“Tchau querida”… Democracia!

Cesar Mangolin

Alguns parlamentares terminavam seus votos ontem lançando ao vento um desdenhoso “tchau querida”, maneira jocosa e desrespeitosa de se dirigir à presidente da República que, por ser mulher e viver numa sociedade machista, tem sofrido num grau a mais as baixezas dessa direita rançosa e preconceituosa. Mas o “tchau” ontem não foi dado  para a presidente. Tampouco foi dado a um partido, ou a um programa de governo e, muito menos, à corrupção: o tchau foi para a democracia.

Insistimos nesses últimos meses que o maior risco que corríamos era esse e que, mesmo os que são oposição ao governo de Dilma Roussef tinham a obrigação de defendê-lo contra a sanha golpista que historicamente ronda a república brasileira.

Não tenho ilusões com a democracia e não a considero um valor universal: ela precisa sempre vir adjetivada, qualificada. Essa adjetivação imprime seu caráter, ao mesmo tempo em que aponta seus limites: dentro da ordem capitalista, falamos da democracia burguesa, assim como em Atenas tínhamos uma democracia escravista. As possibilidades e os limites de uma democracia assim demarcada são postos pela luta de classes, ou seja, é a capacidade de organização e pressão dos trabalhadores que pode alargar ou diminuir, dentro dos seus limites (o da ordem burguesa…) a participação popular. Não podemos negar a importância para as organizações dos trabalhadores desse espaço legal de arregimentação, propaganda e movimentação mais ou menos livres proporcionados por nossa restrita democracia.

No Brasil, de democracia jovem e frágil, o voto é um dos maiores e mais ilustres instrumentos de participação. A cada dois anos, os brasileiros comparecem às urnas e elegem seus governantes e representantes. Mais ou menos iludidos com a força do dinheiro e da ação midiática, mais ou menos convencidos dos seus interesses, mais  ou menos dispostos a manter ou mudar de rumo: não importa para onde, o fato é que podem escolher e podem, até, eleger operários presidentes da República. Isso não é pouco.

Ontem, um precedente que fere de morte essa democracia limitada, mas fundamental, foi aberto: a presidente, eleita elo voto direto da maioria dos eleitores pode perder seu mandato sem que tenha cometido qualquer crime de responsabilidade. Um golpe articulado, que se utiliza arbitrariamente de instrumentos criados para exatamente proteger nossas parcas liberdades democráticas. Isso virou regra no Brasil com a Lava-Jato, essa grande operação seletiva e arbitrária que preparou o terreno do golpe. Fere de morte a democracia porque, daqui pra diante, a lição que fica é que o mandato conquistado nas urnas pode ser usurpado por uma maquinação de gabinete. A lição que fica é que não importa quem a população elege, importam apenas os interesses de algumas frações do grande capital e de alguns bandidos de terno e gravata que povoam o Congresso Nacional.

É necessário ser muito estúpido e mal caráter para afirmar que a corrupção sofreu qualquer dano com o resultado de ontem. Pelo contrário: uma sequência de criminosos reconhecidos votaram pelo “sim”, dirigidos por uma mesa que tinha um ladrão qualificado como Eduardo Cunha e um senhor de escravos moderno e ladrão de galinhas, Beto Mansur. Os brasileiros atentos puderam ver, um a um, de que tipo de gente é feita a Câmara dos Deputados e devem ter se assustado com a baixeza que presenciaram, com as exceções devidas dos que votaram “não”. Seria muito triste e vergonhoso estar ao lado dos que “venceram” ontem… Quem venceu ontem foi a corrupção, foi o preconceito, foi a estupidez violenta das elites brasileiras que, secularmente, chamam de paz social o massacre dos trabalhadores e se inquietam quando eles alcançam ter o que comer todos dias.

Em lugar de “tchau” seria mais correto dizer “adeus, querida”. Essa democracia, com essa qualificação e limite, morreu. Mas que não se iludam os fascistinhas de plantão: saberemos honrar os que combateram para conquistá-la! Saberemos trazer à tona uma outra democracia, de outra ordem, com outra qualificação e que está sendo gestada. Outra democracia que virá à luz sobre os ombros dos homens e mulheres que formaram a coluna vermelha que tomou Brasília ontem. Uma democracia popular, soberana e socialista!

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3 comentários sobre ““Tchau querida”… Democracia!

  1. Pois é caro companheiro Cesar, e o STF assistindo tudo isso caladinho.
    Os aparelhos ideológicos da burguesia são as ferramentas do golpe.
    Abraços

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