimas do moralismo intolerante dos que se julgam agora os portadores das verdades de fé e donos da chave do céu.

Os cristãos de hoje em dia portam-se como os judeus dos tempos de Jesus… Matariam igual e novamente seu Deus caso ele se aventurasse por aqui novamente. Perdem a oportunidade de vê-lo crucificado na violência cotidiana à qual está submetida a população LGBT, que nada faz a não ser tentar viver a vida com alguns momentos de felicidade, assim como faz todo o resto da população, submetidos às mesmas relações perversas.

O ato simbólico de ontem pode ter desagradado muitos desses cristãos moralistas e violentos… Mas tenho certeza de que seu Deus estava lá, com os que reclamavam a violência gratuita sofrida cotidianamente, assim como fez quando esteve vivo por essas bandas.

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8 comentários sobre “O crucificado na parada do orgulho LGBT…

  1. Boa tarde Cesar.

    Parabéns pelo texto!

    Eu concordo com tudo, porém, eu não consigo concordar com atos de vandalismos contra devoções alheias: Por exemplo: chutar, quebrar, urinar em imagens, crucifixos, ou seja, em símbolos religiosos. Você não acha que “esses” também não estejam sofrendo perseguições, uma perseguição religiosa?

    Um abraço,

    E parabéns pelos artigos.

    Julio Brizola.

    Enviado via iPhone

    >

  2. Confesso que não gostei nem um pouco daquela representação da mulher crucificada. Ao mesmo tempo, creio que Deus tem tanta paciência e misericórdia com o pessoal do movimento LGBT como tem com qualquer um de nós quando cometemos nossas rebeldias e pecados. Por isso, não quero ficar julgando ninguém, o único que pode julgar é o próprio Deus. Concordo com o artigo no ponto em que diz que Jesus andava com os pecadores, porém, o caminhar com Jesus levava estas pessoas ao arrependimento e à mudança de vida.

    1. tente pensar assim: é razoável que o cristão queira fazer com que outras pessoas vivam da maneira como ele acredita. O que não é razoável e violentar as pessoas para que elas sejam algo que não querem, ou não podem ser. Convencer alguém a assumir a fé cristã é algo legítimo para os cristãos, assim como para qualquer outro que acredita em algo. A estupidez está em ficar apontando o dedo, desrespeitando e praticando violências diversas com aqueles que., simplesmente, não vivem como os cristãos pensam que deveriam viver. É apenas isso e sei que você também pensa assim. abraço!

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