“Nós limpamos a bunda da sociedade!”

Cesar Mangolin

Relanço aqui uma reflexão de alguns anos em comemoração ao dia dos professores e, porque não, ao dia das crianças: professores e estudantes podem refletir sobre nossa função e nossas ilusões. O texto é o mesmo de 2010, com poucos retoques. O título continua sugestivo…

A frase que nos serve de título foi dita por uma professora de uma escola de ensino infantil, que reclamava das suas precárias condições de trabalho e da falta de um material básico para trocar as fraldas das crianças: luvas descartáveis.

Para ser sincero gostei muito da frase. Talvez essa seja a melhor síntese, no final das contas, do papel dos professores da educação formal, em todos os níveis: limpar a bunda da sociedade! Lendo até o final você vai entender o porquê.

A frase não é polida e nem gentil, sem dúvida. Mas defendo que a palavra falada e escrita permita que se entenda claramente a intenção daquele que fala ou escreve. Tenho certeza que muitos já compreenderam o texto todo lendo apenas a frase em questão. Portanto, abaixo a polidez!

Já insisti nesse espaço no papel reprodutor da educação formal. O filósofo Louis Althusser, que tratou a escola como um aparelho ideológico fundamental das formações sociais capitalistas, chamava a atenção para o fato de a escola aparecer como algo inquestionavelmente necessário para a nossa vida, assim como a igreja parecia sê-lo nos tempos do feudalismo. Daí que dificilmente alguém pensa na possibilidade de sua eliminação. Sempre vem a pergunta: “mas  o que colocamos no lugar?” –  Que tal refletir um pouco sobre a possibilidade de não colocar nada em seu lugar? Parece impossível, não é? Daí os pedagogos e outros profissionais bem intencionados passarem a vida tentando e propondo formas de arrumar essa máquina de moer gente. O problema é que a escola não tem defeito algum: cumpre, exatamente, seu papel.

Na verdade, poucos conseguem perceber a insanidade do processo escolar. Para os que passam por todos os seu graus, são mais ou menos 17 anos de frequência regular, quase que diária, desde a mais tenra idade até a vida adulta. Caso se queira somar aí a pós-graduação, podemos incluir pelo menos mais 6 anos.

Nela são transmitidos os condicionamentos básicos, mais que a construção de conhecimento: uma “visão de mundo” que torna naturais e razoáveis as relações sociais de produção capitalistas, o reconhecimento e a obediência cega às hierarquias, ficar preso e fazer coisas nas quais não se vê sentido,  enfim, aprende-se a viver nesse mundo e aprende-se, pela ideologia do mérito, a aceitar a distribuição que a escola opera para o “mercado” de trabalho. Indivíduos, avaliados individualmente, que são apenas um número durante anos e convencidos de que são os únicos responsáveis por sua trajetória de vida, seu sucesso ou seu fracasso. Claro que sucesso e seu contrário também são ideologicamente construídos: significa o exercício de algum trabalho não-manual e a acumulação de determinada quantidade de riqueza material ao longo da vida. Os que não o alcançam aprendem a atribuir à sua própria incompetência individual a responsabilidade de seu trágico fim. É a ideologia do mérito pessoal e seus efeitos.

A verdade é que não existem postos de trabalho não-manual para todos, assim como não existe correlação entre o número de diplomados e as vagas abertas nesse grande comércio de carne humana que se chama, de forma equívoca, “mercado de trabalho.” Não havendo essa relação direta, ocorre o fenômeno do que prefiro chamar de sobrecertificação, no lugar da batida sobrequalificação. Isso porque falar de qualidade de ensino é sempre bastante complicado, gelatinoso e, geralmente, acaba despolitizado por um discurso tecnicista que pretende medir conhecimentos que seriam imprescindíveis (decididos por quem?).

Havendo um número de diplomados sempre crescente, as empresas passam a elevar a exigência de certificação para a ocupação de postos que, há pouco tempo, bastava o ensino fundamental. Por sua vez, essa elevação provoca a corrida aos bancos escolares e aos bancos das universidades, atrás do famigerado diploma, e isso alimenta uma grande máquina de fazer dinheiro para as instituições privadas, jamais a construção do conhecimento.

A obrigatoriedade de “estudar”, essa pena que deve ser cumprida pelo único crime de ter nascido, torna qualquer coisa que signifique construir conhecimento como algo chato, enfadonho, enfim, como qualquer coisa que não se faz quando se tem possibilidade de escolher. A escola, no geral, elimina a possibilidade e a vontade de construir conhecimento.

E quem são os agentes diretos dessa desconstrução? Quais são aqueles que, por vezes de forma inocente, transmitem ao longo da vida ideologia travestida de ciência à quase totalidade da população? Somos nós, os professores.

Pode-se argumentar que nem todos fazem isso. Mas não adianta coisa alguma não fazê-lo: a lógica do sistema é determinada por um objetivo, que é a necessidade da certificação. A obrigatoriedade da frequência, as notas nas malditas provas, são suportadas em nome da possibilidade de viver um pouco melhor, ou continuar a viver como se vive, mantendo posições, como faz a classe média.

Ainda que um professor se esmere na tentativa de reverter esse fim funesto, a lógica do sistema e seus demais colegas fazem o trabalho de coveiros. Busca-se a escola para poder conseguir uma inserção melhor nessas mesmas relações de exploração do trabalho, não para transformá-la. A ideologia do mérito pessoal movimenta as pessoas e é estimulada pelos professores e pelos “media” o tempo todo. Buscam a escola para lutar por sua escravidão, como se lutassem pela liberdade!

Está aí o segredo do aparelho escolar e sua importância: inculcar a ideologia dominante, distribuir os indivíduos nos postos de trabalho, garantir as condições de reprodução do modo de produção capitalista.

É como se a escola tivesse uma ação de tornar, na aparência, limpas e saudáveis essas relações. Através do processo escolar se justifica a exploração do trabalho e se faz creditar as posições às capacidades e incapacidades pessoais. A ordem capitalista é vista, portanto, como algo bastante razoável, justa e natural: os melhores avançam, os piores lhes servem.

A escola oculta as relações sociais reais, não permite que se compreenda a essência das relações sociais capitalistas, limpa a sujeira desse tipo de organização social, ou a oculta, pelo menos.

Os professores são linha de frente nessa tarefa: não limpam a bunda de gente, limpam a bunda da ordem capitalista, para que ela apareça como algo belo, justo e natural.

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Curso sobre Darcy RIbeiro

Camaradas,
para quem quiser esquentar as férias estudando um pouco de maneira
mais tranquila: segue um interessante curso do ICHS sobre o grande Darcy Ribeiro e
sua obra “O povo brasileiro” . Interessante para quem já leu ou pretende ler ou se informar um tanto sobre o contexto da produção do antropólogo brasileiro, o lugar dessa obra no conjunto da sua produção e o passo a passo da obra em si. Participei do curso ao lado do meu camarada e amigo, prof. André Olobardi. Ficou bem legal e tem um certificado dado pelo ICHS. Abraço!
Há outros cursos disponíveis!!!

Aos cristãos: que o Natal seja um ponto de inflexão!

Cesar Mangolin

Cesar Mangolin

Perdi a regularidade dos textos do blog por causa de outras tarefas que preciso cumprir, mas não poderia deixar de mandar um salve pelo natal aos cristãos.

Fui cristão um dia. Tenho críticas diversas ao cristianismo e ao papel que tem cumprido pelos séculos no auxílio à opressão e exploração dos trabalhadores, exatamente aqueles pequeninos que o seu mestre alertava que tudo que fosse feito a eles era a ele que se fazia. Discordo da venda de ilusões, do comércio da fé, da individualização constante, da carneirização do povo, do discurso moralista que despreza a vida.

Qual camaleão milenar, ninguém deve discordar de que o cristianismo, desde que se romanizou, se ajusta de maneira formidável aos interesses das classes dominantes e expressa, como dogmas de fé, valores sobre os quais se justificam as mazelas vividas pelos mais pobres.

Outro aspecto que me desagrada profundamente é a intolerância, que…

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Determinismo ou liberdade absoluta? Nem um, nem outro (de um debate sobre Ética…)

Cesar Mangolin

Há uma tentativa de conceber a vida humana como determinada integralmente. Essa tentativa não é somente de algumas vertentes religiosas, mas também de algumas dadas concepções científicas. Sem dúvida, embora em campos bem distintos, a conclusão de cientistas e religiosos conflui para o mesmo veredicto: há um destino, uma pré-determinação, a ausência de autonomia do humano diante do inexorável caminho a seguir.

No campo da ciência há, de um lado, a defesa, à semelhança da física newtoniana,  de que vivemos sob um conjunto de leis imutáveis que nos conduzem inexoravelmente por caminhos previsíveis; de outro,  há a tentativa de naturalizar (daí o recurso à ciência) os comportamentos humanos, como se derivassem apenas de disposições genéticas, contribuindo para tanto muito pouco o contexto histórico no qual vivemos. Tal naturalização, que ocorre também no universo das ciências sociais (exemplo disso pode ser encontrado na economia clássica e no pensamento liberal em particular), tem na verdade outras intenções ou consequências: naturalizar o comportamento humano permite justificar determinados aspectos que, se fossem tratados como históricos, políticos, culturais exigiriam uma intervenção de outro tipo e, inclusive, solução: exemplos disso são as tentativas de justificar (naturalizando) as desigualdades sociais, a exploração de grupos étnicos, a exclusão de determinados grupos por gênero, orientação sexual etc..

De outro lado, há a tentativa de definir o humano como totalmente livre, ou seja, capaz de tornar sua existência apenas o que bem quiser que ela seja, tomando as decisões ou “escolhendo” o caminho a seguir. No geral, por detrás da ideia da liberdade absoluta está outro mito do nosso tempo: a figura do indivíduo, compreendido com um ser singular que existe antes da vida social, sendo as instituições estatais responsáveis pela preservação dos direitos naturais e individuais (vida, propriedade privada, liberdade). Podemos encontrar esse tipo de compreensão no final do século XVII, em John Locke, pai do pensamento liberal, no Segundo Tratado Sobre o Governo Civil, que  influenciou largamente tanto as ideias predominantes do movimento Iluminista, quanto a consolidação prática do ideário das revoluções que colocaram fim ao Antigo Regime na Europa Ocidental e na independência dos EUA, bem como nos movimentos de independência das colônias espanholas e portuguesas no século XIX. A permanência dessas ideias é compreensível, pois se tornaram funcionais à reprodução das sociedades capitalistas.

O fato concreto é que, indo para além das aparências e dos discursos fáceis de existencialismos diversos, podemos constatar com  alguma facilidade que não somos nem livres totalmente, nem determinados completamente. Isso não significa buscar o meio termo para a solução do problema.

É claro que somos pessoas singulares, mas essas singularidades orgânicas pertencem a um conjunto de relações sociais determinadas historicamente. É o que permite com que falemos dos humanos como “produtos do meio”, ou seja,  nós nascemos em lugares sociais que não escolhemos, em momentos históricos que não escolhemos e antes mesmo de tomarmos consciência de que somos seres vivos e que, como os demais, iremos morrer um dia, já somos amplamente influenciados e determinados  pelo conjunto dessas relações e pela maneira como nos inserimos nelas.  O “sujeito” é, antes de tudo, aquele que passou por esse processo de sujeição.

Pensar a liberdade humana, portanto, exige levarmos em consideração essas contingências. Devemos incluir para esse debate, categorias como possibilidade, probabilidade, necessidade e acaso. É o conjunto dessas circunstâncias que determinam nossa existência que abre  “leques limitados de possibilidades”, diante dos quais fazemos escolhas, nem sempre de acordo com a vontade individual. O acaso deve ser entendido aqui como acontecimentos ou o encontro aleatório de elementos que pode abrir e fechar possibilidades, tornar algumas delas mais prováveis e outras mais distantes. A liberdade de escolha é, portanto, contingente, relativa, jamais absoluta.

Para a reflexão ética do nosso tempo, assim como aparece em autores mais antigos, tais considerações deveriam nos levar à tentativa de orientarmos essas escolhas e decisões contingenciadas tendo sempre em vista a concretização do bem comum, ou seja, adotarmos o critério da escolha que menos afete negativamente o conjunto e que mais traga benefícios coletivos, fugindo assim do culto ao indivíduo e do egoísmo e enfrentando, de fato, os problemas que tornam as nossas relações sociais desiguais e violentas. Aqui, novamente, a figura mítica do indivíduo deve ser abandonada.

 

ABAIXO O GOLPE! – palavra de ordem para uma frente progressista, democrática e de esquerda.

Cesar Mangolin 

Penso que, ainda que por motivações distintas, as organizações da esquerda engoliram o golpe com alguma facilidade e com maior facilidade ainda dispuseram da presidenta Dilma e da legitimidade do seu mandato, independentemente de concordar ou de ser base ou não do governo.

Tivemos partidos que assumiram uma posição crítica e combativa, mas pelas expectativas eleitorais se viram, lamentavelmente, ao lado dos golpistas em diversas situações, no primeiro e no segundo turno; teve posição que pouco caso fez da presidenta Dilma: trataram o golpe como uma derrota momentânea e que pode ser resolvida com as eleições de 2018; e temos os casos daquela esquerda pequeno-burguesa que se divide entre posições curiosas: tem partido que festeja o golpe (assim como festeja a “primavera árabe” e anda pedindo mais bombas imperialistas sobre a Síria); tem daqueles que assumem uma posição moralista e apolítica: a incapacidade de compreender até agora o que está acontecendo permite apenas que apontem os dedos insistentemente para o PT como o grande culpado e sigam no mundo particular que construíram para si, esperando que a revolução venha lhes bater a porta; por fim, há daqueles que não podem tomar uma posição mais clara porque possuem vários pequenos partidos internamente, que vão desde as referidas posições anteriores (todas elas!), passando pela louvação da Lava Jato e até pela utilização de métodos heterodoxos de luta contra o golpe, que assume um caráter festivo e se expressa por cirandas e bundaços… A pequena-burguesia quando se encontra com a pós-modernidade acadêmica produz dessas coisas… E ela se diverte, sem dúvida. Deixemos os meninos brincarem.

Mas para quem não vê nada engraçado nesse processo, resta ainda a compreensão de que a pequena-burguesia é também a base social fundamental da reação: organizações que foram financiadas no suporte ao golpe agora se especializam em formar cães de guarda para, ao lado da polícia militar, atacar movimentos populares, como tem ocorrido com o movimento estudantil recentemente. A UNE, a UBES e o conjunto do movimento estudantil dão o exemplo de combatividade  ocupando escolas e universidades, câmaras municipais e, recentemente, inclusive o escritório da presidência da República em São Paulo. É por sua organização que sofre, prioritariamente, a repressão. Mas seguimos, com exemplos cotidianos e numa linha ascensional, com a violência praticada por forças do Estado e por seu aparelho jurídico. Não é mais o ovo da serpente: temos suas crias em plena ação.

A recente derrota eleitoral do campo popular, progressista e de esquerda é apenas o reflexo da bem sucedida ação do consórcio golpista montado a partir de 2013, reunindo partidos políticos, meios de comunicação de massa, profissionais do Direito cooptados, frações da burguesia, interesses imperialistas e do grande capital estrangeiro. Consórcio golpista, aliás, que não é uma exclusividade brasileira… O alto índice de abstenção eleitoral não revela simplesmente um descontentamento com a “política”: revela uma desesperança e um desprezo pelo processo institucional que foi amplamente desesperado e desprezado na farsa do impeachment da presidenta Dilma.

Como levar eleições a sério depois de tamanha carga propagandística que desqualificou por pelo menos dois anos o universo político institucional? Isso explica a eleição de excrescências como Dória em São Paulo, fazendo o discurso de que não é político. Curioso ver que candidatos de uma esquerda que se propõe como alternativa ao eleitorado próprio do PT tenderam a embarcar na mesma conversa, mas ali o resultado foi outro. Isso porque a política institucional foi arranhada, mas a esquerda foi, em conjunto, demonizada.

Não tenho dúvida que grande parte dessa massa da população que se absteve deve, inclusive, desaprovar o governo golpista de Temer e todas medidas tomadas contra os trabalhadores. Há um crise de credibilidade envolvendo os três poderes. Mas não tenho dúvida de que não tendem para a esquerda: essa massa descontente pode aderir facilmente a saídas mais à direita, a um fechamento maior disso que, retirado o verniz de legitimidade, se assemelha em tudo a uma ditadura, ainda que dando seus primeiros passos firmes.

Essa massa tende a aderir com alegria a um golpe dentro do golpe: a eleição indireta de um presidente, no ano que vem, assim que o TSE votar o impedimento da chapa Dilma – Temer… Esta é uma possibilidade daquelas que têm tudo para a concretização. Um presidente eleito pelo parlamento, para governar por dois anos. Um tucano, sem dúvida… Sejam quais forem as consequências desse ato,  fato mesmo é que representa um passo adiante no sentido do obscurantismo que tomou conta das instituições brasileiras. Dependendo dos desdobramentos, quem pode ter certeza de que teremos eleições em 2018?

Diante das condições adversas nas quais lutamos, me parece que vale uma mudança de palavra de ordem: ABAIXO O GOLPE!  e não FORA TEMER!… Justifico: o “fora Temer” é também pensado por setores dos próprios golpistas, que sonham com a condução de um tucano à cadeira presidencial por via indireta.  Nossa propaganda deve fazer a denúncia sistemática do processo do golpe, das possibilidades do golpe, apontar saídas progressistas, mas também defender a restituição da presidenta Dilma ao seu mandato conquistado pelo voto da maioria dos brasileiros: essa é uma condição fundamental se falamos em derrotar o golpe e retomar a “normalidade” institucional.

Isso não é o cenário dos sonhos, mas apenas lidar concretamente com a conjuntura adversa em que vivemos, sem os oportunismos de direita e sem desvios de esquerda. Poderíamos ter aí uma base para a formação de uma ampla frente, progressista, democrática e de esquerda: ABAIXO O GOLPE!; contra as medidas que ferem as conquistas dos trabalhadores; pela restituição legítima do mandato da presidenta e a punição dos golpistas.

 

Retrocesso civilizatório em São Paulo

JOÃO QUARTIM DE MORAES

As manipulações da operação policial-judiciária dita “Lava Jato”, dirigidas prioritariamente contra o PT, exerceram efeito desmobilizador sobre o eleitorado brasileiro. Não era exatamente o que Moro e consortes pretendiam: queriam quebrar a esquerda, oferecendo ao “senso comum” o cadáver moral dos principais dirigentes petistas. Acabaram fazendo estragos maiores. É próprio aos preconceitos generalizar para um grupo amplo, heteróclito e de contornos mal definidos a torpeza atribuída a uma de suas parcelas. O descrédito gerado pelos duvidosos métodos de “delação premiada” acabou afetando os “políticos” em geral, embora não nas mesmas proporções. O cartel dos donos da notícia incumbiu-se de proteger os participantes do golpe de abril 2016, maquilando de “estadistas” alguns dos mais imponentes e contumazes saqueadores de fundos públicos. Os golpistas também se beneficiam de crises agudas de amnésia que acometem a Polícia Federal, a Promotoria e os Juízes, com Moro à frente, cada vez que alguma de suas bandalheiras cai no radar das famigeradas delações premiadas.

Na falta de qualquer outra qualidade intelectual notória, o vitorioso candidato do PSDB à Prefeitura de São Paulo foi esperto o bastante para deixar em surdina sua condição de clone de Alckmin, apresentando-se como administrador, não como “político”. Logrou graças a esta camuflagem aproveitar a fundo o “efeito Berlusconi”: desmoralizados os partidos políticos, o milionário fez sucesso entre os coxinhas prometendo gerir a “coisa pública” com métodos patronais. Foi eleito no primeiro turno, com 3.085.187 votos, deixando bem atrás o prefeito Haddad, candidato à reeleição, que obteve 967.190 votos. O cartel mediático comemorou, eufórico, esta grande vitória eleitoral da direita, mas foi mais discreto a respeito de um claro e grave sintoma de desapreço pelas instituições vigentes: maior do que a vitória eleitoral da direita foi a dos 3.096.304 votos em branco, nulos e  abstenções.

A motivação mais forte desses votos negativos parece-nos decorrer do “efeito golpe”, que afetou principalmente o eleitorado de esquerda e o campo progressista em geral. A revolta contra a cassação do mandato da presidente Dilma, portanto contra a anulação de mais de 54 milhões e meio de votos, levou parcela importante desse eleitorado a expressar seu protesto contra a trapaça perguntando de que servia sufragar um candidato se o veredito das urnas estava à mercê das sórdidas manobras dos deputados e senadores golpistas.

São Paulo é um Estado em que o voto de direita é historicamente forte. Mas em seus grandes centros urbanos e industriais, os comunistas e mais tarde a esquerda petista abriram muitas brechas nas posições do campo dominante. A última delas foi a eleição de Haddad para prefeito da capital. Sem pretender avaliar o conjunto de seu desempenho, em seu ativo ficam duas iniciativas, ambas em defesa da civilização contemporânea: as ciclovias e a redução das velocidades nas marginais. Foi exatamente contra estas medidas civilizatórias que os candidatos da direita e do centro concentraram sua propaganda, brandindo o surrado chavão da “indústria da multa”.

Essa expressão sempre esteve na boca dos contraventores contumazes, que são muitos e perigosos. É preciso forte dose de má fé ou espessa ignorância para não admitir que a “indústria” largamente predominante no trânsito é a da morte. Voltar a permitir velocidades letais é inspirar-se do mote dos pistoleiros facho-franquistas: “Viva la muerte!, abajo la inteligência!”. Exagero? A correlação entre velocidade e mortes (ou lesões permanentes) está comprovada em todos os países que dispõem de estatísticas sérias sobre o trânsito. Nas vias marginais de São Paulo, entre julho de 2015 (quando entrou em vigor a redução da velocidade decretada por Haddad) e junho de 2016, as mortes caíram pela metade, de 64 para 31, relativamente aos doze meses anteriores. Quanto subirão com a anunciada opção preferencial pela alta velocidade?

As opiniões do futuro prefeito João Dória são curtas, incisivas e monotonamente iguais às da massa dos coxinhas: ódio ao PT, à esquerda, à redistribuição de renda em favor dos mais pobres; culto do “mercado”, da privatização, dos privilégios dos ricos, em síntese, ditadura da grana. Não gostamos desse pequeno Berlusconi, mas consideramos que as críticas devem ser objetivas: ele não foi o único a assumir a causa da barbárie ao tentar desqualificar as medidas civilizatórias que atacar Haddad adotou. Tanto o candidato evangélico quanto a candidata traíra, que chegaram em terceiro e em quarto lugar, respectivamente, usaram e abusaram da baixa demagogia anti multas.

Para quem não tem presentes à mente os dados da hecatombe do trânsito, basta notar que há quarenta anos atrás já constava que “o trânsito do Brasil é o que apresenta maior índice de mortes em todo o mundo, com 25,9 vítimas anuais para cada grupo de 10 mil veículos, segundo estatísticas de 1975, o que equivale a oito vezes mais do que nos Estados Unidos” (Jornal do Brasil de 14-5-1978). De lá para cá, a violência motorizada estirou seus tentáculos pelos quatro cantos do país. Desde o início dos anos 1980 ela vem matando entre 45.000 e 50.000 vítimas, a maioria pedestres, principalmente crianças e velhos pobres que andam a pé. Ainda hoje, o trânsito do Brasil figura entre os quatro mais mortíferos do mundo: 23,4 mortos por ano para cada 100.000 habitantes.

Ser contra as multas dá votos.  Em 1988, quando candidata à Prefeitura de São Paulo, interrogada, como os demais concorrentes, a respeito do que projetava para o trânsito, Luisa Erundina pronunciou-se contra as multas, com o primoroso argumento de que o importante “não é multar, mas educar o motorista”. Tinha obrigação de saber que em todos os países de trânsito civilizado as multas são pesadíssimas. Erundina preferiu lançar fórmulas “simpaticamente” eleitoreiras a assumir em relação à delinquência motorizada a severidade necessária para resguardar o interesse coletivo. Ideologicamente, nesta questão, optou pelo liberalismo selvagem, ponto de vista exatamente oposto ao da luta para civilizar o trânsito. Que Haddad, o primeiro a enfrentar energicamente a barbárie do trânsito tenha sido amplamente derrotado nas urnas, depõe a seu favor. Depõe contra os coxinhas e outros boçais.