O pastorzinho e seu rebanho de braços dados com o fascismo cotidiano.

Cesar Mangolin

Escrevi um pequeno texto e publiquei por aqui faz algum tempo. Alguns anos, aliás. O título era “O infeliz Feliciano não fala ao vento”. Replico alguns trechos daquele texto aqui. Naquela ocasião o infeliz havia tentado justificar a suposta inferioridade dos negros e do continente africano (!) a partir de uma passagem bíblica, que indicava que deus os havia amaldiçoado. O sujeito é bom em falar besteira e propagar violência: disse coisas similares sobre homossexuais, sobre portadores de HIV, sobre as mulheres. Nesta semana, o infeliz pastor de asininos chamado Feliciano, que é deputado federal, acusado de estupro, de inteligência questionável e de valores reprováveis voltou à carga, fazendo gracejos com a execução da vereadora do PSOL do Rio de Janeiro e com os que militam à esquerda.

É sempre de lamentar qualquer pessoa que comemore ou faça graça com a morte de alguém. Principalmente nas condições e pelas patentes motivações da execução da vereadora. De lamentar mais ainda são aqueles que se apressaram a publicar uma série de informações mentirosas sobre a vereadora Marielle Franco, como se justificassem a sua morte. Mesmo que todas as mentiras publicadas fossem verdade, ainda assim, comemorar ou justificar a morte de alguém e naquelas condições é algo que revela caráter duvidoso, valores rebaixados e uma violência ilimitada.

Claro que essa violência partiu de mais gente e não apenas dessa parcela de cristãos estúpidos que segue gente como esse pastor e que consegue conciliar cristianismo, safadeza e violência que faria inveja a qualquer membro da família do papa Alexandre VI, o Bórgia. Disposição, aliás, que coloca cristãos ao lado do que há de mais reacionário, antipopular e violento no país, como a síntese da estupidez personificada no nazi-cristão Bolsonaro (não esqueçam que ele foi batizado pelo também pastor – e ex-candidato à presidência – Everaldo nas águas do Rio Jordão!). Não é por acaso que seu candidato a vice já foi escolhido dentre eles: um pastor selecionado num chiqueiro repleto de outros pastores imbecis tanto quanto o cabeça de chapa e seus seguidores.

Há, sem dúvida, uma confluência ideológica entre os nossos neofascistas e uma parcela dos cristãos, assim como dentre uma considerável parcela da pequena burguesia, que serve de base social ao retrocesso que vivemos.

Como escrevi na primeira oportunidade, o que chama mais a atenção é que o tal pastor não fala ao vento: fala para um rebanho que parece ser tristemente grande. Ele foi feito deputado com alguns milhares de votos; tem seus fiéis; representa não apenas a si próprio ou a uma pequena comunidade, mas faz coro com milhões de vozes, de outros tantos pastores e seguidores cegos de uma fé estúpida, porque preconceituosa, excludente e baseada em preceitos questionáveis. O pastor não fala ao vento porque é expressão de uma parcela considerável de brasileiros, cristãos ou não, que vêm os negros e homossexuais como excrescências,  assim como vêm os mais pobres como “gente diferenciada” e, fundamentalmente, levam ao extremo uma violência dirigida contra os mais pobres, mais vulneráveis socialmente e contra aqueles que se levantam e lutam contra as desigualdades que vivemos.

Eu estou convencido que é um traço cultural nosso, herança ainda da nossa formação colonial e replicada e ajustada às transformações pelas quais o país passou nesses cinco séculos. Um traço característico de uma formação realizada em todos os sentidos através da violência e da exploração bestial de vastos contingentes da população. E não é somente violência direta e explícita. É também o que nos faz permissivos com os mais ricos e implacáveis com os mais pobres; é o que faz considerar com pesos distintos as ações que partem de classes distintas, que são praticadas por grupos mais ricos ou mais pobres: o uso de drogas pode ser glamouroso ou ser um vício detestável; a orientação sexual e as parcerias múltiplas podem ser festejadas ou reprovadas; mesmo a corrupção pode ser suportada ou considerada o mal do século.

Nosso país ainda é um país de miseráveis e pobres. Tanto no escravismo, quanto com o advento das incríveis oportunidades de diversificação da miséria trazidas pelo desenvolvimento capitalista, tratou-se de justificá-la atribuindo aos que padecem dela a responsabilidade. Mesmo dentre os que discordam do tal pastor de tolos há um grande contingente  que  faz o discurso liberal de que o acesso à educação resolveria esses problemas. Ora, isso nada mais é que atribuir a miséria à ignorância, portanto, a uma responsabilidade dos próprios miseráveis que poderiam ser salvos pelas palavras de um bom e bem intencionado professor que, no geral, pensa como um pequeno-burguês e está carcomido até às entranhas por esses preconceitos todos.

A pequena burguesia (ou a “classe média”), no seu combate intensivo aos programas sociais de distribuição de renda, costuma utilizar a frase do “Não dar o peixe, mas ensinar a pescar”. Novamente, por detrás da frase, temos a atribuição da responsabilidade da miséria à ignorância. Uma inversão comum, portanto, visto que a ignorância decorre da miséria, e não o contrário. Atribuir ao violentado a responsabilidade da violência que sofre é um recurso cotidiano das nossas relações. Triste exemplo são as violências de todo tipo contra as mulheres e as tentativas de justificá-las. Outro exemplo? Tente tratar do tema do racismo com qualquer grupo e conte no relógio: garanto que em menos de três minutos a frase “mas os negros são mais racistas”, a ideia do racismo reverso e a triste noção do suposto vitimismo aparecerão e embolarão o tema.

A ignorância não é propriedade privada dos miseráveis: a maior parte do povo brasileiro padece dela, mesmo os círculos intelectualizados, em todas as classes sociais. Isso não se resolve com educação formal. O que está enraizado secularmente no viver e no pensar não se resolve mudando apenas o pensar em um de seus níveis, como o acúmulo das informações recebidas por vias formais. Há um nível mais profundo do pensar, aquele que é determinado pela vida, que justifica o princípio da filosofia materialista que afirma que pensamos como vivemos. Sair da ignorância significa, portanto, mudar o viver, que muda o pensar.

Parece que a maioria das pessoas, embora tenham as informações necessárias que rompem com os preconceitos como os expressos pelo pastorzinho da vez, não é capaz de sintonizar a vida e o pensamento. Lá no fundo, determinados pela vida prática, balançam a cabeça como jumentos concordando com o pastor. Seu público é, infelizmente, muito maior do que se pensa.

Mas há um bom sinal nisso tudo: a radicalização do discurso desses líderes religiosos, políticos medíocres e movimentos de moleques fascistoides, escancarando seus preconceitos e informações falsas, leva a uma parcela considerável dos que ainda acreditam e replicam essas bobagens os elementos primeiros do rompimento, ainda confuso, com a moral de rebanho. O ápice do que foi construído sobre a mentira é também sinal do começo da queda.

Os que lutam como Marielle Franco pelo “belo, pelo justo e pelo melhor do mundo”, como escreveu Olga Benário, assistirão a derrota do pastor da vez e seus congêneres de um local privilegiado.

 

 

 

 

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