Quem prejudica o Brasil?

João Quartim de Moraes *

A miséria intelectual e moral da grande maioria das “justificações” dos votos a favor do golpe parlamentar de 17 de abril já foi fartamente assinalada pelos observadores honestos da política, dentro e fora do Brasil.

Os uivos da alcateia de Cunha e sócios molestaram até os ouvidos do mais prestigioso periódico do capital financeiro britânico. Em sua edição de 21 de abril, The Economist colocou na capa a imagem da estátua carioca do Redentor empunhando uma faixa onde se lê “SOS”. Sem deixar de responsabilizar a presidente Dilma pela contração da economia, a proeminente revista neoliberal constata que aqueles que se empenharam em tirá-la do cargo “são, em muitos aspectos, piores”, citando nominalmente Eduardo Cunha. Na legenda da capa vem a frase “The betrayal of Brazil” (A traição do Brasil). Não terá escapado aos editores da revista que na data em que lançaram este número o Brasil presta homenagem ao maior herói da luta por sua independência. Entregue por um traidor aos esbirros locais do reino de Portugal, Tiradentes foi enforcado e esquartejado em 21 de abril de 1792. A polissemia do termo “betrayal” (que denota tanto “trair” quanto “desapontar”), permitiu a The Economist desqualificar genericamente os dois lados do confronto, mas ao salientar que os piores são os empreiteiros do golpe, a revista deixa claro que traidor propriamente dito foi o solerte vice-presidente.

Tampouco outros jornais de grande influência no campo liberal-imperial, como The New York Times e Der Spiegel, bem como o canal televisivo CNN, engoliram a repulsiva farsa montada pelos trombadões e encenada pelos trombadinhas da Câmara Federal. Alguns jornais, menos dependentes dos humores da alta finança imperialista, como The Guardian e sobretudo The Irish Times, foram ainda mais incisivos. Tom Hennigan, correspondente em Brasília deste jornal irlandês, publicou em 18 de abril um contundente artigo intitulado “Brazil sends in the clowns to vote on Rousseff impeachment” (Brasil junta os palhaços para votar pelo impeachment de Rousseff). O subtítulo do artigo ironiza a cafajestice da farra golpista: “Deputies conduct themselves with all the decorum of drunken fans at a football match” (Deputados se conduzem com todo o decoro de torcedores bêbados num jogo de futebol).

Estas e muitíssimas outras denúncias sérias e objetivas do golpe, publicadas no exterior, contrastam com a campanha de intoxicação mental promovida no Brasil pelo cartel dos grandes meios privados de comunicação social. Os irmãos Marinho e consortes, que apoiaram descaradamente a violência contra o sufrágio universal, tentam agora “limpar” a cena do crime sustentando que a sinistra palhaçada de 17 de abril não configurou um atentado à Constituição. Habituados a desinformar seu público, os irmãos Marinho, patrões da Globo, desinformaram a si próprios ao subestimar a repulsa suscitada internacionalmente por mais esta rasteira que eles patrocinaram contra a democracia. Enviaram a The Guardian um texto pomposo em defesa da destituição da presidente Dilma, imaginando que seria publicado com destaque. O jornal inglês tratou-os com desdém: reproduziu o texto nas cartas de leitores.

Obviamente, a maior providência para “limpar” a cena do crime é negar que houve crime. Os partidos da direita, o cartel dos “donos da notícia”, vários ministros do STF e o moderno Calabar da vice-presidência tentaram intimidar a presidente, acusando-a de difamar o Brasil no exterior, caso falasse em golpe em sua viagem a Nova Iorque onde iria tomar a palavra na Assembleia Geral da ONU consagrada aos problemas do clima. O jornal Valor (de troca) reproduziu a chantagem em grande título na primeira página de sua edição de 22 de abril: “Temer nega golpe e diz que Dilma prejudica o Brasil”. Durante a ditadura militar (apoiada a fundo pelos donos deste e de outros jornais do cartel mediático) “falar mal do Brasil” (isto é dos crimes da Oban, dos Doi codi etc.) era um passaporte para o pau de arara. Para os torturadores aos quais o celerado general Medici conferiu carta branca, o crime grave não era torturar, mas sim denunciar a tortura. Para os golpistas de hoje (entre os quais desponta um deputado defensor fervoroso da tortura), prejudica o Brasil, não o golpe, mas sua denúncia.

Moral, política e ideologicamente, estamos hoje profunda e irreconciliavelmente divididos entre os que consideram que o crime é denunciar o crime e os que continuam pensando que o crime é o crime.

Texto de João Quartim de Moraes Vale ler, publicado originalmente em: http://www.vermelho.org.br/coluna.php?id_coluna_texto=7729&id_coluna=24
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