Não é preciso morrer para estar morto

Cesar Mangolin

Um texto curto com a intenção de ser um convite à reflexão …

Camus escreveu que o grande problema da filosofia era o suicídio: saber se a vida deveria ser ou não vivida era a grande pergunta… Ele não defendia o suicídio. Pelo contrário, acreditava que o absurdo da vida deveria ser vivido: a vida deveria ser agarrada com revolta e com paixão.

Mas o suicídio não depende apenas da morte do corpo. Não é preciso morrer para estar morto. A sociedade capitalista desenvolveu uma grande capacidade de subjugar as pessoas através das relações de trabalho e também de controlá-las e convencê-las à opção pela massificação, através da disciplina, da vigilância, dos meios de comunicação de massa. Claro que a ideologia está presente aí, mas é assunto para outros textos.

O que estou tentando dizer é que as pessoas não vivem a vida, à maneira como Camus dizia. Agarrar e viver o absurdo da vida significa mais do que virar um ponto a mais na massa… Mas a pressão cotidiana é a da adequação ao que parece ser e é apresentado como sendo o “normal”. Contra a ordem, contra a ideia de normalidade, tudo que vier é desvio, é anormal e precisa ser evitado/reprimido/subjugado, em síntese, tornado “sujeito”, ou seja, sujeitado, submetido, aquele que passou por um processo de sujeição.

Oswaldo Montenegro tem uma música chamada A Lista, que é como uma reflexão de alguém numa idade mais adiantada sobre o processo da vida. Num determinado momento, um verso diz: “quantos defeitos sanados no tempo eram o melhor que havia em você”. Isso quer dizer que tudo o  que aparece como original, como diferença, vai necessariamente aparecer como defeito, como dito acima. Desde que nascemos, somos constituídos como produtos desse meio e o tempo todo tolhidos para que nada de original se desenvolva, para que a vida não seja agarrada e vivida com revolta e paixão. Isso faria com que sociedades como a capitalista durassem muito, muito pouco.

A diluição das pessoas num caldo homogêneo, ou numa massa disforme, que não permite perceber ali mais que um exército de zumbis programados para executar as mesmas atividades cotidianamente, para pensar e falar as mesmas coisas, é o que chamamos de “maturidade”.

Aos que se “desviam” da normalidade estão reservadas as perseguições e exclusões de todo tipo, assim como os coquetéis de drogas manipulados pelos psiquiatras.

Somente será possível viver criativamente as diferenças numa sociedade baseada na igualdade sócio-econômica. Sociedades desiguais como a capitalista produzem, necessariamente, massificação, uniformização. Portanto, o problema não está em indivíduos, mas nas nossas relações… Este último parágrafo daria assunto para vários livros!

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2 comentários sobre “Não é preciso morrer para estar morto

  1. Parabéns por este é pelos outros artigos escritos que refletem tão bem a cruel realidade capitalista. Concordo quando afirma que essa realidade não apenas escravisa o homem, mas o torna um morto vivo. Massa de manobra, acritica, que obedece direitinho às ordens. Muitos ainda sentem-se “felizes”. Os que percebem as armadilhas e tentam fugir dessa realidade podem ser cooptados por equipamentos especializados em destruir mentes desobedientes: órgãos de repressão, medicina psiquiátrica, indústria de medicamentos “tranquilizantes”, de bebida alcoólica, traficantes de drogas, dentre outros. Esses mortos vivos, vitimas desses equipamentos, passam a ser vistos como responsáveis pela instabilidade de um sistema que cada vez mais concentra a riqueza nas mãos de poucos, rumando, assim, para a sua autodestruição. Morto vivo não faz revolução… Que merda!

  2. Concordo, no sentido de que em uma economia não desenvolvida, seja ela capitalista ou não, não se oferece a liberdade para que as pessoas escolham suas carreiras. Sendo assim, infelizmente, muitos não desenvolvem seus verdadeiros talentos, sendo levados a desempenharem um trabalho que as sustente ao invés daquilo que realmente lhes agrade.

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