Retrocesso civilizatório em São Paulo

JOÃO QUARTIM DE MORAES

As manipulações da operação policial-judiciária dita “Lava Jato”, dirigidas prioritariamente contra o PT, exerceram efeito desmobilizador sobre o eleitorado brasileiro. Não era exatamente o que Moro e consortes pretendiam: queriam quebrar a esquerda, oferecendo ao “senso comum” o cadáver moral dos principais dirigentes petistas. Acabaram fazendo estragos maiores. É próprio aos preconceitos generalizar para um grupo amplo, heteróclito e de contornos mal definidos a torpeza atribuída a uma de suas parcelas. O descrédito gerado pelos duvidosos métodos de “delação premiada” acabou afetando os “políticos” em geral, embora não nas mesmas proporções. O cartel dos donos da notícia incumbiu-se de proteger os participantes do golpe de abril 2016, maquilando de “estadistas” alguns dos mais imponentes e contumazes saqueadores de fundos públicos. Os golpistas também se beneficiam de crises agudas de amnésia que acometem a Polícia Federal, a Promotoria e os Juízes, com Moro à frente, cada vez que alguma de suas bandalheiras cai no radar das famigeradas delações premiadas.

Na falta de qualquer outra qualidade intelectual notória, o vitorioso candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo foi esperto o bastante para deixar em surdina sua condição de clone de Alckmin, apresentando-se como administrador, não como “político”. Logrou graças a esta camuflagem aproveitar a fundo o “efeito Berlusconi”: desmoralizados os partidos políticos, o milionário fez sucesso entre os coxinhas prometendo gerir a “coisa pública” com métodos patronais. Foi eleito no primeiro turno, com 3.085.187 votos, deixando bem atrás o prefeito Haddad, candidato à reeleição, que obteve 967.190 votos. O cartel mediático comemorou, eufórico, esta grande vitória eleitoral da direita, mas foi mais discreto a respeito de um claro e grave sintoma de desapreço pelas instituições vigentes: maior do que a vitória eleitoral da direita foi a dos 3.096.304 votos em branco, nulos e  abstenções.

A motivação mais forte desses votos negativos parece-nos decorrer do “efeito golpe”, que afetou principalmente o eleitorado de esquerda e o campo progressista em geral. A revolta contra a cassação do mandato da presidente Dilma, portanto contra a anulação de mais de 54 milhões e meio de votos, levou parcela importante desse eleitorado a expressar seu protesto contra a trapaça perguntando de que servia sufragar um candidato se o veredito das urnas estava à mercê das sórdidas manobras dos deputados e senadores golpistas.

São Paulo é um Estado em que o voto de direita é historicamente forte. Mas em seus grandes centros urbanos e industriais, os comunistas e mais tarde a esquerda petista abriram muitas brechas nas posições do campo dominante. A última delas foi a eleição de Haddad para prefeito da capital. Sem pretender avaliar o conjunto de seu desempenho, em seu ativo ficam duas iniciativas, ambas em defesa da civilização contemporânea: as ciclovias e a redução das velocidades nas marginais. Foi exatamente contra estas medidas civilizatórias que os candidatos da direita e do centro concentraram sua propaganda, brandindo o surrado chavão da “indústria da multa”.

Essa expressão sempre esteve na boca dos contraventores contumazes, que são muitos e perigosos. É preciso forte dose de má fé ou espessa ignorância para não admitir que a “indústria” largamente predominante no trânsito é a da morte. Voltar a permitir velocidades letais é inspirar-se do mote dos pistoleiros facho-franquistas: “Viva la muerte!, abajo la inteligência!”. Exagero? A correlação entre velocidade e mortes (ou lesões permanentes) está comprovada em todos os países que dispõem de estatísticas sérias sobre o trânsito. Nas vias marginais de São Paulo, entre julho de 2015 (quando entrou em vigor a redução da velocidade decretada por Haddad) e junho de 2016, as mortes caíram pela metade, de 64 para 31, relativamente aos doze meses anteriores. Quanto subirão com a anunciada opção preferencial pela alta velocidade?

As opiniões do futuro prefeito João Dória são curtas, incisivas e monotonamente iguais às da massa dos coxinhas: ódio ao PT, à esquerda, à redistribuição de renda em favor dos mais pobres; culto do “mercado”, da privatização, dos privilégios dos ricos, em síntese, ditadura da grana. Não gostamos desse pequeno Berlusconi, mas consideramos que as críticas devem ser objetivas: ele não foi o único a assumir a causa da barbárie ao tentar desqualificar as medidas civilizatórias que atacar Haddad adotou. Tanto o candidato evangélico quanto a candidata traíra, que chegaram em terceiro e em quarto lugar, respectivamente, usaram e abusaram da baixa demagogia anti multas.

Para quem não tem presentes à mente os dados da hecatombe do trânsito, basta notar que há quarenta anos atrás já constava que “o trânsito do Brasil é o que apresenta maior índice de mortes em todo o mundo, com 25,9 vítimas anuais para cada grupo de 10 mil veículos, segundo estatísticas de 1975, o que equivale a oito vezes mais do que nos Estados Unidos” (Jornal do Brasil de 14-5-1978). De lá para cá, a violência motorizada estirou seus tentáculos pelos quatro cantos do país. Desde o início dos anos 1980 ela vem matando entre 45.000 e 50.000 vítimas, a maioria pedestres, principalmente crianças e velhos pobres que andam a pé. Ainda hoje, o trânsito do Brasil figura entre os quatro mais mortíferos do mundo: 23,4 mortos por ano para cada 100.000 habitantes.

Ser contra as multas dá votos.  Em 1988, quando candidata à Prefeitura de São Paulo, interrogada, como os demais concorrentes, a respeito do que projetava para o trânsito, Luisa Erundina pronunciou-se contra as multas, com o primoroso argumento de que o importante “não é multar, mas educar o motorista”. Tinha obrigação de saber que em todos os países de trânsito civilizado as multas são pesadíssimas. Erundina preferiu lançar fórmulas “simpaticamente” eleitoreiras a assumir em relação à delinquência motorizada a severidade necessária para resguardar o interesse coletivo. Ideologicamente, nesta questão, optou pelo liberalismo selvagem, ponto de vista exatamente oposto ao da luta para civilizar o trânsito. Que Haddad, o primeiro a enfrentar energicamente a barbárie do trânsito tenha sido amplamente derrotado nas urnas, depõe a seu favor. Depõe contra os coxinhas e outros boçais.

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Um comentário sobre “Retrocesso civilizatório em São Paulo

  1. Desrespeitosamente real. Parece que o regresso ao medievo está em pauta, entra-se numa máquina do tempo, vamos de volta à barbárie, à intolerância, à uma vingança pautada na “hybris”. O desacordo político que ignora – de fato – os cidadãos, peça “chave” na democracia, as discussões egocêntricas e partidárias que – não menos que sempre – colocam o povo no lugar de vassalos, dando pão e água como se fossem banquetes… E as pessoas aceitam o que lhes vendem, sem questionamento… Ainda me pergunto se realmente saímos da era das trevas do medievo. Embora a Ciência tenha avançado inexoravelmente de modo exponencial, parece-me que o substancial do homem está se perdendo, sua essência social, o ser gregário entregue ao capital…

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