“Se deus existe, ele deverá implorar pelo meu perdão!” – sobre nossos tempos sombrios…

Cesar Mangolin

Li certa vez que num campo de concentração encontraram um pequeno texto em que seu autor afirmava que somente no dia seguinte a tristeza lhe abateria, por aquele dia permaneceria feliz. Talvez tenha usado isso como uma oração diária, uma tentativa de viver um dia depois do outro, na esperança de dias melhores. Ali no fundo, talvez, havia ainda alguma certeza (e uma ilusão) de que a festejada capacidade racional da nossa espécie seria capaz de enterrar tudo aquilo que aparecia como insano e irracional. Produto da doentia e perversa lógica que fundou e alimenta a chamada “civilização ocidental”, o pobre que vivia aquela tragédia mal sabia que apenas participava da própria festa da racionalidade humana.

Eu me rendi nos últimos tempos ao assalto dos fatos e tenho permitido que o mesmo tipo de esperança corra pra longe, como única maneira de morrer por último. Sempre brinquei que a esperança é a última que morre porque é a primeira que corre…

Mas é apenas um desabafo triste, nada mais. Mas tristeza que merece ser sentida e refletida radicalmente. Bastam apenas fatos recentes: as mortes na Praça da Sé, a chacina de Osasco/Barueri, os guaranis sendo massacrados pelo latifúndio, o avanço da barbárie ocidental no oriente e a tragédia dos imigrantes… A foto do garoto sírio desta semana apenas sintetiza o quanto nossa espécie é desprezível. A foto do pai líbio chorando e abraçando os filhos  em desespero rasga o corpo ao meio, de alto a baixo.

Não deveria ser possível que no dia seguinte ainda tenha quem faça o discurso  do individualismo meritocrático, quem tente arrumar explicações razoáveis, quem considere que, apesar de triste, cada qual deve cuidar da sua vida. Ninguém deveria conseguir tocar a vida adiante depois de ver essas coisas, assim como não deveríamos conseguir conviver com tanta violência, exploração e ódio. Corrói ver a miséria, corrói ver gente humilhada. Os barracos, as palafitas, as tendas de plástico e os corpos ao relento. Corrói ver a injustiça, a desigualdade…

Não há argumentos razoáveis para defender essa ordem. Não há tampouco argumentos religiosos para defender essa ordem. Aliás, cada vez mais tenho pena das religiões. Participam desas atrocidades com uma tranquilidade invejável. Judeus matando muçulmanos; muçulmanos matando cristãos; cristãos matando budistas; budistas matando muçulmanos, cristãos matando judeus… Enfim, só recentemente temos notícias de todos esses casos. Pelos séculos então! É de assustar: todas as religiões têm até a tampa da cabeça afundadas em sangue inocente…

Talvez não haja, simplesmente, explicação. É apenas assim. Melhor não tentar persistir na razão e, por agora, apenas sentir a tristeza como um ácido corroendo as entranhas. Um tempo sem ciência, sem filosofia, sem fé.

Lembro agora de outra frase encontrada também num campo de concentração, que bem serve para nosso tempo, independente da fé nas religiões ou do endeusamento da razão. Mais um daqueles que, como os de hoje, experimentava a capacidade da nossa espécie em fazer o mal e causar dor, cravou numa madeira: “Se deus existe, ele deverá implorar pelo meu perdão!”

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6 comentários sobre ““Se deus existe, ele deverá implorar pelo meu perdão!” – sobre nossos tempos sombrios…

  1. Se os melhores ingredientes para preparar um determinado prato são entregues em mãos nada habilidosas e que ainda deixe esse prato queimar, seria razoável culpar o forno? Sinceramente, acho que Deus não tem nada a ver com isto.
    Um amigo postou em seu perfil no Facebook que, mesmo reconhecendo a força da imagem, não entendia o motivo dessa comoção toda, pois nós viveríamos, segundo ele, uma tragédia humanitária que já dura 511 anos! Temos indignação seletiva. Digo isto sem emitir juízo de valor, por favor! Aqui busco apenas ressaltá-la como característica psicológica do atual estágio evolutivo. É, evolutivo. Em qualquer site de busca conseguimos ver imagens produzidas pelo telescópio Hubble que mostram onde está o nosso sol na Via Láctea. E já há como ver a Via-Láctea entre outras galáxias. Aí sim faz sentido falar em Deus. É a grandeza. Ampliar nos permite pensar na Terra como uma “colônia prisional”, dado o elevado número de pessoas que são capazes de coisas de arrepiar o cabelo do coração!
    Se tudo no Universo evolui por que não admitir que nós também estamos evoluindo?
    Se olharmos pro lado veremos que muitas vidas estão sendo mudados por atitudes completamente desinteressadas de pessoas que simplesmente ajudam. E ajudar também é uma escolha. Precisamos acreditar que dá pra mudar, apesar do escuro da noite em que tardamos. Por opção! Mas um dia seremos melhores e teremos dias melhores, meu amigo. Acredite! A colônia ta virando escola.

    1. Meu caro André: agradeço a leitura e a crítica ao meu despretensioso texto. Digo que o foco não era de quem é culpa, mas a dramática situação daqueles que vivem mais diretamente as nossas misérias e diante do apelo religioso chegam a expressar sua dor com a frase que deu título ao texto. Tenho certeza de que quem a cunhou não estava naquele instante extremo muito interessado em culpas, mas apenas expressando sua dor e seu espanto diante de tanto sofrimento. Eu sou um evolucionista no melhor estilo darwiniano, portanto, tenho certeza de que o processo evolutivo permanece, mas isso não significa que vai do ruim para o bom, do melhor para pior. O processo evolutivo conhece apenas adaptações bem ou mal sucedidas. O mais apto não é melhor, nem mais forte. Pode ser o mais sórdido quando o agente seletivo são condições perversas, como disse João Quartim de Moraes. Mas sigamos adiante. É possível fazer melhor, sem dúvida. Grande abraço!

  2. Só vai haver mudança quando eu passar a enxergar o mal dentro de mim mesmo e perceber que muitas coisas que eu fiz e faço prejudicaram e prejudicam outras pessoas. O mundo se encontra na atual situação porque ninguém se resposabiliza pelo mal. Todo mundo é bom aos próprios olhos, a culpa é lógico, é sempre do outro. Todo mundo cria suas justificativas para praticar o mal, normalmente culpando um terceiro. A lista de culpados em terceira pessoa é longa, vou citar alguns mais famosos: o sistema, Dilma, Lula, Judeus, Deus, religião, capitalismo, comunismo e por aí vai. Assim fica mais fácil, o problema está resolvido, a culpa não é de ninguém, quer dizer, a culpa não é minha, mas do outro. É dificil mudarmos a nós mesmos, e nós mesmos não queremos nossa própria mudança. Por isso vamos continuar vendo notícias como a da praça da sé e continuar lendo artigos como o acima escrito.

    1. meu caro Tercio, agradeço a leitura e o comentário. Para nossa reflexão, seria interessante ir no sentido contrário: a questão não é pessoal, nem as mudanças sociais ~podem ser produto de mudanças individuais. O meio faz o humano, inclusive a maneira como pensa e age… É preciso mudar o meio…

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