O fascismo cotidiano

Cesar Mangolin

Segue um texto rápido e assistemático, quase uma conversa sobre preocupações que têm me tomado nos últimos tempos. Tem intenção de servir para o início de um debate com os que me presenteiam com a leitura do blog.

O fascismo foi, sinteticamente, uma das maneiras de reordenar países capitalistas num momento de crise aguda do capital e de acirramento da luta de classes. Teve como características gerais forte intervenção do Estado em favor do grande capital, ditaduras sanguinárias, eliminação dos partidos e eliminação física dos opositores, políticas e discurso nacionalista e uma postura expansionista externamente.

Há muito que se estudar sobre o fascismo e suas vertentes, inclusive para perceber que a síntese que faço acima é, obviamente, incompleta. A intenção é apenas diferenciar o fascismo como regime e o que chamo aqui de fascismo cotidiano, embora os dois sejam execráveis na mesma medida.

Foi Nelson Werneck Sodré, importante historiador brasileiro, infelizmente mal estudado e esquecido por muita gente, quem lançou um livro com o título “Fascismo cotidiano” na década de 1970. Ali ele comentava notícias de jornal que expressava as violências todas às quais estavam submetidos os brasileiros, desde medidas do governo até ocorrências em espaços públicos.

Penso que vivemos uma escalada crescente do que podemos chamar, com Sodré, de fascismo cotidiano. Os exemplos são diversos. Somente nas semanas passadas tivemos a aprovação (festejada…), via golpe, da redução da maioridade penal; um sujeito estúpido se infiltrou na comitiva da presidente em visita aos EUA para  chamá-la de “vagabunda” e “pilantra”; adesivos com a região genital da presidente na entrada do tanque de combustível dos carros; uma jornalista negra da Rede Globo foi ofendida baixamente pelas redes sociais; vários casos de agressão a homossexuais (inclusive homicídios); videos da polícia executando bandidos rendidos; agressões sofridas pelos seguidores de religiões afro-brasileiras etc.. Enfim, a lista é sempre grande. Sem contar a loucura histérica das redes sociais.

Mas por que vivemos esse momento? Penso que devemos, todos que ainda pensam, produzir bastante sobre. Há, sem dúvida, razões diversas que contribuíram para chegarmos a esse ponto, que precisam ser melhor pensadas, identificadas e devidamente combatidas. Da minha parte, pretendo escrever outros textos, menores, para refletirmos juntos sobre isso e aceito as contribuições dos que quiserem participar.

Hoje vale pensar em um desses pontos. É comum ao fascismo cotidiano escolher um inimigo em comum. Tudo passa a ser culpa desse grande mal que precisa ser combatido. Os alemães escolheram os judeus, e atribuíam algo de judaico a tudo que resolviam destruir, como fizeram com os comunistas…

Encontrar um inimigo comum é bastante confortável: compreender a conjuntura em que vivemos exige, sem dúvida, um certo empenho intelectual. Um inimigo elimina essa necessidade. No nosso caso o inimigo é o PT e, no bonde, a esquerda toda. Há problemas para todos os lados, sem dúvida. Mas trata-se de um caminho apenas confortável e burro: “eliminemos o PT e a esquerda e tudo se resolve”. Os nazistas diziam: “eliminemos os judeus e tudo que está ligado a eles e tudo se resolve.”

O fato mesmo é que não resolvemos nada assim e, pior ainda, essa gente toda não sabe explicar, quando perguntada, o que exatamente quer resolver. Parece que essa onda permite que qualquer um coloque para fora todas as suas frustrações de qualquer jeito. É um efeito semelhante ao que faz um torcedor de time de futebol matar outro…

Em tempos de histeria coletiva, das mais burras da nossa história, as pessoas perderam a capacidade de ouvir, de pensar: elas apenas lançam ódio destilado pela ignorância para todos os lados. Não é possível discutir nada com elas.

Não há fatos, não há história, não há lei, não há nada: eles apenas latem como cães raivosos, repetindo uma ladainha decorada, frases prontas, moralistas. Há os que defendem o retorno da ditadura… Há fatos de sobra para que qualquer um possa entender que a redução da maioridade penal, por exemplo, não resolve o problema da violência e, pelo contrário, tende a agravá-lo. Alguém foi capaz de escutar? Não. Apenas colocam um ódio lamentável em tudo que tocam. Um ar de violência extrema, como os episódios de agressão (verbal e física) que muita gente tem sofrido por ser identificada com o governo ou com a esquerda.

Dia desses um homem foi agredido fisicamente porque lia a revista “Carta Capital”. Uma aluna minha, que estuda economia, sofreu hostilidades dentro de um ônibus porque lia um dos livros de O Capital, de Marx. Vocês não fazem ideia da quantidade de ofensas e ameaças que chegam aqui no blog semanalmente…

A história nos mostra que o resultado disso nunca é bom. Parece aqueles momentos em que somente depois de fazer uma merda muito grande é que as pessoas param e pensam no tamanho da bobagem que produziram. A histeria coletiva leva a isso. Nós, animais estúpidos, somos capazes de organizar matanças e erigir como grande líder uma besta como Hitler e segui-lo em suas atrocidades. Não foi Hitler ou o partido nazista quem gerou a histeria coletiva alemã, é o contrário: a crise e a histeria faz com que esses piores exemplares da nossa espécie apareçam como líderes, porque são burros tanto quanto, porque falam a partir do senso comum, porque seu discurso de ódio é reconhecido pelos que têm sede de ódio e violência. É isso que torna gente como Malafaya, Bolsonaro e esses tontos de grupos golpistas que nem sabem do que estão falando famosos.

Vale refletir melhor sobre isso tudo. Vivemos um momento difícil, mas ainda é possível reverter suas possibilidades mais trágicas. Isso é tarefa de todos os que ainda são capazes de pensar e não se faz apenas escrevendo, é evidente. Vale tentar por todos os meios estancar a irracionalidade que pauta nossas relações atuais.

A sede de sangue é insaciável… Logo vão querer mais… Essa direita histérica de classe média que soltou as asas nos últimos anos compensa suas frustrações com violência. Violência verbal, no início, mas que vai se transformando em violência direta dia após dia… É o fascismo cotidiano ganhando terreno.

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11 comentários sobre “O fascismo cotidiano

  1. César vejo que vivemos um período conturbado e perigoso, com uma possível instabilidade social ainda maior, já que a imprensa alimenta esse ódio diariamente, haja vista que a discussão da maioridade penal ficou a cargo dos apologetas do ódio, de “intelectuais” do peso de Marcelo Resende e Datena, foi impossível fazer uma discussão racional sobre o tema. Perdi as contas de quantas vezes amigos e conhecidos me mandaram levar bandidos pra casa, já que os defendia tanto. Os ataques políticos então nem sem fala, a piada “nem todo bandido é petista, mas todo petista é bandido”, já consagrada por essa gente então já me encheu, pois não adianta querer conversar, se vc levanta “a bandeira vermelha, é farinha do mesmo saco”. Em meio a isso temos ainda como você bem lembrou racismo, homofobia, e uma série de bizarrices. O pior é que no meio dessa desgraceira toda, parece que o governo fica alheio a isso tudo, tivemos ataques direto a presidência, com vazamento selecionados na lava jato, e parece que o Planalto não fica em Brasília, que não é com ele. Esse governou parece não perceber a necessidade de se retornar à base que o elegeu na última eleição, voltar ao chão da fábrica, a realidade concreta, como você bem diz em seus textos. Vemos uma disputa no nosso parlamento entre o presidente da Câmara e do Senado, como se disputassem quem vai ser o Primeiro Ministro do país. Os dois sujeitos aparentam ter atualmente mais poder que a presidente. Ficamos preocupados com loucos pedindo a volta dos militares, porém podemos ver um golpe de outro tipo, como a implantação do parlamentarismo, ou ainda pior, uma teocracia falso moralista e hipócrita.

  2. Buenas, camarada! Uma vez que você disse que pretenderá escrever mais sobre o tema, sugiro duas referências para incrementar nossa “imaginação sociológica”: 1 – a solidariedade mecânica, tal como descrita por Durkheim, é uma consciência coletiva que demanda punição ao que não faz parte da similitude e, obviamente, elimina os diferentes; 2 – a personalidade autoritária, tal como descrita por Adorno e por Marcuse, pulsa diariamente entre os contingentes populacionais dos integrados ao status quo, uma vez que teve a individualidade corroída, ou mesmo não construída, e identifica-se às autoridades dominantes para veicular, de modo capitar, a dominação e a violência nos lugares em que o estado-leviathan tem dificuldade para alcançar.

    1. Fala mano. Estou pensando em estimular um debate em torno desses temas e publicar no blog. Você poderia escrever um texto curto (para que as pessoas leiam…) e com um linguajar simples (para que seja compreendido por todos) sobre isso e publicamos no blog. Que acha? Minha ideia é que precisamos encontrar canais de comunicação com o pessoal que não está mais avançado na elaboração teórica, como contribuição que esse meio pode dar aos problemas que enfrentamos. Escrever para os que já sabem disso é chover no molhado e escrever para os histéricos de direita é jogar palavras fora, visto que não estudam nada. O alvo é esse povo que está meio perdido, mas percebe que há algo de podre no reino. abraço!

    1. é um desafio escrever não para os que já sabem o que vamos dizer ou para os iniciados. Mas penso que vale usar esses espaços para escrever aos que buscam informação e não possuem maior aprofundamento teórico nesses temas. Tente aí! Penso ser uma tarefa interessante. abraço.

  3. O pior é que esse povo nem de direita é! Eles são só massa de manobra, são contra o governo e só! Vão na manada!
    Atualmente estou em um intercambio e desconheço a situação real do Brasil quanto a esta histeria social, mas fico perplexo pelo o que vejo nas redes sociais! Parece mais uma guerra santa! Ou uma luta de times! Pessoas que não fazem a mínima ideia do que estão falando e continuam destilando discurso de ódio! E tem mais, ao que percebo, vem dos dois “lados”!
    É uma hipocrisia aliada a uma contradição imensurável!
    Achei o texto excelente! Porém não sei se é certo o uso do termo Fascismo. Não conheço a fundo para poder afirmar, mas acho que esse movimento que ocorre no Brasil atual deveria ter um outro nome, um neologismo talvez, que consiga expressar realmente o que se passa aqui; uma alienação geral, onde o senso comum é verdade absoluta e o pensamento crítico foi banido!
    Eu costumo dizer que, temos o time do PSDB e agora o do PT (os próximos a entrar são os Evangélicos e os “militares”, vide bolsonaro).

  4. Meu caro, como havia comentado, comprei o citado livro e, entre uma leitura aqui e outra acolá, a cabeça vai fervilhando. No que diz respeito ao Brasil e o fascismo cotidiano, comecei a interpretá-lo antes mesmo de saber da existência do livro do Werneck, algo que, posteriormente, me acalmou, pois não estava pensando nenhuma besteira, mas me desesperou, justamente por comprovar que eu não estava pensando besteira, mas deixa de enrolação, vou direto ao ponto que me instiga: a urbanização e o fascismo cotidiano.
    Como assim?
    Vou explicar.
    Residindo no Rio, é impossível não comparar realidades, afinal, sou paulistana, né. Aqui é o horror à preto, em sua maioria favelado, ouvinte de funk, “segregado” nas realidades periféricas conhecidas pelos Complexos (Alemão, Penha, Maré) e Morros (Borel, Formiga, Macaco, Fallet, Estácio, etc) que, no projeto atual de urbanização, para se encaixarem na realidade turística e de capital produtivo estrangeiro (que no caso, também é nacional, pois é um capital produtivo baiano, Odebrecht, entre outras grandes empreiteras, que está sendo exportado), recebem projetos de segurança pública que buscam implementar um projeto maior, porque nacional, que é o PRONASCI (Programa Nacional de Segurança com Cidadania, da época do Tarso Genro), mas que ignorou, por completo, o pensamento reacionácio e conservador da formação da PM e da elite política estadual que, invariavelmente, ocupa-se do bem estar privado e branco, por isso, um suposto menor de idade que, supostamente, matou o ciclista na Lagoa Rodrigo de Freitas é achincalhado por aquele que, no mínimo, deveria medir palavras antes de falar que a redução é solução, caso do prefeito carioca, quando, na verdade, a solução será no morticínio do jovem preto morador de favela que, infelizmente, é pobre, que, infelizmente, não é aceito nos clubes cariocas porque não consegue acordar fisicamente bem – depois de uma jornada exaustiva de trabalho que foi noite adentro – para as disputas atletivas que garantiriam uma bolsa (reproduzindo o caso de um conhecido que era atleta do Flamengo, mas que trabalhava em shopping e não tinha folga). E as mulheres, então? Ah, as mulheres “faveladas”. Elas são violentadas e ninguém viu; são estupradas e ninguém viu; são assassinadas e ninguém viu.
    Em SP o problema reside, em grande parte, nos nordestinos e, coincidência, essa é a minha origem, mas quem diria isso para mim? Sou branca (mas residi na periferia por dez anos), fiz faculdade (mas não tinha dinheiro suficiente para pagar e, à época, consegui bolsa na FMU e ressarcimento de 70% no trabalho), comprei um carro, resido no Rio, atualmente, consegui fazer um mestrado e, felizmente, a vida da minha família melhorou… mesmo assim, há quem torça o nariz pelo fato de eu me orgulhar do nordeste que me deu origem.
    Exemplos bobos, mas que, sim, são pré-conceituosos e, por serem formados de uma psiqué coletiva, são fascistas.
    Ah, em tempo, a incapacidade de os defensores dos mercenários entenderem porque são fascistas é hilária, para não ser nojenta, justamente porque o mundo não se ocupou, com responsabilidade, de desfazer o nazismo a partir de sua real origem, a eugenia praticada nos EUA; o fascismo de Mussolini; o horror aos negros do Império Britânico na Tazmania e Índia… e, assim, tudo o que eles fizeram, inclusive criminalizando a URSS, é bom… será?
    Poxa, que merda, né!? Ter muito que falar de fascismo, AINDA, é uma merda!
    Beijos saudosos, meu caro!

    1. Pois é, Mari. Concordamos nisso tudo e também no fato de que, infelizmente, é necessário tratar teoricamente e combater politicamente isso que estamos chamando de fascismo cotidiano. Tenho estudado o tema da ideologia a partir das obras de maturidade de Marx faz um tempo. Parece que isso não é levado em conta em muitas formulações. Essa tendência fácil de tratar nossa causa como uma contradição única (aquela expressa na fórmula capital x trabalho) deixa de lado a compreensão de outras tantas contradições que se sobredeterminam (como dizia Althusser) e que podem apresentar campos fecundos de atuação dos comunistas, contradições derivadas com forte potencial revolucionário que são costumeiramente desprezadas pelos que fetichizam a realidade em nome de supostos programas messiânicos. Há muito, mas muito mesmo a estudar, como condição para uma militância consequente. Os temas que levanta são a prova disso. Fico feliz em vê-la empenhada nisso. Estamos juntos. Beijo.

      1. Estamos juntos, sem dúvida! E eu imersa em Reich… a crítica que você faz, da fórmula mecanicista “capital x trabalho” na economia social é, justamente, a crítica que ele faz aos “marxistas” germânicos que ignoraram a maturidade de Marx e Engels, diga-se de passagem, só vermos por Ideologia Alemã, que é um livro pelo qual viciei. Beijos e até o próximo debate.

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